Mata mato e mata gente

GERALDO BONADIO – A Monsanto, empresa química originariamente norte-americana e hoje pertencente ao grupo alemão Bayer, vem colecionando ações judiciais (mais de 13 mil até agora) e condenações por conta do entendimento, dos juízos e tribunais daquele país, de que um dos agrotóxicos mais populares produzidos pela empresa, hoje principalmente em unidades sediadas na China, o Roundup, elaborado à base de glifosato, tem efeitos cancerígenos que favorecem a instalação, no organismo dos seres humanos, especialmente do linfoma Hodgkin. A decisão mais recente, emitida por um tribunal de Oakland, condenou a Bayer a pagar uma indenização de dois bilhões de dólares – um bilhão para cada cônjuge – ao casal Alberta e Alva Pilliot por despesas médicas e danos morais, por entender que o câncer que afetou a ambos foi ocasionado pelo Roundup.

Enquanto isso, no Brasil, o Roundup é largamente utilizado, a nossa legislação considera adequada para consumo humano águas que contenham resíduos de glifosato – o princípio ativo do Roundup – em dosagens cinco mil vezes maiores que a tolerada pelos países da União Europeia e hoje – 8 de julho – encerra-se o prazo, que correu sob absoluto silêncio da mídia, da consulta pública promovida pela Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre a conveniência de se realizar uma nova avaliação dos efeitos do glifosato sobre o meio ambiente e os seres humanos. A exceção corre por conta do canal de Youtube do jornalista Bob Fernandes, que vem compartilhando o material produzido pela pesquisadora Larissa Bombardi, doutora em Geografia Humana e docente do Programa de Pós-Graduação em Geografia da USP, cujo trabalho é focado nos efeitos de agrotóxicos de ampla utilização sobre a alimentação humana.

A abusiva utilização do Roundup em nosso país está diretamente associada às joias do agronegócio local: as culturas de soja e milho transgênicos que vêm impulsionando os sucessivos recordes de produção alcançados pelo Brasil.

A soja e o milho transgênicos – cujas únicas sementes férteis são comercializadas pelo mesmo conglomerado que fabrica o Roundup – levam, dentro de si, um gene que torna os grãos, produzidos pelas respectivas culturas, imunes aos efeitos do glifosato. Isso possibilita a eliminação das pragas e das ervas consideradas daninhas ao desenvolvimento dos enormes cultivos daqueles grãos hoje existentes no Brasil, mediante pulverizações aéreas do mata mato. Após a aplicação, todo e qualquer outro tipo de vida vegetal ou animal na área pulverizada, inclusive abelhas, aves e animais, morre. Somente a cultura dos transgênicos subsiste.

Ocorre que com o frouxo controle existente sobre o comércio e uso de agrotóxicos em nosso território, ele é adquirido e utilizado também com o objetivo de eliminar o mato das ruas e até dos jardins domésticos.

Ainda não se dispõe de pesquisas de laboratório suficientemente amplas sobre os efeitos do glifosato na saúde humana. Isso tem permitido à Bayer ver nas decisões dos tribunais americanos contrárias ao uso do produto um entrave ao progresso científico e argumentar que elas divergem da recente conclusão da Agência de Proteção Ambiental Americana, segundo a qual herbicidas a base de glifosato podem ser manipulados de maneira segura pois a substância ativa não é cancerígena. Entretanto as pesquisas laboratoriais em ratos têm constatado mudanças genéticas que vão da redução da pelagem à perda da libido, redução das ejaculações e alterações nas características dos cromossomos.

A dra. Larissa Bombardi, que desde a graduação vem focando suas pesquisas nos efeitos dos agrotóxicos sobre a alimentação humana, é autora de um Atlas do Agrotóxico, e de um resumo cartográfico do mesmo. Ambos podem ser baixados gratuitamente na Internet. Explicam de forma muito clara as razões econômicas do agronegócio brasileiro para utilizar amplamente aqueles agrotóxicos e expõem, de maneira simples, os riscos inerentes ao emprego indiscriminado de tais produtos, que – e isso digo eu – tende a crescer de forma exponencial no governo Bolsonaro.

Indico, abaixo, os links para acesso ao canal de Youtube de Bob Fernandes, site Agro & Tóxico, da dra. Bombardi, ao site da Anvisa, para manifestação na consulta popular, e sugiro às pessoas que se manifestem, junto aos deputados e senadores que sufragaram na mais recente eleição, reclamando deles que pressionem a Anvisa por uma dilatação do prazo para a consulta popular sobre o glifosato, pois o assunto interessa a todos.

https://www.larissabombardi.blog.br/livros

http://portal.anvisa.gov.br/propostas-regulatorias#/visualizar/391760

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