A teus pés

RUBENS NOGUEIRA – O título é de um livro de Ana Cristina Cesar, ou Ana C. O jornal “Cruzeiro do Sul”- (27-01-18) reproduziu um texto de Maurício Meireles da Folhapress (página B1 – Mais Cruzeiro). O autor analisa o ensaio literário do filósofo e crítico literário Eduardo Jardim: “Tudo em volta está deserto”. Interessei-me e li com saudade o que ele escreve sobre Ana Cristina Cesar, poeta autora de “A teus pés”.

Lá pelas tantas Maurício Meireles escreve: “Ana C., por sua vez, trás um recolhimento da literatura brasileira na intimidade, com dilemas estéticos já bem diferentes dos de Callado (Antonio Callado, romancista que morou na Inglaterra por muitos anos. Um dos seus melhores livros, intitulado “Quarup”, ainda é muito lido.) No ensaio Meireles tem um capítulo que se chama: “Literatura é documento”, quando aborda a obra de Ana C. a qual, segundo ele, afirmava que literatura não é documento – “embora jogasse criticamente com o elemento documental, explorando gêneros como a carta e o diário”.

Gostaria de ler e comentar mais esse trabalho, que inclui a cantora Gal Costa, mas meu propósito é informar que conheci a poeta Ana C. Seus pais, Waldo Aranha Lenz Cesar e Maria Luiza Cruz foram pessoas amigas, companheiras de trabalho na Igreja Presbiteriana, por muitas décadas.

Ana C. foi criança precoce. A partir dos três anos interagia, criava, produzia, respirava literatura. O poeta Manuel Bandeira, professor de sua mãe na Faculdade Nacional de Filosofia, leu e gostou de uns versos de Ana C. Estava ela com cinco anos. Talentosa, focada nos estudos, escrevia, imprimia, prendia as folhas em forma de caderno e vendia seus poemas em prosa e verso pelos bares de Ipanema.

Adolescente, foi estudar na Inglaterra. Quando voltou trabalhou na TV Globo. O grande ator Paulo José sofreu com as correções que ela fazia nos textos dele. Há uns dez anos ele escreveu uma peça baseada na vida de Ana C. e encenou-a no Rio. Ele, no papel do pai, Waldo, e sua filha no papel da poetisa.

Lá mesmo, em Curitiba, assisti, comovido no Teatro Fernanda Montenegro, a peça “As Kamikazes”, história de quatro mulheres, poetas que se suicidaram

Em Curitiba, há muitos anos, fiz uma palestra, no Centro de Letras, juntando as poesias dela e do meu cunhado, o poeta Homero Homem. Lá mesmo, em Curitiba, assisti, comovido no Teatro Fernanda Montenegro, a peça “As Kamikazes”, história de quatro mulheres, poetas que se suicidaram, uma argentina, uma portuguesa, uma americana e uma brasileira – ela, Ana C. Toda a memória dela está sob os cuidados do Instituto Moreira Salles.

Dela: “Me deu uma dor forte de repente e eu disse – me leva para o hospital. O casal do lado me levou no carro. Tinha fila na emergência. Eu fiquei chorando e espiando a folia que não quero contar como é que era. Quando voltei ele estava pálido e contou que tinha desmaiado.

Ele é tão grande e mesmo com dor eu ia pôr no colo. Fiquei sabendo melhor como é o desmaio. Você não apaga – acende uma velocidade de sonho sólido, e você vê tudo num minuto. Até a sala de ópio com Fats Waller cantando Two Sleepy People em câmera bem lenta, no coração de Paris uma câmara de sonho oriental, tapetes persas fechando as paredes e almofadas fechando os olhos como no paraíso.

Você pode também sentar de novo na Place de Vôges, que é perfeita, cartão-postal mágico voador. Parece que você vê e pega, ou fica.

Completamente dentro. Não é uma esponja nem uma bagatela. Até a travessia do Canal, ou a primeira vez que alguém te cobriu de beijos, ou o nervoso de perder o trem por dois minutos. É um cinema hipnótico, sem pernas. Não e vago.” (*)

Nota

(*) Livro: “Luvas de Pelica – Ana Cristina C.” – páginas 27 e 28
Realização Geral, Ana Cristina C.
Coprodução: Waldo Cesar.
Desenho e foto da capa: Violettes Révées, de Bia Wouk.
Fotocomposição: Technique – Colchester Essel
Impressão: Rudd Peel Reprographics – Wilberfocs, York.
Agradecimentos especiais: Tim, Richard, Jackie, Pat, Chris.

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