Uma janela “para o nada” e a plenitude “do todo”

RITA BRAGATTO – É quase indefinível. Mas tanto eu, quanto você ou o desconhecido que se senta ao seu lado no metrô, certamente, já sentiu o chamado vazio existencial. É aquela sensação com gosto de escassez. De insuficiência. De frustração. É a falta de algo que nem conseguimos nomear direito. A filosofia, a psicologia e a literatura já estudaram esse sintoma. E os gregos, sabiamente, o explicaram: a mãe de Eros, o desejo, é a Penúria, a falta. Ou seja, a carência é a origem de tudo o que desejamos na vida. É ela quem nos move em direção aos nossos sonhos. Dá um certo alívio entender isso. Mas é preciso muita atenção ao que damos como alimento à essa fome da alma.


Freud abordou a falta como a perda de um objeto de amor primordial. Ele focou na dinâmica do desejo e em sua possível frustração. E assim é! Toda demanda não atendida gera sofrimento. Angústia. Tristeza. E o caminho mais curto para a satisfação dessa falta, normalmente, é a busca pelo prazer imediato. Seja através de bebida. Drogas. Sexo. Compras.

Mas assim que saciamos um desejo, outro buraco se forma. E é aí que vem o grande desafio da vida adulta: é essencial buscar o equilíbrio e, na maior parte do tempo, aprender a nos satisfazer com o que já temos – e que não é pouco! A gente pode se surpreender com as oportunidades que o universo nos dá quando contornamos, internamente, essa sensação de escassez.

Eu tenho um exemplo próprio. Quando estava procurando uma nova casa pra morar aqui na Itália, um dos meus desejos era que ela tivesse uma janela pras montanhas. A região é muito bonita. Queria ter esse “quadro” à disposição na minha sala de estar. Quando visitei a minha atual casa, estava chovendo e a janela estava fechada. Mas supus, pela localização, que ela daria para uma bela paisagem. Errei feio. Para minha surpresa – e frustração – a janela dá para um muro, um beco. Sim, moro na parte medieval da cidade e isso é bem comum.

Confesso que fiquei bastante chateada, inicialmente, com a minha estupidez. Várias vezes ao dia eu pensei: “Como pude não verificar esse detalhe tão importante? Justo a janela da sala, onde vou escrever e atender meus pacientes e, portanto, ficar boa parte do dia? Que droga!”

Eu poderia passar o resto dos meus dias aqui, lamentando esse fato. Frustrada. Infeliz. Mas resolvi contornar esse obstáculo. Tenho saído muito mais de casa para apreciar a paisagem. Conversar com os vizinhos. Às vezes, faço os atendimentos ao ar livre. E a sensação boa de integração que sinto com a natureza, com certeza, me energiza e me ancora ainda mais para atender meus pacientes.

Esse é um exemplo de frustração simples. Mas que a gente pode começar a exercitar para lidar com as grandes angústias existenciais. A vida é cheia de altos e baixos. Voltas e reviravoltas. Luz e sombra o tempo todo. Seu movimento não é linear. Assim como as estações do ano nós também mudamos. Temos dias de sol. Mas também os de chuva e frio. Temos perda e ganho. Mas se você acordou saudável hoje é mais feliz do que um milhão de pessoas que não sobreviverão esta semana. Já parou para pensar nesse privilégio? Tenho certeza que se pensar vai parar de reclamar um pouco e ser mais grato pelo que já tem!


Não podemos evitar esse sentimento de insatisfação, de frustração, que nos acomete vez ou outra. Somos humanos. Mas como adultos temos a obrigação de mudar a maneira de olhar as coisas. De contornar os obstáculos como a água contorna as pedras do rio.

Definitivamente, não existe GPS que nos assegure que estamos tomando as melhores decisões. Seguindo o melhor caminho nesta vida. Mas para a nossa própria felicidade precisamos aprender a aproveitar a paisagem como ela se apresenta. O vazio de uma janela com vista “para o nada” me trouxe a plenitude do todo. Quando saio de casa eu encontro muito mais vida e muito mais conexão com os vizinhos e com a natureza do que eu poderia sequer imaginar. Eu me integro. Para mim, foi uma baita lição da vida e mais um presente do universo.

Rita Bragatto | Psicanalista | Consteladora Familiar
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