Corpus Christi: como era feito o pão e o vinho há 2.000 anos, o seu simbolismo e o que é servido hoje no ritual da Eucaristia

MARCO MERGUIZZO – “Ele tomou o pão, deu graças e o deu a seus discípulos dizendo: ‘ — Tomai e comei: este é o meu corpo que é dado por vós!’ A seguir, Ele tomou o cálice, deu graças novamente e o deu a seus discípulos dizendo: ‘ — Tomai e bebei – este é o meu sangue. O sangue da nova e eterna aliança que é derramado por vós para o perdão dos pecados. Fazei isso em memória de mim.’

Recorrente como as palavras de Jesus na Última Ceia, eternizadas há mais de 2.000 anos, e reproduzidas desde então durante a consagração eucarística, o pão e o vinho são os elementos sagrados que estarão, uma vez mais, em evidência nos rituais litúrgicos da missa em todas as igrejas católicas de Sorocaba e do mundo, nesta quinta-feira, 20/6, considerada feriado nacional, na qual se celebra Corpus Christi, expressão em latim que significa o “Corpo de Cristo”. 

A passagem deste evento, portanto, um dos mais importantes do calendário cristão, faz referência à presença de Deus na Eucaristia, celebrando de quebra o mistério deste sacramento – um gesto simbólico que representa a comunhão dos homens com Deus. Como se sabe, pão e vinho – binômio celestial criado pelo homem há milênios para alimentar o corpo e brindar o paladar – simbolizam o corpo e o sangue de Jesus, na tradição cristã, o “ágape espiritual” que alimenta a alma e sustenta a fé de milhões e milhões de pessoas em todo o planeta.

A tradição de Corpus Christi teve início durante a Idade Média, mais precisamente em 1269. A Igreja Católica viu a necessidade de as pessoas sentirem a presença real de Cristo. Um padre chamado Pedro de Praga vivia angustiado ao duvidar da presença do Filho de Deus na Eucaristia. Decidiu ir em peregrinação ao túmulo dos apóstolos Pedro e Paulo, em Roma, para pedir o dom da fé. Ao passar por Bolsena, na Itália, enquanto era celebrada a consagração durante a Santa Missa, veio-lhe a resposta em forma de milagre: a hóstia branca transformou-se em carne viva. 

O Papa Urbano IV (1195-1264) pediu para que os objetos fossem levados para Oviedo, na Espanha, em uma grande procissão, e foi neste exato momento que a festa de Corpus Christi foi decretada. No Brasil, a celebração de Corpus Christi é marcada por procissões na maioria dos estados brasileiros, sobretudo em cidades do interior, como as vizinhas Itu e São Roque, por exemplo. A procissão é feita nas ruas, onde ainda resiste, felizmente, a tradição dos tapetes de serragem colorida, e as pessoas podem testemunhar a sua fé. 

O Papa Urbano IV foi quem tornou oficial a celebração de Corpus Christi há exatos 740 anos

O SABOR DO VINHO BEBIDO NO TEMPO DE JESUS

Muita gente me pergunta sobre o vinho eucarístico. Em geral, a curiosidade recai sobre a procedência, como ele é feito, quais uvas são utilizadas no seu caldo, se só podem ser empregadas castas tintas, enfim, as principais diferenças que há entre o vinho litúrgico e aquele que tomamos normalmente, o “profano”, digamos.  

Bem, vamos à taça, digo, ao cálice, “desarrolhar” de vez este tema. O Direito Canônico define regras severas sobre o vinho de altar. De acordo com a norma 924, ele precisa ser feito com uvas amadurecidas completamente, e apresentar graduação alcoólica que garanta a sua boa conservação. “Vinum debet esse naturale da gemine vitis et non corruptum”, diz o texto. 

Para os especialistas, o mais provável é que Jesus Cristo tenha oferecido um vinho semelhante ao Amarone italiano, produzido na região do Vêneto, que eu abordei no meu último post dedicado ao dia dos namorados (caso ainda não tenha lido, clique aqui). Grosso modo, ele é um vinho feito a partir uvas que foram ressecadas antes da fermentação. Basicamente, um vinho de uvas passas.

Algumas características foram fundamentais para tal conclusão. A elaboração de vinhos em Jerusalém, bem como na antiga Palestina, cujo território era dominado pelo Império Romano, data de 4.000 a.C. – o que reforça que um aparentado do Amarone era o que imperava nas taças. No tempo de Cristo, a preferência era por vinhos ricos e concentrados, que por sua vez, eram diluídos em água. Além disso, era praxe acrescentar especiarias, frutas e, principalmente, resina de árvore, cuja função era conservar e preservar o líquido.

Alguns pesquisadores dizem que é possível imaginar como seria o vinho que Jesus serviu aos apóstolos na Última Ceia: um tinto de uvas passificadas, ultraconcentrado, misturado com algumas gotas de óleo da resina de árvore, acrescido ainda de romã, açafrão e canela para incrementar o sabor da bebida.

DOS MOSTEIROS ÀS VINÍCOLAS: PRODUÇÃO CONTROLADA

Hoje, o Vaticano proíbe que os padres consumam vinhos alterados ou adulterados por quaisquer substâncias. Mais: o vinho canônico não pode ser elaborado com outras frutas (daí não seria vinho mesmo) ou matéria-prima que não seja a uva, e conservantes. Isso inclui o uso de um único tipo de uva (varietal) sem a adição de outros cortes (blendeds), com teor alcoólico situado em torno de 12% e 18%. 

No rótulo, deve constar obrigatoriamente a autorização eclesiástica em italiano (Prodotto secondo le regole di vinificazione dei vini ad uso sacramentale, que, em bom português, quer dizer “Produzido segundo as regras de vinificacão dos vinhos destinados a uso sacramental”) e o selo da Curia cunhado em cera-laca sobre a cápsula da rolha. 

O código do Direito Canônico deixa livre, porém, o item que fala sobre a cor do vinho, não havendo obrigatoriedade que seja tinto. No entanto, ele só pode ser substituído por uma bebida não-alcoólica em situações excepcionais, e com autorização do bispo local, para atender diabéticos, alcoólatras e ex-alcoólatras e portadores de outras doenças graves.

Na Europa, grande parte dos vinhos de missa ainda é produzida nas adegas dos mosteiros das grandes ordens religiosas. Mas há também os produtores autorizados a fornecer o vinho canônico, cujas fases de produção são controladas por um representante da Igreja, a exemplo dos alimentos kosher, de tradição judaica.

É o caso da vinícola italiana Bava, de Roberto Bava. Com o aval da Cúria peninsular, sua vinícola faz o Malvaxia Sincerum, um tinto feito com a técnica de secagem e passificação das uvas (semi-appassite ou parcialmente transformadas em passas), a partir das uvas Malvasia de Schierano, típica do distrito de Castelnuovo Don Bosco. 

Este corte, aliás, de caráter camaleônico, serve também de cepa-matriz a outros vinhos italianos. Caso do Frascati romano, um branco seco, e dos doces cannellino e vinsanto, o tradicional vinho de sobremesa da Toscana. No caso do passito litúrgico de Bava, a malvasia aparece solitária, sem estar misturada a outras uvas, como recomenda o Vaticano. Com boa intensidade aromática, cor rubi e sabor doce aveludado, apresenta teor alcoólico em torno de 15º. 

Também da lavra de Bava, o branco licoroso Alleluja, feito à base da aromática uva moscato, exibe igualmente o carimbo “Vinum pro sancta missa” do Vaticano. Quem o produz é a Casa Brina, também de sua propriedade. Com 16º de álcool, esse branco doce de cor amarelo-dourada apresenta aroma almiscarado e toques florais. Na boca, seu sabor lembra uvas maduras. Tanto o tinto Mavasia Sincerum quanto o branco Alleluja abastecem os cálices de Sua Santidade. 

De acordo com o produtor, o vinho litúrgico deve ser doce, já que se conserva melhor depois de aberto. Explica-se: a cada missa, o padre bebe entre 35 e 50 ml. O baixo consumo obriga o sacerdote a manter a garrafa aberta por vários dias, aumentando o risco de oxidação da bebida. 

Na Itália, consome-se anualmente 1,2 milhão de litros de vinho de missa. No Brasil, a tradicional vinícola Salton, situada em Bento Gonçalves (RS), domina 70% desse mercado, produzindo cerca de 350 mil litros por ano. Sem acesso aos vinhos com aprovação eclesiástica, muitos padres do interior do país usam, no entanto, tintos e brancos comuns, sem nenhum controle de origem e produção. 

Autorizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a Salton faz há mais de 80 anos, o licoroso Canônico, com a uva americana Herbemont. É um tinto bem doce, com graduação alcoólica de 16º e que lembra na cor (apenas) um Porto envelhecido. Até hoje é envasado em garrafões de 5 litros, além de garrafas de 750 ml. 

VINHO LITÚRGICO: A SIMBOLOGIA POR TRÁS DA BEBIDA 
Cena antológica da Santa Ceia: iconografia do sagrado sobre a mesa

“Ele tomou o cálice em suas mãos. Deu graças e ofereceu a seus discípulos dizendo: “Tomai e bebei todos vós. Este é o meu sangue, o símbolo da Nova Aliança que é derramado por vós. Fazei isso em memória de mim.” (Lucas 22, versículos de 7 a 20). 

Desde que disse essas palavras, há mais de 2 000 anos, no seu último encontro à mesa com os apóstolos, Jesus mais do que ressublinhar a importância e a sacralidade do vinho na cultura judaica-cristã, sabiamente concedeu um novo significado à Páscoa, eternizando-se na mente e no coração dos cristãos. Desde então, o vinho, com as bênçãos do próprio Filho de Deus, passou a integrar o ritual da Santa Missa na instituição da Eucaristia. 

Tal sacramento e a própria consagração do vinho, no entanto, agregaram ao longo do tempo vários elementos religiosos e pagãos. Os antigos romanos, decerto, não viam muita diferença entre os primeiros cristãos – aparentemente judeus, adeptos do que chamavam o culto do Nazareno – e os seguidores de Baco. 

Havia paralelos suficientes para justificar a confusão. O que se sabia acerca dos rituais cristãos não os distinguia muito dos bacanais. Ambos eram realizados secretamente e acreditava-se que envolviam festins canibais, já que seus devotos comiam o “corpo” e bebiam o “sangue” do seu Deus. 

Além disso, o simbolismo do sacrifício cristão desenvolveu-se no contexto da tradição grega, não da judaica. Em grego, theos, “Deus”, deriva da palavra que designa fumaça. A mesma raiz, thusia, ainda se conserva na palavra entusiasmo, que significa, portanto, “repleto de Deus”. Assim, na Grécia pagã, constituía um ato sagrado queimar a carne no altar para alimentar os deuses com a fumaça e, em seguida, comê-la. 

DE BEBIDA PAGÃ A SÍMBOLO RELIGIOSO JUDAICO-CRISTÃO 

Da água pro vinho: o primeiro milagre de Jesus nas bodas de Canaã

Outro ato divino que remete à Grécia antiga e a outras civilizações pré-cristãs, consistia em beber sangue, ou sangue misturado ao vinho, ou vinho simbolizando sangue. A palavra grega eucharistia, portanto, designava tais ritos e não a celebração nos moldes judaico-cristãos. 

Por sua vez, a cerimônia do vinho no contexto da fé e da formação judaica de Jesus tinha um outro significado. A íntima relação do povo judeu com o vinho percorre suas leis, sua literatura e é, enfim, a própria essência de sua civilização. Para um judeu, não existe vida comunitária, religiosa ou familiar sem vinho. 

Além disso, desde cedo, as crianças judias têm contato com o vinho, no ambiente familiar e num contexto religioso, em que sempre se bebe com moderação. O primeiro milagre de Jesus, por exemplo, foi registrado em Canaã. Consistiu em resolver o problema da falta de vinho em um casamento. Jesus ordenou que enchessem seis talhas com água do poço. Minutos depois, o conteúdo havia se transformado em vinho. 

E detalhe que não passou despercebido a São João, o evangelista, o narrador do milagre: o vinho era melhor que o fornecido pelo noivo. Além desta passagem, somam mais de duas centenas as referências na Bíblia sobre a bebida e outras referências enológicas como vinhas, trabalhadores e produtores. A começar pelo porre de Noé, no livro do Gênesis (capítulo 9, versículos de 18 a 28), no Velho Testamento, à parábola dos vinhateiros, já no Novo (Lucas 20, versículos de 9 a 19). 

Com o aval do imperador Constantino recém-convertido, só no século 4 a Eucaristia torna-se a liturgia que, até hoje, é mantida pelo Vaticano. Duzentos anos depois, com o contexto expansionista das ordens religiosas, com a fundação de templos e mosteiros e a multiplicação de fiéis católicos por toda a Europa, surge a necessidade de se aumentar a produção de vinhos litúrgicos para atender a demanda da Igreja. 

O vinho torna-se, então, indispensável para o ato sagrado da comunhão. Os documentos canônicos da época evidenciam a obrigatoriedade do uso do vinho genuíno da videira na celebração da missa (produto designado por “não corrompido”, ao qual tivesse sido apenas adicionada uma pequena porção de água). Medida fundamental para diferenciá-lo dos chamados “vinhos pagãos” elaborados por romanos e gregos, os quais acrescentavam, muitas vezes, resina, absinto, açafrão, mel e pimenta moída, entre outros ingredientes “exóticos”. 

Além disso, o vinho medieval, no geral, era fabricado às pressas. Muitas vezes com uma mistura aleatória de uvas e pouco ou nenhum conhecimento de preservação. Com as novas regras, algumas ordens religiosas ampliam consideravelmente o território dos vinhedos e desenvolvem de forma expressiva as técnicas de vinificação. 

“A Eucaristia só deve ser celebrada com o fruto da videira, pois essa é a vontade de Cristo Jesus para a alegria da alma, pois está escrito que o vinho alegra o coração do Homem.”

(Santo Tomás de Aquino)

Com isso, atingem grandes produções, boa qualidade e fama como produtores de vinho. Excetuando-se a região ao redor de Bordeaux, no sudoeste da França, a Igreja Católica torna-se, então, a maior produtora de vinhos na Europa. Entre as grandes ordens, os beneditinos, sobretudo, desempenham um papel crucial na expansão e no desenvolvimento da vitivinicultura em todo o continente europeu. 

Santo Tomás de Aquino (1225-1274), o grande frade-filósofo do século 13, é quem resume, porém, com exatidão o significado do vinho na missa: “O sacramento da Eucaristia só pode celebrar-se com fruto da videira, pois essa é a vontade de Cristo Jesus, que escolheu o vinho quando ordenou tal sacramento (…) e também porque o vinho da uva constitui de certo modo uma imagem do efeito do sacramento. Refiro-me à alegria da alma, pois está escrito que o vinho alegra o coração do Homem”. E nele, Cristo revive na Eucaristia, e em espírito, através dos tempos. Amém. 

O VINHO DE ALTAR: EM BUSCA DA QUALIDADE 

Desde o final dos anos 80 do século passado, um grupo formado por produtores italianos, mais sacerdotes, historiadores, liturgistas e enólogos vêm melhorando a qualidade do vinho de missa a partir da cidadezinha Castelnuovo Don Bosco, na província piemontesa de Asti, situada no Norte da bota que o mapa da Itália desenha. 

À época, o grupo afirmava pela primeira vez e com boa dose de razão, com o perdão do trocadilho, que os vinhos litúrgicos italianos não tinham acompanhado o salto qualitativo dado a partir dos anos 70 pelos grandes tintos e brancos daquele país, de enorme e longeva tradição vinícola. Mais: acreditavam que a Eucaristia – o momento da missa em que o vinho é transformado simbolicamente no sangue de Cristo – mereceria uma bebida melhor. 

Apoiados por alguns bispos, os pioneiros fundariam no ano de 1987 “O Vinho no Altar” – um grupo de estudos que propunha aprimorar as técnicas de vinificação dos vinhos de missa e, por extensão, a elevação da qualidade da bebida litúrgica. 

Como fruto do trabalho de mais de uma década, surgiram dois novos vinhos: o tinto doce Malvaxia Sincerum e o branco licoroso Alleluja, elaborados respectivamente pela vinícolas Casa Bava e Brina, ambos de propriedade de Roberto Bava, um dos fundadores do grupo. As duas bebidas, por sinal, abastecem oficialmente até hoje a adega do Vaticano e consagradas durante as missas ministradas pelo papa Francisco. 

Mas foi a partir de uma visita de João Paulo II à Castelnuovo Don Bosco, na província de Asti, em 1988, que o grupo de Bava passou a ampliar as suas atividades, aprofundando-se não só na melhoria da qualidade do vinho eurcarístico mas no aperfeiçoamento da pesquisa, litúrgica e científica sobre o vinho de missa e o papel das religiões na difusão da cultura dos vinhedos. 

A sede de atividades de “O Vinho no Altar” fica em Casa Brina, no centro cultural da Azienda Vitinicola Bava di Cocconato D”Asti. Os responsáveis pelo programa de estudos e encontros são Roberto Bava e Paolo Massobrio. Até 2001, o Grupo de Estudos já organizou seis convenções internacionais com painéis atualizados sobre o vinho no universo cultural-religioso.

Especialistas, produtores e representantes da Igreja de toda a Europa integram as comissões de degustação. Paralelamente, a Casa Brina também sedia uma mostra permanente de vinhos de missa produzidos em todo o mundo. 

DE BARRO, OURO OU VIDRO: QUAL O CÁLICE CERTO? 

Filho único de um modesto carpinteiro, amigo de prostitutas, pescadores e demais invisíveis da antiga Palestina, tudo indica que, ao contrário dos cânones estabelecidos pelo catolicismo ao longo do séculos, Jesus utilizou um cálice de madeira ou de barro cozido, durante a última ceia com seus apóstolos, e bem distante portanto da simplicidade da origem do ritual nos seus primórdios.

Às igrejas espalhadas pelo mundo, o Vaticano ainda recomenda o uso do cálice feito de “material puro e inexpugnável” mas não necessariamente o ouro, uma tradição de longa data. Nos tempos atuais, é comum ocorrerem celebrações com cálices de cerâmica, porém, o interior deve ser banhado a algum metal, por questões de conservação e higiene. 

E se o cálice for de vidro? A possibilidade de quebra de uma taça de vidro faz com que o seu uso não seja permitido nas cerimônias eucarísticas, já que o Código Canônico não admite, em nenhuma hipótese, a perda do vinho consagrado.

TINTO OU BRANCO?

Embora o código do Direito Canônico deixe livre a questão sobre a cor do vinho de missa, a discussão não é nova e alimentou, há mais de 800 anos, uma guerra nada santa envolvendo armênios e a Igreja ortodoxa grega. Por se recusarem a misturar água a seu vinho, os primeiros acabaram entrando em conflito com a poderosa instituição grega. 

Em 1178, os armênios propuseram em vão um meio-termo: acrescentariam água desde que os gregos abrissem mão da água quente. O conflito prosseguiu. Por fim, os litigantes encontraram um árbitro para lá de neutro: um muçulmano. Depois de ouvir os dois lados, este recomendou usar água pura, já que o vinho era um líquido impuro, proibido pelo Alcorão. 

Os debates prosseguiram, agora para definir se o vinho devia ser tinto ou branco. Favorecia o tinto o fato de que parece sangue; o branco, o fato de que a bebida rubra manchava a toalha do altar. Sobre isso, alguns sacerdotes tendem a preferir este último. Mas, mais por uma questão prática do que organoléptica, já que o vinho tinto costuma macular suas roupas e paramentos geralmente muito alvos. 

A origem e o simbolismo da Eucaristia

O catecismo da Igreja Católica oferece uma breve definição da palavra, observando que a riqueza inesgotável do Sacramento Eucarístico é manifestada mediante os vários nomes que se dão a ele, cada um evocando algum dos seus aspectos.

O texto menciona os verbos gregos eucharistein (Lucas 22,19; 1 Co11,24) e eulogein (Mateus 26,26; Mc 14,22), que guardam relação com as bênçãos judaicas nas quais se louvava e agradecia a Deus pelas Suas obras: a criação, a redenção e a santificação.

No texto evangélico de São Lucas, originalmente escrito em grego, Jesus emprega esse verbo na celebração da Última Ceia: εὐχαριστήσας (“eucharistēsas”), na passagem em que Ele “dá graças”, parte o pão e o dá aos discípulos (Lucas 22,17-19).

Em essência, a palavra Eucaristia significa “ação de graças”, mas em um contexto especificamente voltado a dar graças a Deus. Na história do cristianismo, a palavra foi adotada inicialmente em referência a toda a Santa Missa, na qual os católicos celebram o ato de Deus na cruz que oferece salvação.

Um documento muito antigo da Igreja, chamado Didaché e que remonta possivelmente ao tempo dos Apóstolos, emprega a palavra nesse sentido. Além de se referir à celebração completa da Eucaristia, o termo é também usado de maneira mais específica para designar o pão e o vinho que são transformados no Corpo e Sangue de Jesus.

A palavra Eucaristia, enfim, é “polifacética”, e, por isso mesmo, evoca em sua substância as muitas dimensões do agradecimento ao Deus que nos salva entregando-Se a Si mesmo, em sacrifício redentor, como alimento de Vida que deu a Sua vida para nos salvar.

COM A MÃO NA MASSA SAGRADA

Símbolo do corpo de Cristo na Eucaristia, a hóstia tem como matriz culinária o pão ázimo, que não utiliza fermento, só trigo e água, e é intimamente ligado ao povo judeu e à celebração da Páscoa judaica, na qual recordam a saída do Egito durante o Êxodo. Trata-se do pão da pureza, preparado somente com farinha de trigo e água, sem fermento nem sal, considerados ingredientes que tornam impura a oferta em alimento a Deus.

Antigamente, produzir hóstias era uma coisa artesanal feita nos mosteiros. A massa era prensada em ferro quente e cortada à mão, uma a uma, com uma tesoura (veja a ilustração logo abaixo). Hoje, no Brasil, boa parte da produção de hóstias provém de fábricas autorizadas pela Igreja Católica. Feita basicamente de farinha de trigo e água, a hóstia precisa ter duas características: ser fina e ao mesmo tempo resistente.

E é isso que as modernas máquinas fazem: basta colocar a massa no centro e comprimi-la por 40 segundos. Ao final deste processo, a massa – que terá a espessura de uma folha de papel – é levada para uma estufa para ser umedecida, o que a torna mais consistente, e em seguida, é cortada em dois tamanhos. O maior, que é consumido pelo padre, ao final da consagração no ritual da Eucaristia, e o menor, que é distribuído aos leigos durante a comunhão.

CÁLICE (1978) (CHICO BUARQUE E MILTON NASCIMENTO)
MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
toda sexta-feira. 
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acessando @marcomerguizzo  
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