Crítica: Valsa nº6

JOSÉ SIMÕES – Valsa nº6 de Nelson Rodrigues, com direção de Angela Barros e interpretação de Gui Miralha, esteve em cartaz no Teatro Municipal Teôtonio Vilela, numa das raras temporadas teatrais realizadas nesse espaço, na cidade de Sorocaba.

A peça foi escrita em 1951. No mesmo ano estreou no Rio de Janeiro, sob a direção de Mme. Morineau (Henriette Morineau), emblemática diretora e atriz francesa radicada no Brasil. O monologo foi interpretado pela irmã de Nelson Rodrigues – Dulce Rodrigues . Na época a peça não foi bem recebida pela crítica. Sábado Magaldi pontuou “o espetáculo parece-me inferior ao texto”.

“Valsa nº6” é considerado uma pequena obra prima do autor. Desde, então, foram inúmeras encenações amadoras e profissionais memoráveis por todo este Brasil. É um daqueles textos que as atrizes e atores gostam de enfrentar em cena. Não é, portanto, um desconhecido.

Há quem aponte relações entre “Vestido de Noiva” e o monólogo “Valsa nº6”. A peça seria uma versão de câmara dos dramas desenvolvidos em “Vestido de Noiva”. Nessa peça a personagem Alaíde foi atropelada e contracena com as personagens da imaginação. Em “Valsa nº6” a personagem Sonia, foi assassinada e evoca as personagens do seu universo próximo ao percurso da morte. Também estão presentes os planos do presente e do passado. Todas estas questões constituem o desafio e a complexidade na montagem desse texto.

A encenação de Angela Barros é segura e propõe elegantes soluções cênicas. A personagem Sônia proposta se encontra envolvida num diálogo cênico alinhavado entre o sagrado e o profano, o macho e a fêmea costurados e amalgamados em cena.

Entre um devaneio e o outro da personagem a direção mantém o ritmo do espetáculo com marcações criativas que,  por fim, constroem delicados e cirúrgicos desenhos de cena, ora doloridos, ora poéticos, em plena sintonia com a interpretação de Gui Miralha. Nesse conjunto cabe destacar o figurino de Isa Santos que propõe uma Sônia em camadas e a iluminação de Adriana Oliveira, provocando a densidade necessária ao espetáculo.

A atuação de Gui Miralha propõe ao espectador uma Sônia fundada na dualidade, desenvolvida corporalmente no fio da navalha, visceral. É certo que no processo algumas vezes o excesso e o vigor transbordam e turvam a leitura do espectador. Por vezes, o texto se perde no espaço, nos gestos e no balbuciar. Noutros momentos, pontuais, os finais de frase desapareciam, ofegantes. Mas o corpo/imagem estava lá para fazer valer a intencionalidade do não dito, evocando imagens justapostas. Tal qual um redemoinho de imagens corpo/voz/sexo.

Assistir “Valsa Nº6” é constatar a força do teatro. A capacidade dos textos e dos artistas  dialogarem com tempos atuais. É a magia do teatro. Enfim, um bom texto, uma ideia em sintonia com o seu tempo vivido e bons artistas. ou metaforicamente duas tábuas e uma paixão.

O resultado final é um belo espetáculo: emocionante, vigoroso e poético. Um libelo contra a violência de gênero.

(Fotografia/divulgação: Marceli Marques)

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