São Pedro e o pernil à bolonhesa

FREDERICO MORIARTY – O Latium estava à margem esquerda do rio Tibre. Ali floresceu uma pequena civilização, a dos Latinos. Com o tempo, os Latinos se juntaram aos Etruscos, Sabinos e Albigenses. Protegidas por 7 colinas, as terras muito baixas da margem do rio viram nascer a Cidade Eterna, Roma. O conflito e a discórdia são marcas do povo da Bota, afinal a península itálica tem a forma indiscutível do famoso calçado, que paradoxalmente nos lembram os soldados e seus canhões de um lado e, doutro, as mulheres poderosas e sedutoras. Uma cidade marcada a sangue de irmãos – os fundadores mitológicos Rômulo e Remo. Ali também cresceria a história maior de todas as instituições – a da Igreja Católica.

Lupa Capitolina (obra em bronze do séc. XI ou XII d.C.): retrato da origem mitológica de Roma descrita em Eneida de Virgilio (Arquivo) 
 Os arredores de Roma

Júlia Agripina, neta de Otávio Augusto, o primeiro imperador romano, mandou drenar as terras próximas a uma pequena colina a uns 2 km do Tibre. Ali, os escravos romanos ergueram um magnífico jardim e uma terma para a nobre aristocrata, por volta dos anos 30 d.C. Um dos filhos de Agripina tornou-se imperador no final da 3ª década – Calígula (nome que significa “botinhas”), pois ainda menino ela costumava vestir as sandálias dos centuriões, as quais lhes dançavam nos pés.

Calígula derrubou os jardins e ergueu uma arena de gladiadores, o circo romano. Calígula trouxe um Obelisco de Heliópolis no Egito e o colocou defronte a ela. Governou apenas quatro anos, mas ficou marcado pela depravação moral. A arena foi ampliada na 6° década do século I, por obra do imperador Nero.

O circo de Nero foi o palco principal das sevícias, torturas e mortes dos primeiros cristãos. O imperador era amante das artes e da poesia. A lenda histórica diz que mandou incendiar Roma em 64 d.C., apenas para compor uma ode á cidade em chamas. Existem provas de que Roma ardeu em fogo nesse período, mas jamais saberemos se Nero acendeu a pira. Mas para todos os efeitos, ele tascou fogo mesmo.

Pedro tu és minha fé

Simão era de uma família de pescadores na distante Judeia, então, parte do Império Romano. Pouco antes de Agripina erguer os jardins, Simão e família passavam por muitas dificuldades. Não havia mais peixes nos poucos rios da região. Jesus Cristo ante à incredulidade em relação a uma pregação sua por parte do pescador Pedro (como ficou conhecido o futuro apóstolo), o leva às águas mais profundas do Mar da Galileia, numa noite muito escura. 

” – Tenha fé, Pedro. Arremesse as redes sobre o mar”, disse-lhe o.senhor. 
” – E tantos peixes vieram. E tão cheias ficaram as redes que as mesmas arrebentaram.”

Pedro converteu-se imediatamente. Tornou-se um dos mais importantes apóstolos. Seu irmão mais velho, André, também foi um dos doze apóstolos. Mesmo negando Cristo por três vezes antes do galo cantar, no dia da Via Crucis, ficou famoso o Vaticínio (olha a palavra Vaticano e seus derivados) de Jesus ao querido apóstolo, um dos pilares da Igreja Católica:

“- Tu és Pedro e da minha pedra edificarei a Igreja.”

Pedro inicia a evangelização logo após a morte de Cristo. O peregrino da fé anda pelo mundo para contar a Boa Nova. É perseguido, preso, apanha, mas mantém a fé na palavra, como todo bom herói. No final dos anos 40 do primeiro século, Pedro vai evangelizar na capital do Império, Roma. Pedro era visionário. Se todas as estradas levam a Roma, pregar a partir da Cidade Eterna seria como abrir os caminhos.

No ano 67, Nero prende e manda crucificar Pedro. Pedro evangelizara por homens e terras por quase 40 anos. O santo pede pra ser crucificado de ponta cabeça, afinal não era digno de ser morto como o Cristo. Os restos mortais de São Pedro foram enterrados num pequeno cemitério próximo ao circo de Nero.

A Igreja de São Pedro

Pepino, o Breve, foi o inaugurador da dinastia Carolíngia, primeira dinastia abençoada pelo Papa. As terras do antigo circo de Nero e o velho cemitério foram doadas por ele ao Papa Estevão II, em 756. O decreto dava origem também aos Estados Pontíficos (futuro Vaticano). Ali, ao longo dos séculos VIII a XVI, se ergueu o complexo do Vaticano, tendo como obra principal a Basilica di San Pietro, inaugurada em 1626, no papado de Urbano VIII. Obra de estilo barroco e com influências renascentistas, ficou a cargo do arquiteto Donato Bramante, contratado pelo Papa Julio II em 1506. 

A nave central da igreja de São Pedro

Por meio do Tratado de Latrão (1929), o Vaticano passou a status de quase Estado, numa área de 0,45 km quadrados, encravado no meio das 7 colinas. Críticas? Sim, aquilo que era de direito dos cristãos foi concedido por uma troca de favores espúria entre o Papado e o governo fascista de Benito Mussolini. Passados 90 anos, a pedra de Pedro continua pescando corações e almas, apesar dos homens e seus podres poderes.

Existem várias histórias para a origem do nome da Cidade Santa. As duas mais aceitas são: as que falam ser a origem tirada da colina que fica atrás da cidade, conhecida como Vatican. A outra é que o nome deriva da deusa etrusca Vatikan. Ela servia como um farol para as almas que deixavam a vida terrena e caminhavam para a vida após a morte. Seja a Colina, seja a deusa pagã Vatikan, a Cidade-Estado hoje é um dos símbolos mais poderosos da humanidade.

A Capella Sistina: construída no Papado de Sisto IV no final do século XV, fica situada no Palácio Apostólico, a residência oficial do Papa

O complexo conta atualmente com a maior Igreja Católica do mundo, a Basílica de São Pedro, os imensos jardins do Vaticano, os aposentos da Cúria Episcopal, uma necrópole adjacente, além da maravilhosa Capela Sistina, com os mais belos afrescos da história, os de Michelângelo. Restou dos tempos do Império apenas o Obelisco de Calígula. O Vaticano está inserido na zona do euro e irá se tornar o primeiro Estado do mundo livre da emissão de carbono. Novos tempos do Papa Francisco, o primeiro latino-americano a governar a Igreja em quase 2.000 anos.

Na Cidade-Estado do Vaticano, a Basílica de São Pedro num entardecer


São Pedro é o fundador da Igreja. Seus restos sagrados estão na igreja que leva seu nome. Ele é comemorado todo dia 29 de junho. As tradições, porém, se perdem. Na semana passada, fui a uma festa “junina” em uma cidade vizinha com minha esposa, Luana. Não havia nenhum santo pelo caminho, só barraquinhas vendendo crepes e yakisoba.

APROFUNDE-SE

Em 1963, o escritor e jornalista Morris West escreveu o romance premonitório As Sandálias do Pescador (assista ao trailer logo abaixo). Kiril Lakota é um padre católico ucraniano perseguido pelo regime comunista da ex-União Soviética. Por uma série de intrigas, ele é alçado ao Papado e inicia grandes mudanças na Igreja. Exatos 15 anos depois, um Papa polonês, odiado pelos comunistas, é escolhido com o nome de João Paulo II. Seu nome de nascença era quase igual: Karol Woityla.

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