A Copa que não vi. A Copa que perdi. A Copa que não quero ver. Ou com Neymar somos medianos, sem ele, venezuelanos

FREDERICO MORIARTY –  Maio de 1959. A Seleção Brasileira vai realizar seu primeiro amistoso após o épico título Mundial na Suécia. O Maracanã está tomado por 150 mil pessoas. O escrete canarinho sobe as famosas escadas atrás do gol. Em meio aos herois, um rapaz de bigodes negros destoa do grupo. Era Julinho Botelho, rapaz da Penha, bairro paulistano , que fez história na terra dos Médicis italianos .

Julinho ouviu a maior vaia de toda a história do estádio Mário Filho. Durante 6 ensurdecedores minutos, a torcida destruiu o ponta-direita de estilo vertical (recém-contratado pelo Palmeiras). Tudo porque o técnico Vicente Feola decidira deixar no banco, o botafoguense e carioca Garrincha.

Às lágrimas, ele prometeu a Djalma Santos que faria os torcedores se arrependeram dos apupos. Aos 20 minutos, após três dribles sobre os defensores da poderosa Inglaterra, ele dá uma assistência para o Brasil abrir o placar. Passados 15 minutos, Julinho faz uma jogada desconcertante e enfia uma bomba: Brasil 2 a 0. Só não fez chover porque saiu contundido no início do segundo tempo. Os 150.000 torcedores o aplaudiram efusivamente, todos em pé. 

A resposta não veio sob a forma de menosprezo e prepotência mas, sim, num espetáculo de futebol. Julinho Botelho se negara a participar da Copa de 1958, pois não era justo representar o Brasil jogando na Itália. Na Copa seguinte, no Chile, nova recusa. Julinho estava contundido e preferiu deixar a vaga para um atleta em melhores condições de representar o Brasil.

Além de jogar muito, havia ética de sobra no moço, que iniciou a carreira no Juventus da Rua Javari. Seis décadas e 4 títulos mundiais depois, o futebol brasileiro é outro. Quase nenhum jogador mora no Brasil. Todos têm salários estratosféricos e não muito condizentes com a qualidade exibida por eles dentro das quatro linhas. Os que não ostentam em técnica superam com empáfia, orgulho ferido e muito mimimi.

Julinho Botelho ao lado de Garrincha, o gênio das pernas tortas

Após apresentações medíocres na Copa América contra adversários inexpressivos, como Bolívia e Venezuela, as vaias tomaram as arquibancadas. Vale lembrar que a edição deste ano do tradicional torneio continental, que acontece aqui no Brasil, inclui o Catar e o Japão, dois países que não são sul-americanos. Mais: quem deseja assistir aos jogos deve pagar valores ‘simbolicos’ que vez ou outra ultrapassam 1 salário mínimo.

Pois bem, logo depois da estreia da Seleção, no velho estádio do Morumbi, em São Paulo Prima Danni Alves reclamou muito do comportamento da torcida e das vaias, deixando de lado o pobre futebol apresentado pela Seleção em campo. O mesmo Daniel Alves, lateral direito do PSG e sempre titular com o técnico Tite, que junto com seu “parça” de clube e seleção, Neymar que liderou a humilhação de conotação racista ao craque Mbappé, em 2017.

Nem futebol ou tampouco honra simbolizam o sonho dessa nova geração de futebolistas tupiniquins. São um bando de Sidneys Sheldons dos gramados. Na verdade, nossos craques são garotos-propaganda que gozam de enorme prestígio e sucesso comercial, mas protagonizam um futebol previsível, preguiçoso, com jogadas manjadas e repetitivas.

Foi-se o tempo em que os craques do futebol brasileiro entortavam e reentortavam adversários, táticas e estratégias. Nosso longo deserto de títulos, que já dura 17 anos, ainda deve estender-se por décadas. A travessia do deserto em direção à Canaã será dolorosa. Vive-se dum passado brilhante, em que jogadores de talento brotavam como capim gordura após as chuvas.

Eis o cenário do futebol brasileiro das últimas décadas: técnicos autoritários, teimosos, que não estudam; dirigentes boçais, pervertidos, criminosos; mídia e sociedade condescendentes com a total falta de responsabilidade e respeito de nossos jogadores e, por último, a proximidade espúria com a política. Se no passado, tais mazelas eram encobertas pela qualidade de jogo, hoje, os defeitos ficam escancarados. Ou seja, o humilhante 7 a 1 nada nos ensinou.

Na Copa que não vi, a de 1970, um outro Médici exigiu do então técnico João Saldanha a convocação do grosso Dario, o Dadá Maravilha. Saldanha era um técnico comunista em meio à uma brutal Ditadura Militar. Às vésperas da Copa do México, o time não engrenava.  Para piorar, Saldanha resolvera invocar com Pelé. Talvez porque o Rei era um futebolista de outro planeta, porém, um ser humano, digamos, sem muito caráter. (Por exemplo: em meio ao regime de terror, Pelé excursionou pelo mundo com a seleção do exército).

Na outra América, Cassius Clay rasgou a convocação para a guerra do Vietnã e virou Muhammad Ali. Contemporâneos, enquanto o boxeador norte-americano dos peso-pesados lutava pelos direitos civis ao lado de Malcom X e pela autodeterminação dos povos, nosso Pelé batia continência para os milicos.  Isso devia ser morte para um jornalista do PC do B.

Após um empate sem graça contra o Bangu, num jogo treino há quatro meses da Copa, a paciência do Gal Heleno Nunes (então presidente da CBD) acabou. Estava selada a demissão do “homem sem medo”.

Cassius Clay e Pelé: supercampeões de personalidades opostas

Para substituir Saldanha no cargo de técnico, a ditadura convocou outro botafoguense, um ex-jogador mediano da Seleção de 1958 , um certo Jorge Lobo Zagallo, reforçando uma prática do futebol brasileiro: a de técnicos que foram jogadores razoáveis, com boas relações junto a dirigentes esportivos, em geral autoritários, com pouco ou nenhum estudo das táticas e técnicas do esporte, amigos do poder político e com muita galhofa no linguajar.

Frutificaram em meio à uma legião interminável de jogadores fora-de-série. Zagallo virou escola. Levaria junto com ele um jovem preparador físico do exército, que se tornaria técnico e também campeão 24 anos depois: Carlos Alberto Parreira.

Zagalo conduziu a mais fenomenal das seleções brasileiras, a de 70

Dirigir uma seleção com craques como Tostão, Gérson, Rivelino, Clodoaldo, Carlos Alberto Torres, até Jairzinho virava fenomenal. Ter, ainda Pelé, um jogador quase sobrenatural, que deslizava por gramados como se fossem nuvens, beirava à magia. A única vitória magra foi contra a Inglaterra e seu sistema defensivo mais rígido que o muro de Berlim (o goleiro Banks, falecido este ano, fez a maior defesa de todos os mundiais até hoje, numa cabeçada à queima-roupa de Pelé, de cima para baixo).

Na final, o Brasil arrasou a Itália pelo placar de 4 a 1. Era impossível não cantar “Eu te amo meu Brasil/ eu te amo/ meu coração é verde, amarelo, branco e azul anil/ ninguém segura a juventude do Brasil”. Ou porque nossas tardes eram mais ensolaradas ou porque os porões da ditadura mais escuros.

Na Copa que perdi, a de 1982, o Brasil iniciava a sua lenta redemocratização. O futebol perdera o encanto desde a aposentadoria do Rei, passando pelas campanhas pífias e sem virtudes de 1974 e 78. Trouxeram o técnico Telê Santana, o “fio da esperança”, para resgatar as nossas origens. A Seleção canarinho precisava impor seu futebol-arte contra o futebol-força. Atualizando aos tempos atuais, a balbúrdia em oposição às escolas militares.

Telê fora um bom jogador. Brilhou como ponta-esquerda do Fluminense carioca. Especializou-se em montar equipes de futebol ágil, ofensivo e que davam gosto de ver, mas que era marcado por derrotas nas finais. Montou uma seleção tão fantástica quanto a de 1970. Sócrates, Zico, Falcão, Júnior, Oscar, Cerezo, Éder e a disputa entre dois centroavantes fantásticos – Careca e Reinaldo -, mas que foram substituídos de última hora, na convocação final de Telê para a Copa, pelos “caneludos” Serginho Chulapa e Roberto Dinamite.

O Brasil de 82: futebol-arte que influenciou até Josep Guardiola

Em 1981, o recado já havia sido dado a seleção de Telê : cuidado com o excesso de confiança. No Mundialito (um torneio criado para comemorar os 50 anos da Copa), o Brasil passou pela Argentina e goleou a Alemanha por 4 a 1. A final seria contra o “fraco” Uruguai. Resultado: uma derrota inesperada para os jogadores da celeste ( como é conhdecida a seleção uruguaia).

O mundo dava como certa a vitória brasileira na Copa de 1982. Depois de 4 jogos e 13 gols, com direito a um espetáculo contra a então campeã Argentina, reforçada por Maradona, o Brasil foi para o jogo decisivo das quartas de final, precisando de apenas um empate contra a Itália. O time da Botta vinha de uma campanha medíocre: três empates e uma vitória sofrida contra a Argentina.

Telê, o técnico da Seleção que não levou mas encantou o mundo

Porém era uma seleção muito boa. Dino Zoff no gol, juntava-se a Tardelli, Cabrini, Gentile e Bruno Conti na linha. No ataque a incógnita: um centroavante espetacular, mas que ficara afastado por um ano e meio dos gramados, acusado de vender resultados para a TottoCalcio, a loteria esportiva dos italianos. Foram 4 jogos e apenas um único gol de Paolo Rossi.

Numa sucessão de erros brasileiros, Paolo Rossi mostrou sua qualidade contra o Brasil. Foram 3 gols na meta do fraco goleiro Valdir Perez (primeira idiossincrasia de Telê: jamais convocara o melhor goleiro brasileiro da época, escolhido como melhor arqueiro da Copa de 78, o vascaíno Leão).

Na tarde de 5 de julho de 1982, no estádio de Sarriá ( Espanha), o Brasil sofria a sua segunda mais dolorosa derrota: 3 a 2 para a Itália. Faltou recuar mais, faltou tirar um meia ofensivo e manter Batista, faltou jogarmos pelo resultado, faltou entender e estudar a seleção italiana (coisa que eles fizeram conosco). Serginho Chulapa em entrevista recente afirmou que faltava união. A seleção era formada por panelinhas de jogadores e entrava em campo sempre com o famoso “salto alto”, segundo o antigo centroavante do Santos e São Paulo.

Faltou também Telê não ser tão preconceituoso e teimoso. O centroavante titular era Careca, porém, há dois meses da Copa, ele teve de operar o menisco. O substituto lógico era Reinaldo, do mesmo Atlético (MG) de Dadá Maravilha, em 1970.

Renê Santana, filho de Telê, soltou a fake news de que Reinaldo estava contundido. Na verdade, Telê não queria o centroavante do Atlético mineiro porque ele “era muito amigo do Lula e dos bispos da CNBB”. O aclamado técnico considerava Reinaldo comunista demais, provavelmente maconheiro, e o que é pior, segundo o ex-técnico, ele era “muito amigo de viados”, e futebol, afinal, era “coisa para machos”.

Chulapa sempre foi boa praça, rapaz simpático, goleador, mas não servia nem para engraxar as chuteiras de Reinaldo. O certo é que chorei uns três dias. Para o Frederico foi a derrota mais dolorida da história. Jogou o terno verde e amarelo que pedira pra mãe fazer especialmente para a Copa de 82.

Na “Copa que não quero ver” vejo o deserto atual. Nas Copas de 2006 e 2010, ainda existiam craques na seleção, mas havia sinais de que a geração espontânea desaparecera. Era necessário investir na base, organizar melhor nossos campeonatos, impedir a migração prematura de jogadores e, principalmente, investir na formação técnica e tática dos times e técnicos.

Uma coisa era dirigir equipes com Van Goghs, Picassos, Dalis e Michelângelos, outra, muito distinta, era botar pra jogar pintores de paredes Suvinil. Fora dos gramados, os dirigentes criminosos permaneciam dominando a CBF, as federações estaduais e a maioria dos grandes clubes. Políticos continuavam usando os clubes para seus projetos pessoais de poder.

Um novo ingrediente surgira: os jogadores tornavam-se propriedades de empresários inescrupulosos desde o berço. Essa conjunção de fatores levou a vergonha maior: o 7 a 1 do Mineirão, uma tragédia. Nelson Rodrigues dizia em 1956 que o Brasil deveria deixar de lado seu complexo de inferioridade, tão grande à época, “que seríamos atropelados por um carrinho de Chicabon (o famoso sorvete trazido pela empresa americana que depois virou Kibon)”.

No deserto atual do futebol brasileiro, há jogadores razoáveis, alguns bons, mas nenhum craque, exceto o “menino” Neymar, uma espécie de “Doutor Jekyll e Mr Hyde dos gramados”, com repentes de Pelé e Garrincha atrelados a um comportamento pérfido e abjeto na vida privada. No atual cenário, em alguns anos, Neymar & cia nos levarão a uma nova máxima no futebol : a insignificância de um sopro de corneta que se acredita tão forte quanto um furacão Katrina.

Reinaldo, “contundido”, um mês depois do Sarriá
A tragédia de 1982 contra a Itália (Vídeo e Fotos deste post: Arquivo)

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