Festival de literatura policial reúne os maiores do gênero na Inglaterra

PEDRO CADINA – Na próxima semana, de 18 a 21 de julho,  acontece a 16ª edição do Theakston Old Peculier Crime Writing Festival. É o maior evento de literatura policial da Europa, que reúne milhares de leitores, estudantes e escritores no Old Swan Hotel, no balneário de Harrogate, ao norte de Londres. Passagem obrigatória a todos os grandes nomes do gênero, para este ano estão confirmados 90 autores, entre os quais James Patterson (1,2 milhão de cópias vendidas de seu último livro), Harlan Coben (autor de Não conte a ninguém), o norueguês Jô Nesbo (O boneco de Neve) e Shari Lapena, do thriller O casal que mora ao lado. O Festival já recebeu J.K. Rowling (Robert Galbraith), John Grisham, John Banville (Benjamin Black), Don Wislow, John Harvey e Val McDermid.

Agatha Christie sumiu

Uma grande atração para os aficionados pelo gênero é o histórico e elegante Old Swan Hotel, fundado no século XVII e que recebeu Agatha Christie em um dos episódios mais misteriosos da crônica da ficção policial. Em dezembro de 1926, após um sumiço de 11 dias que mobilizou imprensa, policia, população e ministros em sua busca, a Rainha do Crime foi encontrada no hotel por um músico. Sua timidez havia sumido: geralmente estava animada, vestia roupas brilhantes, cantava e tocava piano no bar. E reservou um quarto com o nome de Teresa Neele, sobrenome da amante de seu primeiro marido. A autora nunca esclareceu o que fez desde que saiu de sua casa em Sunningdale e foi parar em Harrogate, 340 quilômetros ao norte, depois de deixar seu carro abandonado em uma trilha à beira de um riacho.

Foto mostra a fachada do Old Swan Hotel em Harrogate, Inglaterra. Ao fundo algumas pessoas e em primeiro plano um carro estacionado
Old Swan, o mítico hotel onde Agatha Christie foi encontrada após sumir por 11 dias.

A programação é uma festa para leitores e autores: são 12 convidados especiais, a maioria deles best sellers com suas histórias em canais de TVs e serviços de streaming; um baile, com as músicas escolhidas por escritores; e dois jantares, durante os quais alguns autores participam como suspeitos e resolvem um crime.

A curadoria do evento incluiu também talk shows onde grupos de autores discutem temas atuais na produção de policiais, como as fake news, violência, os thrillers, os escritores emergentes e a literatura do submundo (neo-noir).  Estão previstas a entrega de dois prêmios (Dead Good Reader Awards, com escolha do público, e o Crime Novel of the Year, voto dos leitores mais júri), um grupo de leitura e uma parodia de show televisivo (Late Night Quiz) com perguntas e respostas.

Crimes e igualdade de gêneros

Entre os convidados especiais, alguns são bem conhecidos pelo público brasileiro, como James Patterson, Harlan Coben e Jô Nesbo, o norueguês publicado em 50 línguas, que vendeu mais de 40 milhões de livros, entre os quais os best sellers Boneco de neve e O leopardo. O autor lança durante o Festival o novo romance com o policial Harry Hole The Knife. No Brasil, a editora Record colocou nas livrarias esse mês Macbeth, no qual o autor utiliza o formato policial noir para recontar a mais obscura e amaldiçoada peça de Shakespeare.

James Patterson, maior autor best seller de thrillers nos EUA, escreveu “O dia que o presidente desapareceu”, em coautoria com Bill Clinton, que já vendeu mais de 1,2 milhões de cópias. Harlan Coben, com mais de 70 milhões de livros vendidos, trinta títulos em primeiro lugar no New York Times, e criador da série Safe, da Netflix. Em março, lançou nos EUA Run Away.

Mas a conversa mais interessante provavelmente acontecerá entre a autora escocesa Val McDermid e a única mulher até o momento a ocupar o cargo de primeira ministra da Escócia, Nicola Sturgeon. McDermid, militante LGBT e socialista, tem 32 livros publicados em 40 línguas com mais de 15 milhões de cópias vendidas. É a primeira a incluir uma heroína lésbica em seus romances, com a personagem Lindsay Gordon (Report for Murder, 1987). Sturgeon foi apontada este ano como a primeira defensora global da campanha #HeForShe da ONU, promovendo a igualdade de gênero. Entusiasta dos livros, ela compartilha regularmente suas recomendações nas mídias sociais e entrevista regularmente de escritores em festivais. Líder do partido SNP (Partido Nacional Escocês, de centro esquerda), ela escreveu o prefácio de My Scotland, que McDermid publicou em junho. Da autora, a editora Record promete publicar no Brasil até o final do ano Forensics: The Anatomy of Crime, que mostra o funcionamento da perícia forenses a partir de entrevistas, pesquisa e experiência da escritora.

Os demais convidados especiais são os escritores MC Beaton, Stuart MacBride, Ian Rankin, Belinda Bauer, Eva Dolan, Erin Kelly, Jed Mercurio, Jeffery Deaver.

Iamgem da escritora Val McDermid em mesa de jogo de cartas. Com amão esquerda ela segura algumas cartas, a mão direita fechada está na boa. O ar é de reflexão.
A autora Val McDermid: livro Forensics a ser publicado no Brasil até dezembro

Brexit, austrália e Nova Zelândia

Entre os nove talk shows com escritores de vários países de língua inglesa, a curadoria do evento agendou um para o Brexit. Com a saída da Grã-Bretanha da União Europeia (UE), a Irlanda passa novamente à condição de pais entre a Inglaterra e a UE, o que reaviva antigos sentimentos de desconfiança, divisão e ressentimento. Para discutir o tema e seus efeitos na literatura foram escalados os autores Jane Casey, Olivia Kiernan (Too Close to Breathe), Gerald Brennan (Disorder), Brian McGilloway e Sinead Crowley.

Sob o título de Noir Antípoda (Antipodean Noir), o Festival pretende colocar luz sobre a literatura policial da Austrália e Nova Zelândia, que vem ganhando o público nos últimos anos. Para isso, na mesma sala estarão Stella Duffy, neozelandesa que criou o personagem Ngaio Marsh, Jane Harper, autora australiana de best sellers, Vanda Symon, mais vendida na Nova Zelandia, com a série do detetive Sam Shephard, e Christian White, autor do premiado The Nowhere Child.

A violência e o neo-noir do submundo estarão em dois painéis, ambos no sábado. Para falar do Underworld de capa de chuva, de becos escuros, da subcultura de  selvageria e ganância, estão previstos A.A. Dhand, Jessie Keane, considerada a rainha do submundo, Joseph Knox autor do noir urbano The Sleepwalker, Robert Crais, do best-seller Cole and Pike, e Henry Sutton, (Great Yarmouth).

            As cenas sangrentas, que fazem leitores do mundo todo sentirem ânsia e asco, estarão a cargo de mestres no assunto. O Festival escalou para esse talk show   o criador de Tom Thorne, Mark Billingham, Helen Fitzgerald, a escritora por trás do sucesso The Cry (BBC) e a autora da série Marnie Rome, Sarah Hilary.

O policial e as classes sociais

O que os romances policiais nos dizem sobre a divisão de classes hoje? Do mordomo eterno culpado na high society aos policiais heróis trabalhadores das ruas, o que podemos entender de nossa sociedade com a ficção criminal? Essas perguntas estão no talk show A Class Act com,  Kimberley Chambers (best-seller do Sunday Times), Renee Knight que explora poder e dinheiro em The Secretary, William Shaw, cujos livros são elogiados como “elegia para uma geração negligenciada”, e Stuart Neville que escreve em torno da intersecção entre classes e política na Irlanda do Norte.

A organização reservou um espaço para a discussão sobre livros do gênero thrillers, que estão entre os mais vendidos em qualquer lista. A autora de  O casal que mora ao lado, Shari Lapena, discute o tema com Rachel Abbott (best seller da Amazon), Steve Cavanagh autor de Thirteen, e JS Monroe, autor do suspense Forget My Name.

Romance do ano

Durante o Festival serão entregues dois prêmios. O mais importante é o Crime Novel of the Year, escolhido pelo público e por um júri de especialistas. A lista dos 18 finalistas foi publicada recentemente e inclui nomes como  Belinda Bauer, que venceu o prêmio em 2014, e concorre com Snap, indicado ao Man Booker de 2018;  Val McDermid, vencedora do prêmio em 2016, com seu  romance Broken Ground; Chris Brookmyre  , ganhador em 2017, agora com pseudônimo de Ambrose Perry, colaboração com sua esposa Marisa Haetzman, por seu policial histórico, The Way of All Flesh. O vencedor será conhecido na quinta-feira, dia 18 de julho, na abertura do evento. Seis prêmios do público serão entregues na sexta feira, no Dead Good Reader Awards.

Imagem mostra a capa dos dezoito títulos que concorrem ao premio Old Peculier Crime Novel of the Year 2019
O grande premio da literatura policial européia, com 18 finalistas

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