A sedução do abismo (conto). Parte 1: Uma executiva na janela

JOSÉ CARLOS FINEIS – Estávamos só nos dois no escritório, separados pela classe social, pela idade, pela hierarquia e por três ou quatro ilhas de trabalho, abandonadas com os monitores ligados pelos funcionários – menos nós, é claro – que, agindo como se estivessem mentalmente programados para debandar em um horário específico, levantaram-se quase ao mesmo tempo, pegaram suas bolsas, paletós e celulares e saíram para almoçar. Era meu primeiro dia no emprego e eu não tinha dinheiro para o almoço – apenas para as passagens de ônibus. Como ninguém me chamou nem deu mostras de se importar comigo, não precisei usar as desculpas que tinha inventado para ficar em minha mesa.

Eu não sabia nada sobre ela. Não fôramos apresentados. E ela, do alto de suas roupas sofisticadas e de seu cargo de gerente de alguma coisa importante na firma, não só não sabia meu nome como não parecia sequer ter percebido minha presença. Passara por mim duas ou três vezes durante a manhã e conversara longamente com alguém apoiada em minha mesa, mas não olhara para mim. Era como se eu não estivesse ali, ou não fosse digno de ser notado.

Agora estávamos a sós no escritório. No salão repleto de ilhas com mesas para todos os lados, minha mesa, como que por ironia, ficava de frente para a dela, o que praticamente me obrigava a olhar para ela, ainda que não quisesse (só para constar, eu queria). Mas ela continuava agindo como se estivesse sozinha e o fato de não olhar para mim me deixava mais à vontade para observá-la de soslaio. Toda a atenção do rosto angelical – lindo, porém impassível – concentrava-se na tela do computador, cujo brilho refletia nas lentes dos óculos de armação que combinava com a bolsa, que, por sua vez, combinava com os sapatos.

Tudo nela parecia meticulosamente arrumado, com exceção dos cabelos castanho-claros, que passavam a impressão – só que de maneira inversa – de serem meticulosamente desarrumados. Nada de coques ou presilhas. As mechas onduladas e cheias que lembravam a imagem de uma cigana ou de uma hippie pós-moderna caíam como que ao acaso sobre a testa, os ombros e o decote, formando um conjunto encantador.

Nem preciso dizer que ela causava uma impressão muito forte em meu espírito de nerd recém-formado no ensino médio, que passara mais tempo com livros e computadores do que com garotas. “Acho que você está apaixonado”, pensou uma voz dentro de mim, tentando esquecer a fome. Naquela época, eu me definia como um platônico inveterado, e tinha – creio que muitos jovens têm – uma queda por mulheres mais velhas. Essa predileção deve ter raízes antropológicas. Li em algum lugar que a mulher atinge o auge de sua beleza aos 35 anos. Seja como for, a verdade é que não conseguia tirar os olhos dela, nem me concentrar nas tarefas banais que me haviam confiado naquele primeiro dia.

De vez em quando ela digitava alguma coisa, sem olhar para o teclado. Os olhos não piscavam, fixos na tela do monitor. Parecia que trocava mensagens com alguém. Teclava, lia, ficava um tempo como que a ler e reler, voltava a teclar. Mas, o que quer que fosse, não transparecia em seu semblante. Talvez por influência do trabalho, já que ela certamente não era uma das chefes do escritório por acaso, seu rosto lembrava o de um jogador de pôquer.

Tem alguma coisa estranha acontecendo aqui

Foi então que vi quando ela desligou o computador, levantou-se, foi até a porta do escritório, que era o único acesso à sala, trancou-a a chave, guardou a chave no bolso e atravessou o salão em direção à grande janela de correr, cujas folhas escancarou, deixando entrar o ar quente e o barulho lá de fora. Era um daqueles prédios antigos do Centro, com janelões sem grade de proteção, sem nada, pelos quais era possível fazer entrar um piano.

Tirou os sapatos, sentou-se no peitoril, levantou a perna esquerda e passou-a o lado de fora. Demorei alguns instantes para perceber a situação. A princípio, como tudo era novo para mim, pensei que aquele talvez fosse um hábito corriqueiro daquela mulher na hora do almoço: sentar-se à janela com uma perna balançando para o lado de fora do edifício. Lembrei de ter lido uma matéria, não lembro em qual revista, sobre executivos que cultivam manias estranhas, como manter cobras como bichos de estimação ou correr sem roupa no meio de uma tempestade. Porém, antes que a hipótese se acomodasse em minha cabeça, vi que ela levantou a perna direita e também a passou para o lado de fora.

Agora ela estava sentada na janela de costas para o lado de dentro, apoiada apenas nas nádegas e nos pulsos. Era uma cena clássica de suicídio. Bastava-lhe resvalar o ponto de apoio alguns centímetros para a frente, ou deixar que o tronco se inclinasse além da conta, para que a Lei da Gravidade se incumbisse do resto e ela fosse abrir um buraco na calçada lá embaixo. Não haveria a mínima chance – e certamente ela sabia disso – de escapar viva a uma queda do décimo quinto andar.

Alguém mexeu na fechadura e bateu na porta com força. Quase ao mesmo tempo, um celular começou a tocar. Era o dela, sobre a mesa. Tinha um toque alegre, que contrastava com a tensão no escritório. Por alguns instantes, aqueles acordes ecoaram no ambiente sem que ela demonstrasse ter ouvido. Permanecia na mesma posição, a cabeça erguida, como se olhasse para algum ponto no horizonte infinito, entre os prédios e as nuvens. Só a gola do casaquinho elegante e os cabelos se moviam de tempos em tempos, tocados pelo vento.

O telefone chamou mais algumas vezes. Passaram-se incontáveis minutos sem que nada acontecesse. Então meu celular tocou.

– O que essa idiota está fazendo aí em cima?

– O que? Como assim? Quem está falando?

– Aqui é o dr. Augusto, seu chefe. O que essa idiota está fazendo sentada na janela?

– Não sei – respondi, contendo a voz. Receava que ela, mesmo distante alguns metros de minha mesa, ouvisse o diálogo.

– Quem trancou a porta?

– Ela.

– E cadê a chave?

– Está com ela.

– Ela disse alguma coisa pra você? Deixou algum papel sobre a mesa? Falou em suicídio, alguma coisa assim?

– Não. Não disse nada nem deixou papel. Apenas desligou o computador e foi sentar-se lá.

– Converse com ela… Como é seu nome mesmo?

– Carlos.

– Fale com ela, Carlos. Tente descobrir o que está acontecendo.

– E o que devo dizer?

– Sei lá. Pergunte por que ela está sentada na janela.

– Eu nem sei o nome dela.

– É Regina. Doutora Regina.

– Vou tentar.

– Faça o melhor que puder, Carlos. Não deixe essa louca pular daí, pelo amor de Deus. Como você está de bateria?

– 54%.

– Ótimo. Não desligue o celular. Vamos ficar em contato.

– OK.

Até o final do expediente, tudo estará decidido

Coloquei o celular sobre a mesa sem desligá-lo e pensei por alguns instantes em uma maneira delicada de abordar uma mulher sentada em uma janela a 50 metros do solo. Mas ela se antecipou:

– É o Augusto no telefone, estagiário?

– Sim, é o dr. Augusto — respondi. Achei melhor não corrigi-la. Não era estagiário. Tinha sido contratado. Mas que importância tem isso numa hora dessas?

– Diga a esse bundão, e faço questão que diga a ele que o chamei de bundão, que se ele ou qualquer pessoa mexer naquela porta ou tentar entrar aqui, eu pulo.

– Certo. Eu direi.

– Quero pensar na minha vida, aqui em cima. Quero decidir se vale a pena vivê-la. Mas quero pensar com liberdade de escolha. E não quero que ninguém me impeça de tomar essa decisão. De toda forma, até as seis da tarde, o expediente estará terminado, de uma maneira ou de outra.

– Compreendo, doutora.

Olhei para o relógio. Eram pouco mais de duas horas. “Vai ser uma longa tarde, Carlos”, disse minha voz interior, aquela que sempre conversava comigo em tom de escárnio. Nem a fome, nem o medo, nem o nervosismo eram capazes de calar essa voz, pela qual eu – não sei até que ponto isso é normal – vivia a zombar de mim mesmo e a me provocar.

Ouvi um chiado vindo do telefone. Era a voz do dr. Augusto querendo saber o que havíamos conversado. Contei a ele, procurando repetir as palavras da mulher com fidelidade e sem esquecer de dar uma ênfase para a parte do xingamento, pois sabia que ela estava na escuta.

O dr. Augusto não pareceu surpreso com o fato de ele, aparentemente, ser um dos motivos pelos quais a doutora Regina cogitava seriamente a possibilidade de cometer suicídio. Começou novamente a pedir que eu conversasse com ela, quando ela interrompeu:

– Agora desligue esse telefone. Não quero mais ninguém telefonando para cá. Desligue meu telefone também, por favor. Aliás, quer saber? Desligue os dois e jogue pela janela.

– O meu também, doutora?

– É. Vamos ficar isolados. Arranque os fios dos fixos. Jogue os celulares pela janela! Não quero ouvir nenhum telefone tocando neste escritório enquanto estiver aqui.

Fiz o que ela ordenava. Não estava em condição de contra-argumentar. Era ela – pelo menos, enquanto estivesse sentada ali – quem dava as cartas, e ela sabia disso.

Percorri mesa por mesa puxando os plugues dos fixos. Peguei meu celular e o dela e nem me dei ao trabalho de desligá-los, já que se espatifariam lá embaixo, de qualquer jeito.

Até então ela não havia olhado para trás. Mas então, quando me aproximei para jogar os celulares, ela se voltou para mim. Tinha pendurado os óculos no decote e pude ver que seus olhos eram verdes e lindos. Fiquei em estado de graça quando ela, vendo-me atirar os celulares, abriu um sorriso. “Você se casaria com ela ou se atiraria aqui de cima, se ela pedisse” – constatou, desta vez com acerto, minha voz interior.

– Desculpe por colocar você nessa enrascada, estagiário. Eu planejava fazer isso sozinha. Mas você não foi almoçar com os outros, e isto aqui não podia passar de hoje. Há muito espero por este dia. E decidi que até as seis tudo precisa estar definido.

Coloquei toda a doçura possível nas palavras.

– Não se importe comigo, doutora Regina. Se eu puder ser útil em alguma coisa, qualquer coisa, é só dizer. A senhora quer um copo d’água?

Ela voltou a olhar para a cidade.

– Apenas fique por aí, longe de mim, e não tente nada. Só preciso de silêncio para pensar, e saber que posso acabar com tudo hoje mesmo, se concluir que é melhor assim.

Como desejei estar com meu celular, para pesquisar no Google “o que fazer quando alguém senta na janela e ameaça se atirar”. Lembrei-me de reportagens sobre suicídio em que especialistas orientavam para apenas ouvir, jamais interferir ou tentar dar conselhos a quem está pensando em se matar.

Decidi tentar fazer com que ela falasse. Talvez, falando sobre o que a fizera chegar àquele ponto, ela conseguisse organizar as ideias e perceber o quanto era absurdo aquilo que ameaçava fazer. Mas decidi também que não falaria nada a menos que ela própria desse uma abertura. Se era de silêncio o que ela precisava, era silêncio o que ela teria. Caso ela tivesse necessidade de falar, era ela quem deveria tomar a iniciativa.

Eu prometo ouvi-lo. Antes disso, não vou pular

A oportunidade que eu esperava ocorreu depois de um longo período em que ficamos absolutamente imóveis e em silêncio.

– Você está de dieta? – ela voltou a falar, sem olhar para trás. – Já é tão magro. Por que não foi almoçar, estagiário?

– Posso dizer a verdade, doutora?

– Me chame de Regina. Sim, a verdade, por favor.

– Estou sem grana.

Ela ficou um tempo quieta. Depois, novamente, sem olhar para trás.

– E por que não trouxe uma fruta?

– Não sei. Estava nervoso. Hoje é meu primeiro dia. Só queria chegar no horário. Nem pensei direito.

O diálogo me encorajou a tentar fazer com que ela falasse.

– Regina, posso dizer uma coisa? Não sei por que você está aí, e respeitarei sua decisão, seja ela qual for. Só quero que saiba que, se sentir necessidade de falar, estou aqui para ouvir você. Meu nome é Carlos. Não quero que pense que estou reclamando ou culpando você, mas, uma vez que estou aqui, me sinto responsável por esta situação. Gostaria de poder ajudar você. Se quiser desabafar comigo, acho que sou a pessoa certa, pois não conheço ninguém neste escritório. E prometo manter segredo sobre tudo o que me disser.

Seguiu-se mais um período sem diálogos, em que só se ouviam os sons do trânsito lá embaixo. Regina não demonstrava sequer ter escutado o que eu dissera. O sol começava a se esconder atrás dos prédios mais altos e a luz indireta se espalhava pela cidade. Ela tirou uma das mãos do peitoril para ver as horas no relógio de pulso. Eu olhei instintivamente para o relógio da parede. Passava das três e meia agora.

O que ela disse então mudaria minha vida para sempre.

– Você acha que pode me convencer a não pular? Porque motivos bons para pular eu já tenho.

– Não sei – eu respondi. – Como posso saber?

– Você acredita que pode dizer alguma coisa, sei lá, qualquer coisa convincente o bastante para me tirar daqui?

– Acho que sim. Eu mesmo já pensei em desistir muitas vezes. Mas sempre encontrei alguma razão que me fez continuar e tentar mais um pouco. Talvez essas coisas em que me apeguei sirvam para você também. Não sei. Podemos tentar.

– Então vamos fazer assim. Em vez de eu falar sobre mim, você fala e diz por que alguém deve querer viver neste mundo cretino. Mas, pelo amor de Deus, não quero ouvir essas máximas idiotas que as pessoas publicam nas redes sociais. Se você acha que pode repartir sua experiência comigo, e já que se sente responsável de alguma maneira, então não se importará de tentar me convencer. Você tem até as seis para dizer tudo o que puder para me fazer mudar de ideia. Eu prometo ouvi-lo e considerá-lo. Antes disso, não vou pular, a menos que algum idiota tente me tirar à força daqui.

Com essas palavras, ela jogava o peso de sua vida em meus ombros, mas, de alguma maneira, eu gostei daquela situação. Decidi encarar a proposta como um desafio. Fosse hoje, talvez eu tremesse, mas naquele momento da minha vida eu confiava mais em mim. Além disso, pensei de forma bastante pragmática que, se ela não tinha se atirado ainda, era porque provavelmente estava mais propensa a continuar viva. O pedido para que tentasse convencê-la só vinha corroborar minha percepção de que não era o suicídio o que ela buscava. Sentar-se na janela do décimo quinto andar poderia ser uma forma inconsciente de pedir socorro ou um pouco mais de consideração das pessoas.

Pensei que, partindo do pressuposto de que ela já poderia ter-se atirado, qualquer resultado que eu conseguisse – ainda que fosse apenas ganhar tempo para algum bombeiro, agindo de surpresa, atirar-se sobre ela e empurrá-la para dentro – seria positivo. E se, ainda assim, às seis da tarde ela decidisse que deveria mesmo pular, eu pelo menos poderia voltar para casa com a consciência tranquila por ter tentado ajudá-la.

– E então, estagiário, está no jogo? – ela quis saber.

– Estou – respondi, sem hesitar. Eu sabia que não estaria sozinho nessa tentativa. Aqueles livros todos que li e reli desde a adolescência, os filmes de arte que assisti enquanto os outros garotos jogavam futebol, viam televisão ou iam a festinhas teriam alguma serventia agora.

– Só que também tenho minhas condições, Regina.

Ela riu de meu atrevimento.

– E quais são?

– Quero que me chame pelo meu nome. Carlos. E não quero conversar com suas costas. Já que essa janela é larga o bastante, quero que me permita sentar aí com você.

Para ler a segunda parte deste conto, clique aqui.

Imagem de Pexels por Pixabay 

Leia também, do mesmo autor:

7 comentários em “A sedução do abismo (conto). Parte 1: Uma executiva na janela

Adicione o seu

  1. Ah, Fineis, olha só você me enganando!

    Durante todo o primeiro terço do texto, lá estava eu me sentindo bem familiarizado com a situação, e, do nada, tudo vira de pernas para o ar, de um jeito enigmático, provocador e cheio de tensão.

    Próxima parte, por favor!

  2. Acho que Carlos é esquizofrênico , pois o narrador destaca uma voz interior que fala com Carlos e Regina é uma alucinação …

  3. Será que Carlos é esquizofrênico (o narrador destaca uma voz interior que fala com Carlos e Regina é uma ilusão ?

  4. Obrigado, Lucy. Ela não está escrita ainda, Na verdade, eu criei um problema para mim. A segunda parte é muito desafiadora, mas já tenho um caminho para a história.

  5. Obrigado, Pierotti. É interessante imaginar o que poderia acontecer numa situação dessas. Acho que a segunda parte vai ser melhor porque aí entram em cena as referências desse jovem que namorou pouco e leu bastante,

  6. Acho que esquizofrênico não, mas ele é um personagem complexo. Solitário, aprendeu a amar a vida através dos livros. A voz interior é um sinal de autoquestionamento permanente e também de fome…

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: