No vazio brotou uma nova vida

RITA BRAGATTO – Na semana passada, concluí o processo de reconhecimento da minha cidadania italiana. Comecei a pesquisa de certidões – do zero – há um ano. A única informação que eu tinha era que meus bisavós nasceram em Treviso, no norte da Itália. Mas não fazia ideia em qual das mais de cem comunes eles tinham sido registrados. Portanto, foi um longo percurso que envolveu contato com parentes. Amigos. Tradutores. Assessores. Viagens para busca de documentos. E muitos imprevistos permeando tudo isso.


Como um dos requisitos do processo é viver um tempo na Itália, em abril, eu vim parar em San Vito Romano, depois de vários contratempos. Eu sabia que a cidade é minúscula. Já tinha “dado um Google”. Portanto, até imaginava que seria um tempo de exílio. Mas a previsão era de que eu ficaria aqui, no máximo, três meses (tempo que demora, normalmente, a resposta do Consulado). Portanto, pensei: vou sobreviver.

San Vito Romano

Para reforçar minha suspeita do exílio, logo nos primeiros dias, conheci um italiano que me disse: bem-vinda a “San Vuoto” (vuoto, em italiano, é vazio). Nada animador, não é mesmo? Mas, infelizmente, ele sabia o que estava falando. A cidade não oferece muitas atrações. Foram muitos dias na mais completa solidão. Muitas vezes, trancada em casa, em função do mau tempo.

Mas como a vida é fluida, também fui positivamente surpreendida. Tive vários momentos de felicidade – sozinha e acompanhada. Situações simples. Coisas do dia a dia. Sem que eu percebesse, “San Vuoto” me ofertou novos sons. Novos sabores. Novos sentimentos. Conversou com meu coração. Com a minha alma. Momentos ordinários foram transformados em extraordinários. E no vazio brotou uma nova vida. Uma nova Rita!

Fico tão grata quando olho, de maneira macro, a sincronicidade do universo neste processo! As peças se encaixam como uma colcha de retalhos. Consigo ver a beleza oculta em cada mudança de cronograma. Em cada troca de fornecedor. Em cada obstáculo que me trouxe até a região do Lázio. Eu tinha de estar aqui. Neste momento. Com estas pessoas. E sinto isso de uma maneira tão intensa que, mesmo com o fim do processo, tomei a decisão de ficar mais um pouco.

Definitivamente, o reconhecimento da minha cidadania italiana não foi um mero processo burocrático. Penso que ganhei muito mais do que o direito de viver na Europa. O resgate da história dos meus ancestrais me permitiu uma grande reconciliação com a minha própria história.

Meus bisavós paternos, Amabile e Arcangelo

Dizem que a melhor forma de honrar a vida que nos foi transmitida é fazendo bom uso dela. Estou tão feliz em permanecer aqui que fica fácil imaginar meus bisavós paternos, Amábile e Arcangelo (que me proporcionaram a cidadania), sorrindo com este desfecho, onde quer que eles estejam.

Foi um longo e difícil caminho, mas com a força deles me sustentando – e a grande torcida de familiares e amigos – eu nunca tive dúvidas de que conseguiria. Por hora, fico por aqui escrevendo um novo capítulo da minha vida ao melhor estilo italiano: com muita pasta. Muito vinho. Muita alegria. E muito amor.

Rita Bragatto | Psicanalista | Consteladora Familiar
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