A sedução do abismo (conto). Parte 2: A arte de construir sobre o vazio

JOSÉ CARLOS FINEIS – Regina apontou o outro extremo do parapeito.

– Tá. Senta aí. Mas não tente bancar o herói. Não aceitarei que me tirem daqui à força. O que quer que aconteça, será de acordo com a minha vontade.

– Eu não tentaria nada, até porque ninguém pode impedir você de fazer o que quiser. Tirá-la à força não evitaria que você tentasse de novo, em outra ocasião – eu disse, surpreso com o tom de voz calmo e seguro com que pronunciava aquelas palavras.

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Só quando me aproximei da janela, a uma distância em que Regina não se sentisse ameaçada, pude ter uma noção menos imprecisa da altura em que estávamos. Fiz o possível para disfarçar o medo que fazia as palmas das mãos suarem e o estômago revirar.

Passei a perna direita para fora e fiquei a cavalo sobre o peitoril durante alguns segundos, entre a segurança do escritório acarpetado e o vazio que causava vertigem. Ainda que evitasse olhar para baixo, pude ver pelo canto dos olhos que a rua estava cheia de curiosos.

Um murmúrio subiu desde a multidão quando, lenta e cuidadosamente, passei a perna esquerda por sobre o peitoril e fiquei sentado lado a lado com Regina, os pés apenas recostados no concreto pelos calcanhares, sem poder contar com uma saliência, um ponto de apoio para as pernas.

Eu tinha uma desvantagem, que era de não conhecer Regina nem saber o que a levara a cogitar o suicídio. Como ela se recusava a falar, pensei que a única estratégia possível era encontrar argumentos que pudessem ser válidos em qualquer situação. E o melhor que consegui formular, naquelas circunstâncias, foi uma linha de raciocínio um tanto óbvia, porém verdadeira – e que pessoas desesperadas, ou sob forte impacto emocional, por vezes não enxergam, ou se recusam a enxergar: – a de que, seja qual for o problema, podemos superá-lo se nos permitirmos viver mais um dia.

A meu favor, contava o fato de que eu acreditava nisso. Subtrair-se à equação não era, a meu ver, uma forma válida de resolver um problema. Tinha consciência de que a escolha das palavras era muito importante – primeiro, porque estava diante de uma pessoa disposta a resistir, e mesmo o argumento mais verdadeiro poderia ser confundido com “essas máximas idiotas que publicam nas redes sociais”, como ela já advertira. Segundo, porque aquela não era uma interlocutora comum – era alguém que pensava em se matar e tinha à disposição os meios para isso. Seu drama, fosse qual fosse, era suficientemente grave a ponto de colocá-la em oposição ao resto do mundo, aí incluídas as pessoas que cuidaram dela desde o primeiro dia de vida, entre as quais muitas que certamente a amavam e queriam o seu bem.

Nada de mal acontece a um homem bom

Ah, que bom se Julieta tivesse menos de Julieta e mais de Catarina, e, mordendo o dedão com desprezo, enfrentasse os Montecchios como Catarina enfrentou Petruchio. Ou se Romeu e Julieta, saltando do volume de dramas para o livro de comédias, encontrassem para ajudá-los não um frade trapalhão, mas alguém leal como Pórcia, sagaz o suficiente para livrá-los de seus perseguidores – pensava, com o cabelo ao vento, o rato de biblioteca que sonhava um dia ser um grande escritor. (1)

– Por que você fez isso, Carlos? – a voz de Regina trouxe-me de volta para a janela do décimo quinto andar. – O problema é só meu. Não sei se fiz bem ao permitir que você ficasse comigo.

– Às vezes conduzimos, às vezes somos conduzidos – respondi, com sinceridade. – Não sei por que estou aqui. Acho que agi por impulso. Um impulso de solidariedade. Mas não quero que me confunda com o Leonardo DiCaprio naquela cena do Titanic em que Jack diz para Rose: “Você pula, eu pulo.” Amo a vida e tudo o que é vivo. Lamento sinceramente que tenha de morrer algum dia, mas não pretendo morrer hoje.

Regina estava cansada. Seu semblante parecia mais triste.

– Acho justo que assim seja – ela sorriu, e começou a dizer alguma coisa, quando foi interrompida pelo som de um megafone, ativado por um homem postado num dos prédios em frente.

Vocês dois aí, por favor, saiam dessa janela. Vamos descer e conversar. Seja qual for o problema, não há nada que não possa ser resolvido lá embaixo, com calma e em segurança.”

Fiz com as mãos aquele sinal que os treinadores costumam usar para pedir tempo ao árbitro, nos jogos de basquete. Depois gesticulei apontando para minha boca e orelhas. Foi a forma que encontrei de dizer “por favor, senhor seja lá quem for, pare de falar nessa geringonça, estamos tendo uma conversa importante aqui”.

Eu não esperava ser compreendido, mas o megafone emudeceu a partir de então. Percebi movimentação nas janelas vizinhas. Havia policiais em cima, ao lado e embaixo de nós, mas suponho que entenderam a situação e, felizmente, não tentaram nenhuma operação arriscada, que pusesse a vida de Regina em perigo.

O que você tem a compartilhar comigo?

Sei que parece um clichê, mas, enquanto observava a movimentação em torno de nós, eu procurava freneticamente, na estante da memória, passagens de livros e filmes que pudessem funcionar como argumentos em favor da vida.

– Diga-me, então. O que você tem a compartilhar comigo, Carlos?

– Nada além do que acredito. Que existe tanta sabedoria em tentar entender a vida quanto em desistir de explicá-la. Que talvez estejamos aqui para viver, e não para decifrar os mistérios do mundo. Todos os dias vemos coisas que nos deixam tristes e que fazem a vida parecer sem sentido. Mas vemos também coisas maravilhosas, que às vezes parecem surgir do nada. Penso, e talvez esta seja uma maneira simples de encarar a vida, que deve haver um propósito oculto nos acontecimentos, nas nossas próprias atitudes, naquilo que julgamos ser previsível ou imponderável, que nós mesmos não conhecemos. Talvez eu possa convencê-la a aceitar essa ideia e isso ajude a encarar a vida com um pouco mais de leveza.

Enquanto falava, procurava manter os olhos fixos em Regina. Era uma forma de não olhar para baixo e também de captar suas expressões faciais, por menores que fossem, para tentar avaliar o efeito das palavras e saber se estava no caminho certo.

– Você tem medo? – ela quis saber.

– É claro que eu tenho, e de muitas coisas. Mas acredito que nada de mal pode acontecer a um homem bom, nem vivo, nem morto.

– Quem disse isso – foi Sócrates, certo? – certamente não trabalhava com câmbio, seguros e mercado financeiro – ela brincou.

– Sócrates não era diferente de você e de mim. Os sentimentos das pessoas, basicamente, são os mesmos, não importa o tempo e o lugar. Aquilo que afligia o filósofo é o mesmo que aflige a maior parte da Humanidade, ainda hoje. Quem somos? Por que estamos aqui? Qual o sentido disso tudo?

– Você é capaz de entender por que eu estou aqui? Quer dizer, não porque estou decepcionada com alguma ou muitas coisas em minha vida, pois isso é evidente, mas o real motivo de estar aqui nesta janela, sentada do lado de fora do prédio, e não na minha cadeira ou na minha cama, pensando se devo me matar?

– É difícil analisar outra pessoa, e eu pouco sei de você. Mas a impressão que me passa é de que não quer realmente morrer. Esta é uma hipótese sedutora e talvez você a tenha considerado, devido a algum sofrimento intenso, algo que julgou não poder, ou não merecer suportar. Mas você mesma disse que estava aqui para pensar, e se impôs um tempo, um horário limite para isso. Por isso, vejo você muito mais como alguém que precisou provar para si mesma que existe a possibilidade de acabar com tudo e, ao mesmo tempo, sentir de perto se a morte merece ser considerada seriamente como uma solução. E o único lugar do mundo onde essa reflexão pode ocorrer, tendo a morte não como algo hipotético e distante, mas como opção real e possível de ser escolhida a qualquer momento, é aqui, nesta janela. Só aqui, com a morte ao seu alcance, a conclusão a que você chegar a convencerá de que agiu com total liberdade.

– Você acredita mesmo nisso?

– Sartre tem um personagem – Daniel, se não me engano – que tenta jogar seus gatos no Sena para provar a si mesmo que é livre. Os gatos eram o que ele mais amava e o gesto gratuito de matá-los afogados seria uma forma de ele pôr à prova sua liberdade. Pode parecer estranho, mas às vezes nossa consciência nos cobra essa certeza. A certeza de que fazemos o que fazemos porque queremos, e não porque somos escravos de nós mesmos, dos outros ou de uma situação em que ficamos enrolados. Pois bem: você chegou até aqui. Agora já sabe que pode interromper sua vida em segundos, se assim decidir. Se não desta janela, de outra. Mas atirar-se lá embaixo não deve ser uma consequência natural do fato de sentar-se aqui, e sim a conclusão de que você é livre e de que nada importa mais, para você, do que a sua liberdade. (2)

“Carlos, não sabia que você era tão profundo!” – zombou a voz interior, absolutamente inconveniente naquele momento em que eu tentava construir um argumento complexo.

Nada importa mais do que a liberdade

Eu precisava calar aquela voz, ou me enrolaria em minhas próprias palavras. Acreditava na contundência na hipótese formulada. Mas sabia que era uma aposta perigosa – como tudo, por sinal, a 50 metros do chão. Em termos concretos, Regina era uma pessoa que chegara ao limite. E isso, por mais que se tente racionalizar, geralmente é um processo impulsivo, movido a emoção, em que a própria razão, por mais que se a busque, acaba sendo distorcida. O homem se engana quando se define como um animal racional. Mais apropriado seria dizer que somos seres passionais que raciocinam de vez em quando – e cujo raciocínio, não raras vezes, é usado apenas parcialmente, de forma direcionada, para ratificar alguma coisa que a paixão já decidiu.

A opção pelo suicídio era, sob certo ponto de vista, assustadoramente plausível. Nada – nem o murmúrio da multidão, nem a fome, nem o vento que começava a bater mais forte – poderia me desconcentrar, sob o risco cometer um deslize e, com alguma palavra em falso, lançar Regina no abismo.

– Sartre foi um bom começo. O que mais você tem para mim? – ela me desafiou.

– Bizet – eu disse, quase sem pensar.

– Bizet? O que Bizet tem a ver com isto?

– Ele morreu três meses depois da estreia de Carmen, convencido de que sua ópera era um fracasso definitivo e sem esperanças, segundo suas próprias palavras. A princípio, acreditou ter produzido uma obra-prima. Considerava Carmen “clara e viva, cheia de cor e melodia”. Mas a reação do público parisiense foi fria na noite de estreia. A imprensa publicou críticas pesadas, e ele se deixou convencer de que sua obra não tinha valor. Bizet morreu aos 36 anos, deprimido pelo fracasso, sem imaginar que sua ópera viria a ser uma das mais celebradas e populares.

– Então ele morreu de tristeza?

– Bom, ele morreu de parada cardíaca, mas estava triste pelo fracasso de sua obra-prima. A decepção da estreia pode ter sido a gota d’água. Ele tinha outros problemas. Seu casamento não andava bem e sua garganta doía porque fumava demais.

É preciso dar uma chance ao imponderável

Senti que podia ter dado um passo em falso. Aquela história sobre Bizet talvez não fosse um exemplo bom o bastante de que precisamos aprender a dar tempo ao tempo e acreditar no melhor.

– Qual o ponto, Carlos? O tempo está passando. De que você tenta me convencer?

– Bom, não é nada muito original, mas é verdadeiro. O que tento dizer é que você precisa se dar uma chance. Eu não saberia explicar o porquê de as coisas serem como são. Mas aprendi que às vezes precisamos tomar uma decisão corajosa, como largar um emprego ruim, ou mudar de atitude diante de alguém, ou simplesmente atirar os compromissos pro alto e nos conceder uma boa noite de sono, para que comecemos a ver as coisas com mais clareza, sem tanto sofrimento. Não saber o que vai acontecer amanhã, sob certo ponto de vista, é uma dádiva. Nada do que vai acontecer amanhã está assegurado, por mais que tentemos ter controle sobre os acontecimentos. E já que nada está definido, gosto de pensar que coisas maravilhosas podem ocorrer. Mas é preciso sobreviver ao pior dos dias. É preciso estar vivo para saber onde tudo isso vai dar, se é que vai dar em algum lugar. É preciso dar uma chance para que o imponderável aconteça.

Ela ficou quieta e voltou a olhar para aquele ponto no infinito.

– De onde você vem, Carlos?

Levantei o braço e apontei para um vão de edifícios que permitia ver a última linha de concreto no horizonte – uma linha cinza-esverdeada em que as construções não se distinguiam na distância.

– Sabe aqueles bairros mais afastados, no fim de tudo? Eu venho de além deles. O lugar de onde venho não dá pra ver daqui. Pode-se dizer que é outro mundo, onde o tráfico corre solto, as garantias constitucionais simplesmente não existem e as chances de levar um tiro são maiores do que em qualquer outro lugar desta cidade. Tive a sorte de encontrar uma biblioteca repleta de livros empoeirados quando tinha oito, nove anos, e me apaixonei pela literatura. Por isso não me sinto um predestinado ou um prisioneiro, como quase todos de minha idade e também os mais velhos que vivem naquele lugar.

– Como você se define?

Pensei em contar a ela um pouco de minha história. Que meu pai fez quatro filhos em minha mãe e a espancou regularmente durante anos, até que achasse outra e nos abandonasse. Que o dinheiro que minha mãe conseguia fazendo faxina mal dava para pagar o gás, o arroz, o feijão e as contas de água e luz. Que meus irmãos mais velhos revendiam maconha, pinos de cocaína e pedras de crack na avenida mais próxima, para garotos e garotas em velhas motos fumacentas ou em carrões importados. Que minha casa já fora invadida não sei quantas vezes por policiais que meteram o coturno no portão sem mandado judicial, em busca de drogas e dinheiro de tráfico. Que um policial chutou a boca de meu cachorro durante uma batida. E que eu, embora trabalhasse desde os 14 anos, conciliando empregos informais com os estudos e a leitura de centenas, talvez milhares de livros, já levara safanões dos homens da lei não uma, nem duas, mas várias vezes, nas blitze em que meninos e meninas eram enfileirados com as mãos espalmadas de encontro a um muro ou parede, enquanto reviravam nossos bolsos e apalpavam nossos corpos – algo que não se vê com frequência nos bairros, por assim dizer, tradicionais. Pensei em contar a ela que mais de uma vez me perguntaram o que levava dentro dos livros, e que na única vez em que me atrevi a responder – “Ideias!” – levei um tapa que me quebrou um dente.

Pensando melhor, concluí que não devia mencionar nada disso. Regina já tinha com que se afligir.

– Como você se define, Carlos? – ela insistiu, diante de meu silêncio.

Fitei-a com meu melhor sorriso e declamei uns versos que para mim eram, desde há muito, como que uma oração:

– “Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” (3)


Para ler a terceira e última parte deste conto, clique aqui.

Notas

(1) Referência às peças de William Shakespeare “Romeu e Julieta”, “A Megera Domada” e “O Mercador de Veneza”

(2) Referência ao romance “A Idade da Razão”, de Jean-Paul :Sartre (1945)


(3) Versos iniciais do poema Tabacaria, de Álvaro de Campos, heterônimo do poeta português Fernando Pessoa

Créditos das imagens (em ordem de edição)

 cocoparisienne por Pixabay 
 Michelle Grewe por Pixabay 
 Денис Марчук por Pixabay 
 BUMIPUTRA_ROCKERS por Pixabay 
 Silke Lemcke por Pixabay 

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