Há 50 anos fomos à Lua. No Brasil atual, para muitos, a Terra é plana como um hambúrguer

FREDERICO MORIARTY – George Meliés produziu, em 1902, Le voyage dans la Lune. O maior satélite próximo a um planeta do sistema solar, com uma dimensão de 1/4 da estrutura da Terra, aparecia com olhos e luneta, como um velho senhor a nos observar. No filme, é um senhor rico de vida e habitantes, os lunáticos.

Cena de “A viagem á Lua”, de Meliés

A Lua está próxima, a apenas 384 mil km. Se estrada houvesse, um simpático Fusquinha levaria 4,5 meses pra chegar lá (claro, sem contar os pedágios paulistas). A Lua nos percorre diariamente. A Lua é o símbolo da Mãe. É Selene. Uma deusa selvagem e aventureira, que para os gregos denomina-se Artemis. Para os poetas, a Lua torna-se o inatingível, a beleza e a suavidade da vida, o ideal do amor. O satélite segue o ciclo da vida: nasce, cresce, torna-se plena, aos poucos vai se esvaindo. É a metáfora celeste. Sempre esteve no imaginário coletivo de todas as culturas humanas, de todos os tempos. Não é como o Sol, sempre completo, sempre brilhante, sempre presente, sempre masculino.

O Lado Escuro
Cupido e Psyché

A Lua tem a sua sombra, assim como nossa psyché. Entre os movimentos astronômicos do satélite, destacam-se três: 1) a translação (acompanha a Terra nos 365 dias); 2) a rotação (a lua também gira sobre o próprio eixo como a Terra com a duração de 28 dias e 3) a revolução, a dança que a Lua faz em volta da Terra, nos mesmos 28 dias.

Dessa forma, pela posição astronômica, há sempre uma face da Lua que jamais veremos. O outro lado da Lua, o sombrio, o inusitado, o segredo. Atormentados pelo envelhecimento precoce da banda e pela demência de Syd Barret, o Pink Floyd produziu em 1973 um dos dez maiores álbuns da história do rock: The Dark Side of the Moon (clique aqui e veja na íntegra).

A Lua é a mais poderosa mitologia do Sistema Solar, pois é a humanidade em todas as suas ideossincrasias.

MAD – Destruição Mútua Assegurado

Para a maioria dos pensadores, a Guerra Fria começa em 1946. Mas o primeiro ato da mesma nasce em julho de 1945, quando Harry Truman anuncia para Stalin, na cúpula de Potsdam, “que os bebês nasceram e passam bem”. A Bomba Atômica destruíra uma área desértica dos Estados Unidos, antigo cemitério indígena. Uma violência contra os ancestrais e contra nosso futuro. Começava a Era da Destruição Total.

A corrida armamentista dava seu primeiro passo. Quatro anos depois a União Soviética também destruía uma área isolada da Sibéria com a ‘bomba comunista’. No mesmo ano, os EUA detonavam a bomba de hidrogênio, a qual, ao contrário da atômica que usa a fissão, é acionada pela fusão nuclear. Tão potente, que a espoleta da bomba de hidrogêneo é uma bomba atômica.

A tecnologia soviética foi mais célere desta vez: em menos de um ano e meio os comunistas explodiam sua bomba H. A partir dali, soldados, armas, tanques, torpedeiros, submarinos, bombas comuns e ogivas nucleares começaram a ser fabricados freneticamente pelos dois lados da Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética, por quase meio século. O grau de insanidade era tal, que em fim dos anos 80, os cientistas calcularam que o arsenal militar das duas superpotências poderia destruir toda a vida na terra por 140 vezes! Pra quê? Jamais saberemos, afinal basta uma vez para tudo desaparecer.

A doutrina militar norte-americana defendia que para evitar uma guerra contra a ex-URSS era necessário garantir a destruição de toda a humanidade, mesmo que as Forças Armadas do lado comunista fizessem o mesmo. A paz só seria possível na iminência da guerra total. Nome da doutrina? Mutual Assured Destruction, ou Destruição Mútua Assegurada, em português. Ato falho ou não, podemos abreviar para a MAD em inglês. A loucura final.

A Vodka Venceu

Havia um detalhe na bomba atômica soviética: era muito pesada. Por isso, ela não poderia ser lançada por aviões de guerra, o que obrigou os cientistas comunistas a resgatar o projeto de foguetes nazistas V 2 (em verdade, mísseis balísticos). A corrida armamentista abria espaço para outra disputa bipolar: a luta pelo espaço, afinal o desenvolvimento desses foguetes balísticos foi a base dos protótipos espaciais russos.

O satéçite Sputinik que emitia sons enigmáticos, os quais em verdade eram apenas sons desconexos para confundir os americanos

Em outubro de 1957, a URSS lançava o primeiro satélite artificial da história: o Sputnik. No mês seguinte, para comemorar os 40 anos da Revolução de Outubro, era a vez do primeiro ser vivo passear pelo espaço, a cadelinha russa Laika, resgatada nas ruas da capital comunista . Os soviéticos sempre afirmaram que ela sobrevivera ao voo, porém, mais recentemente soubemos que após algumas horas dentro da nave, Laika faleceu de taquicardia.

Laika, a mais bela cadelinha da história


Na primavera russa de 1961, o cosmonauta (como os soviéticos denominavam seus tripulantes espaciais) Yuri Gagarin tornava-se o primeiro homem a viajar pelo espaço. Nascido numa Kolkhoze – as fazendas coletivas criadas por Stálin – próxima a Moscou, o soldado fora escolhido para ocupar a Vostok, apesar de ter terminado em segundo lugar nos testes.

O sorridente Gagarin

O motivo da escolha: Serguei Korolev, o pai dos projetos espaciais soviéticos sabia que a imagem iria correr pelo mundo, então nada melhor do que um rosto belo e sorridente de um filho de camponeses. Os comunistas também sabiam fazer propaganda.

O gênio Korolev e o telefone vermelho

Veio Junho de 1963 e os comunistas continuavam dando um baile tecnológico nos Estados Unidos: a filha de operários, Valentina Tereshkova, conduz a Vostok V no primeiro voo espacial de uma mulher. (Em tempo: como cosmonauta solitária a voar, Tereshkova é única até hoje).

Mais uma vez a vitória ideológica foi da União Soviética. Enquanto, as mulheres comunistas eram independentes e conquistavam espaço na sociedade por suas capacidades intelectuais e técnicas, as norte-americanas não passavam de meras acompanhantes sexys dos astronautas e consumidoras de bens de consumo.

Valentina Tereshkova, a mais importante cosmonauta da história

Em meio às derrotas tecnológicas e a um certo desespero popular norte-americano com a superioridade soviética, John F. Kennedy faz um discurso na Universidade de Rice em fins de 1961, num misto de ira, ressentimento e empáfia: “We choose to go to the moon. We choose to go to the moon in this decade and do the other things, not because they are easy, but because they are hard (“Nós decidimos ir à Lua. Nós decidimos ir à Lua nesta década e fazer as outras coisas, não porque elas sejam fáceis, mas porque elas são difíceis”. Para ouvir o discurso, clique aqui.

Os Estados Unidos iniciavam o Projeto Gemini, depois substituído pelo Mercury e finalmente pelo bem sucedido Apollo. A Lua era o destino!

Para o comando do projeto nada melhor do que Werhner Von Braun, o engenheiro alemão que coordenou a base de pesquisas de Peenemünde entre 1939 a 1945. Nazista de carteirinha, Von Braun reconheceu nos anos 70 que usava trabalho escravo dos campos de concentração nazistas para a construção de armas. No ocaso nazista em 1945, Von Braun trabalhava no projeto dos mísseis balísticos que poderiam ter permitido a vitória de Hitler, os foguetes V 2. Após a derrota alemã em 1945, Von Braun migra para os Estados Unidos e 10 anos depois recebe a cidadania norte-americana. O passado nazista foi esquecido.

Apollo, o Deus da Razão

A exigência de Kennedy, assassinado dois anos depois, virou profecia. Após uma série de erros e tentativas. Acertos tecnológicos, fracassos, mortes (em 1967 tanto Estados Unidos quanto a União Soviética perderam cientistas espaciais em voos) e muito avanço científico, em julho de 1969, a história da humanidade dava um grande salto.

Parte dessa história de falhas e vitórias aparecem em dois filmes essenciais para o tema. O primeiro é The Right Stuff (Os eleitos). Dirigido por Phillipe Kaufman, ele é baseado num roteiro de Tom Wolfe. Uma cena hilária mostra o grau de improvisação da corrida espacial. O astronauta americano, às vésperas do lançamento do foguete e sentado na nave espacial, pergunta ao engenheiro-chefe como ele faria pra mijar no espaço. Todos se olham assustados e cancelam tudo. Esqueceram do básico.

Supersticioso, o povo americano tem fixação pelo número 13. Mutos prédios do país não tem 13º andar e hotéis não costumam numerar quartos com o número cabalístico 13. Mas os deuses da razão, os Apollos da ciência não acreditam em bruxas. Em abril de 1970, os Estados Unidos lançam a Apollo 13 para fazer a segunda alunissagem da história.

Para desafiar os mitos, o horário de lançamento foi ás 13h13′ de Houston. Mais do que isso, a nave desceria na Lua no dia 13. O resultado não poderia ser outro: tudo deu errado. A nave jamais pousou na Lua e por pouco os astronautas não morreram. O filme Apollo 13 de Ron Howard mostra cenas maravilhosas e verossímeis do satélite. Destaque para a atuação brilhante de Tom Hanks.

Houston, we have a problem. Cena de Apollo 13

Pobres americanos, jamais ouviram o ditado galego: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”. Na dúvida, melhor não provocar os espíritos.

É um pequeno passo para [um] homem, um salto gigante para a humanidade

Na manhã de 16 de Julho de 1969, o foguete Saturno partia de Houston no Texas. Dentro dele os três engenheiros-astronautas: Michael Collins, Buzz Aldrin (sim, leitores, o grande parceiro espacial do caubói Woody em Toy Story é uma homenagem ao desbravador da lua) e o comandante da operação e primeiro homem a pousar na lua: Neil Armstrong.

Armstrong, Buzz e Collins

Após uma volta e meia em órbita terrestre e descarte dos dois primeiros foguetes, a Apollo 11 caminha em direção à Lua. No dia 19 ela sobrevoa o lado escuro da Lua. Por 24h a NASA perde contato com os astronautas, que tiveram de conduzir tudo sozinho, como previsto.

O pequeno passo de Neil Armstrong

Exatamente às 17h17′ do dia 20 de julho de 1969, o módulo lunar Eagle pousa no solo rochoso do mar da Tranquilidade. O homem conquistara o espaço. Com direito à bandeira norte-americana “tremulando” no espaço. A águia pousou e o urso desfaleceu.

Armstrong e Buzz andaram pelo solo lunar, bateram papo com marcianos, colocaram um espelho (que reflete luz emitida da terra até hoje) e carregaram quase uma tonelada de pedras e rochas do satélite. Voltaram ao módulo lunar e iniciaram o retorno heroico à Terra. Num 24 de julho de 1969 foram resgatados no Oceano Pacífico. Os astronautas estavam bem. Os Estados Unidos venceram a Corrida Espacial, afinal os soviéticos jamais pousaram na Lua e em 1974 encerraram o Projeto Lunar.

Pobre URSS e viva a Terra Plana!

Qualquer pessoa de senso crítico percebe que há uma lacuna nessa história: se a URSS estava muito à frente dos Estados Unidos até 1963 pelo menos, como repentinamente os comunistas desapareceram da história espacial.
Não desapareceram. Em verdade, a preponderância tecnológica permaneceu. O que a URSS perdeu foi a guerra midiática.

Nos anos 90, diversos cientistas espaciais estiveram nos escombros da antiga União Soviética, buscavam a lenda de um ‘cemitério de foguetes’. Lá encontraram alguns cientistas dos tempos comunistas e estes os levaram ao ‘ cemitério de foguetes’. A conclusão dos americanos é de que, em verdade, os soviéticos não conseguiram lançar foguetes à Lua, pois estavam muito perto de enviar uma nave espacial para Marte.

Todos nós já ouvimos falar do projeto MIR, a base espacial russa que ficou por 15 anos no espaço. Nela, dezenas de cientistas (a maioria russos e americanos) passavam até 1 ano pesquisando em órbita terrestre. A tecnologia da MIR é toda ela russa (na verdade soviética, pois foi lançada em 1986). Até 2030, a missão russo-americana pretende montar uma base espacial de pesquisas e lançamentos no solo lunar. Feito isso, o próximo caminho serão os planetas distantes. Para isso faz-se necessário amparar nas antigas pesquisas e tecnologias de um gigante, no caso a extinta União Soviética.

A estação orbital MIR

Os projetos espaciais hoje contam com um caráter transnacional. Russos, americanos, japoneses, chineses e europeus vem estreitando esforços e conhecimentos para atingir o infinito e além. Por esse motivo não se foi mais até a Lua desde os anos 70. Porque os Estados Unidos “venceram” teoricamente a corrida espacial. Outro fator da desistência de pousar em Selene novamente é econômico: as pedras trazidas de lá eram apenas pedras.

Neste meio-século de conquista do espaço, de perspectivas futuras para a ciência e mesmo da sobrevivência de toda a humanidade, tivemos por outro lado, em terras tupiniquins, um astronauta que se especializou em vender travesseiros, um presidente que adora tirar selfies em bonecos de astronauta (na embaixada norte-americana) e vários ministros que têm certeza de que a Terra é plana e, claro, que o homem jamais pousou na Lua, a qual nada mais é do que um imenso queijo suíço pregado no espaço sideral. Tal momento histórico nos faz acreditar que o lado escuro parece ter vencido. E a frase abaixo estar dividida entre seus dois sentidos:

O Brasil é o país do futuro!

República dos Terraplanistas



Deixe uma resposta

WordPress.com. Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: