O Grande Tubarão Branco de Spielberg

FREDERICO MORIARTY – Peter Benchley escreveu Jaws em 1974. (livro na íntegra para dowload) No ano seguinte, o jovem diretor Steven Spielberg produz o filme homônimo. Virou febre, virou vanguarda, virou ouro (faturou 70 vezes o custo inicial). Nas praias, pequetito que éramos, morríamos de medo dos ataques de tubarões na mansa e bela cidade praiana de Mongaguá. 

Tubarão rendeu também uma série de sub-produtos (cheguei a ter uma barbatana de amarrar nas costas e uma miniatura em plástico duro do aterrorizante animal), Spielberg pertence à geração dourada dos 1960/70 do cinema americano. Um grupo de amigos rebeldes e revolucionários formados por ele, George Lucas, Francis Coppola, Brian de Palma e Martin Scorsese .

Artistas fenomenais que conseguiram realizar filmes de extrema qualidade técnica e artística, com bilheterias milionárias. Antes de Tubarão, ele dirigira Encurralado (1974), um despretensioso filme de terror e suspense que denunciavam o talento. Tubarão foi o primeiro blóquibãster, inaugurou a relação de filme cultuado e suas mercadorias paralelas. Depois vieram ET, Caçadores da Arca Perdida, Poltergeist, Jurassic Park e dezenas de produções como Gremlins, De Volta para o Futuro, Cabo do Medo, Querida Encolhi as Crianças.

Spielberg é um Midas contemporâneo (sua fortuna é estimada em US$ 4 bilhões). Em 1993 veio o reconhecimento da crítica com o belíssimo A Lista de Schindler. Mas voltemos ao tubarão branco.

Parceiros em várias produções, os geniais George Lucas e Spielberg nas filmagens de Caçadores da Arca Perdida de 1983 (Foto de arquivo)

Na pacata Amity Island, um imenso tubarão branco começa a atacar e devorar os banhistas. O chefe da polícia local, Martin Brody ( Roy Scheider) se junta ao oceanógrafo Matt Hooper ( Richard Dreyfuss) e ao caçador de tubarões Quint ( Robert Shaw). Hopper é  o alter-ego do autor do romance, Benchley, afinal este lutou até a morte (2006) em defesa da vida marinha e do meio ambiente.

Cartaz original do filme

Três cabeças distintas: um homem com o intuito de restabelecer a ordem e a paz na pequena cidade praiana; outro é o caçador ponderado que olha o seláceo de forma natural e admirada; por último o personagem louco. Eles sobem ao barco e são impulsionados ao mar com sentimentos distintos mas o mesmo objetivo: capturar um imenso tubarão branco.

Tubarão é uma recriação clara de Moby Dick (leia o clássico na íntegra). Em 1851 o autor, Herman Melville, também inaugurou um gênero novo na literatura: o romance de aventura no mar. Descrições detalhadas do ambiente dos navegadores, da atmosfera em alto-mar, das embarcações, das viagens e disputas de corações e dólares.

Moby Dick tem o capitão Ahab, quase insano, levando toda uma tripulação (ou seria o mundo?) ao enfrentamento com um gigantesco cetáceo branco. Claramente Quint é Ahab, os dois loucos sem destino, Brody é Starbuck, um primeiro imediato experiente e técnico e Hooper o arcanjo Ismael, o narrador-personagem de Melville.

Capa do e-book norte-americano

As semelhanças são imensas. A cor branca de Moby Dick e Jaws. A solidão dos dois seres marinhos. A imensidão dos mares. A destruição da nau. A morte do capitão nas garras do Leviatã bíblico. Se em Moby Dick, o canto de morte é a fala de Ahab, no filme é a trilha sonora aterrorizante de John Willians que nos conduz ao inferno (ouça aqui)

Cena de Jaws

D.H. Lawrence, o autor do belíssimo romance Mulheres Apaixonadas, considerou, em fins do século XIX, que Melville fez uma alegoria de imensa simbologia bíblica. Moby Dick é Jesus, pois no passado este era cetus (baleia em latim) e o rebanho eram os peixes. Cristo era um pescador de almas. Ahab é o capitão sem freios que odeia a humanidade de Cristo e destrói a tudo e a todos para derrotar seu inimigo.

E o crava de arpões assim como o filho de Maria foi sadicamente torturado e crucificado. Ahab é a desesperança, apenas quebrada com a sobrevivência de Ismael (metaforicamente salvo da morte por navegar dentro do caixão de Queequeg).

O Tubarão de Spielberg/ Benchley mata e destrói sem piedade. Não é o Cristo de Melville, talvez seja o caos das profundezas que virão. Somente o seu extermínio trará de volta a paz e harmonia, seja nos mares ou nas pacatas praias estadunidenses, ou ainda nas terras brasileiras. Que Ismael nos salve dos monstros que resolveram deixar o limbo.

Assista à bela minissérie em dois capítulos sobre Moby Dick, clicando aqui.

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