Meu amigo arcebispo

JOÃO MAURÍCIO ROSA (BLOGUEIRO CONVIDADO) – Nunca fui de me gabar, mas desta vez não vou deixar passar batido. Eu tinha em meu rol de amigos um que era arcebispo de Porto Velho (RO). A notícia da morte no dia 17/06 de Dom Moacyr Grechi me deixou triste e frustrado, pois nesta quinta-feira, dia 27, ele receberia a mim e ao Janes Peteca, outro de seus incontáveis amigos.

Eu o conheci em 1992. Quando vim de mala e cuia para Rio Branco, como correspondente, não fui apresentar minhas credenciais para o governador, mas fui ao Palácio do Bispo, o mais modesto entre os palácios dos demais poderes na capital acreana. Embora a Igreja esteja separada do Estado no Brasil, aqui a Igreja era o Estado que não chega aos mais pobres. Por isso, Dom Moacyr entrou para a lista que os militares chamavam de bispos vermelhos.

Ele me apontou para seu carro, um Lada vermelho, e troçou: a marca russa reforça meu estereótipo de bispo comunista. Em janeiro de 2009 fiz uma entrevista com ele em Porto Velho para o livro “Brava Gente Acreana”, do escritor Antônio Stélio. Na época ele estava ameaçado de morte, uma constante em sua vida religiosa.

Por que o senhor optou pelos pobres?
Eu fui forçado pelo povo, que vinha dos seringais, famílias expulsas e que não tinham a quem reclamar. Então reclamam ao bispo. E eu, que tinha a ideia de que o sacerdócio era apenas a sacristia, que minha função era só pregar o evangelho, dar os sacramentos, tentar manter o pessoal unido, praticamente fui forçado pelo povo. O povo confiava em mim, então eu fui tendo contato com as injustiças bárbaras, arbítrios de autoridades, e acabei me envolvendo. E a problemática era terra para o Brasil inteiro e nesta fase acabei sendo eleito presidente da CPT (Comissão Pastoral da Terra) e entrando para a lista dos bispos vermelhos.

Como são as ameaças de morte?
Através de ligações telefônicas anônimas. Na verdade, as ameaças eram para mim, para Dom Antonio Possamai (ex-bispo de Ji-Paraná) e Dom Geraldo Verdier (Guajará Mirim). Em 2003, nós assinamos uma nota criticando as ações do crime organizado em Rondônia e vendo omissão, prevaricação e conivência dos Poderes Legislativo, Executivo, Judiciário e do Ministério Público. A nota foi motivada pela absolvição pela Justiça de um conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, acusado de diversas irregularidades. Havia desvios de verbas da educação para outros setores; o Poder Judiciário só julgava em desfavor de milhares de famílias sem-terra; houve a chamada chacina do Urso Branco em 2003 com 14 mortos que se repetiu em 2004 com 16 mortos e tudo diante da omissão das autoridades. Nós apenas agimos em nome da ética para incentivar o debate público para que a população pudesse avaliar o comportamento das instituições que estavam comprometendo a convivência democrática.

“Eu diria que só é cristão de verdade aquele que se empenha na luta pela justiça para os seus irmãos, pelo bem-estar do povo”

Os conflitos em Rondônia lembram o Acre?
Recentemente, um assentamento de sem terras foi invadido por pistoleiros e um líder comunitário, membro de uma de nossas CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) foi assassinado. Aqui é uma região dominada pela pistolagem que impõe todas as formas de terror e violência sobre as famílias. Os pequenos vivem em contínua insegurança e os grileiros e grandes latifundiários, impunes e intocáveis. São comuns os atentados contra a vida e os direitos humanos, como ameaças e perseguições, despejos violentos marcados pela brutalidade de jagunços contratados que ofendem a dignidade humana em suas necessidades fundamentais como a moradia, a saúde e a educação.

Qual é a causa destes conflitos?
A lentidão do processo de Reforma Agrária, a ganância do agronegócio, os grandes esquemas de grilagem de terras públicas, a perversa estrutura fundiária do Estado, o latifúndio, o desmatamento predatório e irracional, o roubo de madeira de reservas florestais, a cultura extensiva do boi, a cultura da soja e agora da cana de açúcar. A violência é um ingrediente num modelo de desenvolvimento baseado em latifúndios empresariais e na monocultura de exportação. Além disso, vivemos sob uma hegemonia política inaceitável que detém grande parte do poder do Estado, seja no Executivo, no Legislativo ou no Judiciário.

Quando começaram as ações do esquadrão da morte no Acre?
A violência no Acre e a impunidade dos assassinos e seus mandantes era um mal que parecia imbatível no Acre desde que eu cheguei ao Estado. Mas nos últimos anos, a partir de 1984, parece que começou a se deteriorar ainda mais. Eu era procurado constantemente por pessoas aflitas que me relatavam fatos absurdos, sofrimentos, medos. Escutei muitas confidências. Paralelamente a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos da Diocese de Rio Branco vinha coletando notícias que saíam nos jornais. Eram lacônicas, escritas com medo, mas revelavam nas entrelinhas. Assim juntamos um dossiê e mandamos para o Ministério da Justiça e para a Procuradoria da Justiça.

Qual foi o momento mais escandaloso?
Foi quando mataram um irmão de Hildebrando [Pascoal] (*) e ele iniciou uma caça aos assassinos com sua motosserra. Quando o corpo do Baiano apareceu serrado em frente ao prédio da TV Gazeta todas as autoridades ligadas à Segurança Pública decidiram fazer uma reunião. Estavam lá o comandante da PM, o secretário de Segurança, o corregedor de Justiça, o superintendente da Polícia Federal e a reunião foi invadida por Hildebrando que ameaçou a todos aqueles que tentassem impedi-lo de caçar o assassino de seu irmão. Eles nada fizeram. Então eu procurei o Exército, que também lavou as mãos. Todos admitiam estar à mercê dos criminosos.

O que determinou o fim do esquadrão?
Foi com um ato de coragem do desembargador Gercino Silva, que denunciou o esquadrão da morte e o possível envolvimento de Hildebrando e passou a ser caçado e ameaçado de morte e teve que ficar 24 horas por dia sob proteção. Mas aí tudo começou a ser clareado, pois o procurador da República, Luis Francisco, passou a cobrar das autoridades, já que Hildebrando era deputado federal e vivia em Brasília. Foi aí que eu comecei a falar. Em todas as vezes em que fui convocado para prestar depoimento eu confirmei ter informações a respeito da ação do esquadrão da morte e que não tinha dúvidas de que o responsável era o senhor Hildebrando Pascoal.

Em que a Igreja contribuiu para com a sociedade do Acre atual?
Eu creio que a principal tarefa da Igreja é formar os seus cristãos. E nessa formação estão a palavra de Deus, a oração, os sacramentos, a solidariedade e a luta pela justiça. A Igreja do Acre foi praticamente a mãe de todos os movimentos populares desse Estado. Eu diria que só é cristão de verdade aquele que se empenha na luta pela justiça para os seus irmãos, pelo bem-estar do povo. Mas nós nunca devemos misturar as coisas, a comunidade com os partidos políticos.

(*) Hildebrando Pascoal, ex-deputado federal cassado em 1989, foi condenado a mais de 100 anos de prisão por liderar um esquadrão da morte e esquema de tráfico de drogas. Hoje cumpre pena em regime semiaberto.

Nascido em Pilar do Sul, João Maurício da Rosa é jornalista desde 1980. Trabalhou nos jornais Cruzeiro do Sul, de Sorocaba; Diário do Povo, de Campinas e Notícias Populares, de São Paulo. Foi correspondente da Folha de S. Paulo e do Estado de S. Paulo em Rio Branco (AC). Na capital acriana, também trabalhou nos jornais O Rio Branco e A Gazeta.

Foto: Joka Madruga/Comissão Pastoral da Terra Nacional (CPT)

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