Para brindar os 75 anos de Chico, as canções que lembram seu precioso legado artístico, o ativismo e, claro, a boa mesa

MARCO MERGUIZZO – “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. Embora a frase, antológica, seja do genial Caetano Veloso, ela expressa em boa medida a trajetória grandiosa de um outro gigante da MPB e da cultura nacional: a de Chico Buarque de Holanda, uma figura superlativa nos cenários musical, cultural e político brasileiros nas últimas cinco décadas, e que nesta quarta-feira, dia 19 de junho de 2019, completa 75 anos de vida.

Músico, compositor, escritor, dramaturgo, ativista, intérprete de suas própria canções, além de bom de garfo e copo e apaixonado por futebol, Chico eternizou em composições ultraesmeradas, não apenas o seu olhar acurado, crítico e sensível sobre a vida nacional (em especial, nos períodos da Ditadura, entre os anos 1960 aos 80, e da redemocratização do país, nos 90) e o mundo, mas, também, registrou em algumas delas predileções pessoais à mesa e uma série de pratos populares, bem ao gosto dos personagens criados para suas peças e musicais a partir dos tipos humanos que formam o povo brasileiro.

É o caso, entre as músicas do seu vasto e precioso repertório, de Cálice, de Construção, de Cotidiano e Feijoada Completa, nas quais Chico eterniza o vinho, o café e outros clássicos da cozinha brasileira, como a feijoada e, até, o trivial feijão com arroz nosso de cada dia. (Confira no final do post as letras e as gravações desses clássicos buarquianos).

Classe de 1944, Chico nasceu Francisco no dia 19 de junho na Cidade Maravilhosa. Oriundo de uma família de intelectuais – os Buarque de Holanda – é filho do importante historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), autor de livros essenciais, como “Raízes do Brasil”(1936), e de Maria Amélia de Carvalho Cesário Alvim (1910-2010), pintora e pianista, e mano de seis irmãos.

Desde bem cedo, conviveu com diversos artistas, amigos de seus pais e da irmã Heloísa, entre os quais, João Gilberto, Vinicius de Moraes (o Poetinha, Baden Powell, Tom Jobim, Alaíde Costa e Oscar Castro Neves, entre outros. Em 1952, mudou-se com sua família para Roma onde o pai foi lecionar. Na capital italiana eram comuns os serões familiares em que sua mãe ou seu pai acompanhavam ao piano o diplomata Vinicius de Moraes, que cantava os sambas da época.

Em muita boa companhia: o Poetinha, Tom Jobim e o “vesguinho” Chico

Dois anos depois, Chico retornaria ao Brasil para estudar no Colégio Santa Cruz, em São Paulo. Nos tempos de adolescência, leria de tudo: dos russos Dostoievski e Tostoi e os franceses Céline, Balzac, Zola e Roger Martin aos peso-pesados da literatura Guimarães Rosa, João Cabral de Mello Neto, José Lins do Rego, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Graciliano Ramos.

Foi com a irmã Heloísa e os amigos dela, entre eles, um certo João Gilberto (a quem procurava imitar no violão), que ensaiavam os primeiros acordes de uma tal Bossa Nova, que Chico teve uma de suas maiores influências. Também ouvia muito no rádio as músicas de Ataulfo Alves, Ismael Silva, Noel Rosa e outros, além de chorinhos, sambas, marchas, modinhas, baiões e serestas.

Também ouvia canções estrangeiras. Entre seus cantores preferidos estavam o belga Jacques Brel e os norte-americanos Elvis Presley e o grupo The Platters. Mas música entraria de vez na vida de Chico por meio da irmã Heloisa. Com esta maninha teve as primeiras noções de violão, aprendendo de quebra a tocar de ouvido. Mas foi o disco Chega de saudade, de João Gilberto, que mudaria definitivamente a sua relação com a música. Chico o ouvia tão insistente e repetidamente que chegava a irritar os vizinhos.

Nem mesmo Miúcha, a sua outra mana, que mais tarde se casaria com João Gilberto, suportava ouvir sempre o mesmo som. O mantra do jovem compositor à época era “cantar como João Gilberto, fazer música como Tom Jobim e letra como Vinicius de Moraes”. Sua primeira composição Canção dos olhos foi escrita nesse período.

O genial João Gilberto, a mana Heloisa e o ainda garotão Chico Buarque

Convivendo com os amigos da mana Heloisa, teve os primeiros contatos com a bossa nova, principalmente de João Gilberto, a quem procurava imitar e que influenciou enormemente. Ouvia muito no rádio as músicas de Ataulfo Alves, Ismael Silva, Noel Rosa e outros, além de chorinhos, sambas, marchas, modinhas, baiões e serestas.

No Colégio Santa Cruz começou a envolver-se com o movimento estudantil e com organizações como a OAF (Organização de Auxílio Fraterno), que realizava campanhas para arrecadar agasalhos e alimentos para mendigos.

Ainda durante o curso científico no Colégio Santa Cruz, começou a destacar-se entre os colegas pelo amor ao futebol, pelas crônicas, chamadas de “Verbâmidas”, que escrevia para o jornalzinho da escola, e pela participação constante nas batucadas que ocorriam no ambiente escolar. Por essa época, escreveu suas primeiras composições, Canção dos olhos e Anjinho. 

Aos 20 de idade, ingressou na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), na qual somente ficaria até o terceiro ano. Ainda no segundo, se tornaria amigo de Francisco Maranhão e de outros adeptos das batucadas.  Criou com alguns colegas o Sambafo, que se reunia após as aulas para cantar e batucar no grêmio escolar ou então no Quitanda, boteco da rua Dr. Vila Nova.

Em 1966, Chico venceu o II Festival da MPB com a antológica A Banda

1964 foi icônico para o jovem Chico, pois foi nesse ano que lançou Tem mais samba, música feita sob encomenda para o musical Balanço de Orfeu, o marco zero de sua  carreira. A partir de 1965, na contramão da ditadura militar, novos talentos começaram a despontar na Música Popular Brasileira, abrindo caminho para a era dos festivais.

Os Festivais da Música Popular Brasileira foram uma série de programas transmitidos por algumas emissoras da televisão brasileira (TV Excelsior, TV Record, TV Rio,  Rede Globo) entre os anos de 1965 a 1985 que, além de revelar grandes compositores e intérpretes da nossa música, entre eles Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Geraldo Vandré, consolidaram a música popular brasileira.

Em 1966, conheceu a atriz Marieta Severo com quem se casou pouco tempo depois e com quem teve três filhas. Neste mesmo ano, Chico conquistou com a canção A Banda, ao lado de Disparada, de Théo de Barros e Geraldo Vandré, o primeiro lugar no II Festival de Música Popular Brasileira, promovido pela TV Record.

A composição – sucesso imediato de venda, com mais de 100 mil cópias em uma semana – foi saudada com uma crônica de ninguém menos do que o poeta Carlos Drummond de Andrade: “… Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.

UM ATIVISTA DE PRIMEIRA HORA

Socialista declarado, se auto-exilou na Itália em 1969 devido à crescente repressão da ditadura militar no Brasil, tornando-se, ao retornar, um dos artistas mais ativos na crítica política e na luta pela democratização do Brasil. Autor de canções de protesto, caso de Construção e Partido Alto, tais composições se tornaram praticamente hinos dos movimentos sociais na luta pela democracia. A música Meu caro amigo, por exemplo, foi direcionada ao diretor Augusto Boal quando vivia no exílio.

Por ter sido ameaçado pelo regime militar, canções como Apesar de você e Cálice foram proibidas pela censura. Adotou como saída para o problema o pseudônimo de Julinho de Adelaide, com o qual escreveu três canções: Jorge Maravilha, Acorda amor e Milagre brasileiro. Durante o exílio na Itália, Chico ficou amigo de Lucio Dalla e na França de Carlos Bandeirense Mirandópolis.

MUITO ALÉM DA MÚSICA

No teatro, Chico escreveu peças importantes da dramaturgia brasileira, como Calabar, que foi proibida pela ditadura, assim como Roda Viva. Escreveu romances premiados, a exemplo de Estorvo (1991), Budapeste (2004) e Leite derramado (2009), que ganharam o prêmio Jabuti de Literatura. Algumas das suas obras foram adaptadas para o cinema, caso do romance Benjamin, publicado quatro anos depois de Estorvo.

Perguntado certa vez sobre seus múltiplos talentos, Chico confessou que antes de músico ou dramaturgo, considerava-se um escritor. “Devo minha formação artística à literatura. Componho por intuição”, disse sem rodeios. Suas letras, desde sempre irretocáveis, eram reescritas incontáveis vezes até atingir o alto grau de exigência e perfeccionismo requeridos por ele.

Desde o lançamento de seu primeiro sucesso, A Banda, revelada em 1966, ele percorreu um longo caminho até completar 50 anos de carreira, sendo, inclusive, exilado durante a ditadura militar. Chico foi exilado na Itália em 1969, quando estava ameaçado pelo Regime Militar.

As músicas Apesar de você (interpretada como crítica negativa ao presidente-ditador Emílio Garrastazu Médici, mas que Chico sustenta ser referência à situação militar) e Cálice foram proibidas pela censura brasileira. Na Itália, ele adotou o pseudônimo de Julinho da Adelaide e compôs: Milagre Brasileiro, Acorda amor e Jorge Maravilha.

Na carreira literária, Chico também foi ganhador dos prêmios Jabuti, pelo livro Budapeste, lançado em 2004, e mais recentemente, mais precisamente há cerca de um mês, do Camões 2019, um dos maiores reconhecimentos da literatura em língua portuguesa que premia autores não só de Portugal mas de países de língua oficial portuguesa espalhados pelo mundo, e tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural do idioma através de conjunto de sua obra.

Com a concessão do Camões, Chico Buarque se tornou o 13º brasileiro a fazer parte de um seleto grupo que reúne, entre outros escritores ilustres, João Cabral de Melo Neto (1990), Jorge Amado (1994) e os portugueses José Saramago (1995) e António Lobo Antunes (2007). Enfim, um prêmio mais do que merecido pelo alcance da contribuição intelectual, artística e pela universalidade de Chico, e que se coloca muita acima das diferenças ideológicas e partidárias dos dias atuais.

Viva Chico! Viva o Brasil! Viva o povo brasileiro!

GALERIA: CHICO EM DEZ CLIQUES E IMAGENS
Ilustração: Walter Teixeira (oficial). Demais imagens deste post: Arquivo
À MESA, OS CLÁSSICOS DE CHICO
CÁLICE (1978)

Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
Pai, afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue

Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor, engolir a labuta
Mesmo calada a boca, resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta

De que me vale ser filho da santa
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta

Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado

Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento

Ver emergir o monstro da lagoa
De muito gorda a pORca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta

Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontgade
Mesmo calado o peito, resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade

Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno

Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo diesel
Me embriagar até que alguém me esqueça

COTIDIANO (1971)

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio-dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Seis da tarde, como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão

Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio-dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Seis da tarde, como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão

Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelㆆ

CONSTRUÇÃO (1990)

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua…

FEIJOADA COMPLETA (1978)

Mulher
Você vai gostar
Tô levando uns amigos pra conversar
Eles vão com uma fome que nem me contem
Eles vão com uma sede de anteontem
Salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão
E vamos botar água no feijão

Mulher
Não vá se afobar
Não tem que pôr a mesa, nem dá lugar
Ponha os pratos no chão, e o chão tá posto
E prepare as lingüiças pro tiragosto
Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão
E vamos botar água no feijão

Mulher
Você vai fritar
Um montão de torresmo pra acompanhar
Arroz branco, farofa e a malagueta
A laranja-bahia ou da seleta
Joga o paio, carne seca, toucinho no caldeirão
E vamos botar água no feijão

Mulher
Depois de salgar
Faça um bom refogado, que é pra engrossar
Aproveite a gordura da frigideira
Pra melhor temperar a couve mineira
Diz que tá dura, pendura a fatura no nosso irmão
E vamos botar água no feijão

PARA VER, OUVIR E CURTIR
CÁLICE
CONSTRUÇÃO
COTIDIANO
VAI PASSAR
FEIJOADA COMPLETA
MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
toda sexta-feira. 
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acessando @marcomerguizzo  
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