Caridade embutida

JOSÉ CARLOS FINEIS – Um homem muito pobre, inclusive de informações, bateu numa casa bonita já preparado para receber cara feia, mas tinha fome e precisava de algo para comer. A empregada o atendeu e pediu que esperasse. Minutos depois, surgiu com uma sacola de supermercado cheia de salsichas bem vermelhas. Verteram lágrimas dos olhos do homem, e o habitual “Deus lhe pague” ficou entalado com o nó que se formou na garganta.

Naquela noite, quando se preparava para assar as salsichas numa fogueira ao lado da ponte, na margem do rio, notou contrariado que outros sem-teto se aproximavam. “Pronto. Ferrou. Lá vêm eles pra comer todas as minhas salsichas”, pensou. Mas ficou surpreso e feliz ao ver que os outros também traziam sacolas cheias de salsichas, linguiças e muitos quilos de alcatra, picanha, maminha e contra-filé em embalagens fechadas.

O churrasco durou a noite toda. Os sem-teto riram e cantaram. Encheram as barrigas como há muito não enchiam, e beberam uma pinguinha também, pois ninguém é de ferro. Já quase ao amanhecer, emocionados com a repentina generosidade dos moradores daquele lugar, comentaram que algo extraordinariamente bom devia ter acontecido.

Talvez o presidente da República tivesse dado um aumento de salário para todos os trabalhadores. Ou quem sabe a inflação tivesse caído tanto que os alimentos ficaram extremamente baratos, a ponto de as pessoas compartilharem algo melhor do que pão dormido e restos de comida velha.

Falou-se até que o papa Francisco, com o poder que a Igreja lhe concedeu, poderia ter decretado uma nova data para a comemoração do Natal, entre o Carnaval e a Páscoa. E, já que tudo parecia possível, concluíram que a bondade finalmente poderia ter deixado de ser apenas uma palavra no dicionário, para se materializar em doações e atitudes.

“Acho que é o começo de uma nova era”, arriscou o mais filosófico de todos, um ex-professor que há anos desistira de dar aulas como temporário, para viver nas ruas. “Os homens finalmente estão praticando o que Jesus ensinou. Começaram a viver a solidariedade, sem preconceitos, e a tratar os próximos (inclusive nós, os sem importância) como se fossem irmãos.”

Já era de manhãzinha quando o vento, varrendo a cidade desde os bairros nobres até a beira do rio, trouxe até eles uma página de jornal, em que se lia sobre o escândalo da carne. “Operação Carne Fraca: substância encontrada em carnes pode causar problemas de saúde”, dizia a manchete.

Só então compreenderam que nada havia mudado. Apenas tinham dado a eles o que seria jogado no lixo. No começo, ficaram tristes. Afinal, não é agradável constatar que se está para a sociedade assim como uma lata está para o lixo. Mas concluíram que teriam comido aquelas salsichas e linguiças sem pensar duas vezes, mesmo que fossem feitas com carne humana ou de rato, pois tinham fome e a fome — essa fome que tortura dia e noite os miseráveis, não a de quem faz dieta ou se atrasa para o almoço — é um dos sofrimentos mais atrozes que um ser humano pode sentir.

Naquele dia, depois de um sono pesado e sem sonhos, saíram novamente pelas ruas a pedir, com a esperança de que a Polícia Federal tivesse encontrado fraudes em outros setores da indústria de alimentos, nas fábricas de refrigerantes, macarrão e chocolate, nas torrefações de café, nas cervejarias, nos alambiques e nas padarias em geral.


Março de 2017 (revisto em julho de 2019)


Foto: webandi por Pixabay

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