Quem desrespeita o luto se aparta da humanidade

GERALDO BONADIO – O trabalho de Michelangelo, na Capela Sistina, encanta pela sua grandiosidade e nos revela a profundidade de seu comprometimento com a arte, comprometimento esse em função do qual passou anos deitado sobre tábuas, num cavalete a muitos metros do solo, delineando e detalhando as cenas, que a partir daquele momento, vêm empolgando a humanidade. Todavia, mais que as cores e o movimento daquela empreitada ciclópica, o que mais nos comove e toca em sua obra são os traços da Pietá, esculpidos em mármore branco, em que a Virgem tem, sobre seu colo, o corpo massacrado de seu filho, ao fim e ao cabo de uma sucessão de padecimentos cuja dureza Mel Gibson retratou, de forma crua, em seu filme sobre a Paixão.

A mensagem subjacente aos traços da Pietá transcende as dimensões da tragédia de Jerusalém e as fronteiras do cristianismo e nos remete a um dos traços mais profundos da raça humana: o direito e a necessidade que todos temos de viver o luto, de nos despedirmos daqueles que, próximos ao nosso coração, ingressam na barca de Caronte para a viagem da qual não se retorna.

Muitos séculos antes do drama do Calvário, encontramos, nas origens da civilização grega, o mito de Antígone que, enfrentando as leis de sua cidade, se dispõe a dar sepultura a Etéocles, seu irmão.

Havendo ele guerreado contra a sua pólis, fora, merecidamente, enquadrado como traidor. Morto em combate, não podia ter o seu cadáver recolhido ao seio da terra – o que o condenava a vagar para sempre. Antígone o sepulta, e por isso ela mesmo é condenada e executada, invocando, numa antecipação dos direitos humanos, que nenhuma lei e nenhum governo pode retirar dos familiares o direito de receber, velar e sepultar os seus mortos.

As ditaduras sangrentas que, nas décadas de 1960 e 1970 se abateram sobre os países do Cone Sul, não apenas torturaram e trucidaram seus opositores. Para garantir a impunidade dos autores e mandantes dos horrendos crimes perpetrados em nosso país, jogaram seus cadáveres no fundo do mar, como ocorreu com Stuart Angel Jones, filho da modista Zuzu Angel, ou, como no caso do jovem Fernando Santa Cruz, que deixou órfão o garoto Felipe Santa Cruz, que hoje preside o Conselho Federal da OAB, incineraram o cadáver no forno de uma usina de cana em Campos dos Goytacazes. Com isso, privaram seus entes queridos de, em lhes prestando as honras fúnebres, deles se despedirem, num comportamento pior que o dos algozes de Jesus.

Fernando Santa Cruz tinha, quando de sua tortura e execução na Casa da Morte, em Petrópolis, 26 anos. À mãe, que faleceu há pouco, mais do que centenária, negou-se a mínima consolação de receber-lhe, pelo menos, os destroços do corpo a fim de inumá-los. Ao filho, hoje advogado, então com apenas dois anos, subtraiu-se o convívio e o amparo que as crianças encontram na figura e atitudes paternas. Tais condutas, monstruosas, maculam seus autores diretos e aqueles que, no aparelho do Estado, mormente nas Forças Armadas, deram ordem para que tais horrores fossem cometidos ou fizeram de conta que não viam o que se passava ao redor deles.

Se Jair Messias Bolsonaro tivesse um mínimo de capacidade de entender o sentido das palavras, saberia que Felipe Santa Cruz, ao enquadrá-lo, corretamente, como cruel e incapaz de apatia, compôs, da alma do presidente, uma imagem mais feia que o retrato de Dorian Gray.

Nada pode retirar aos enlutados a possibilidade de dar digna sepultura aos que se foram, nem o direito de cada pessoa, uma vez morta, ser sepultada ou estabelecer alguma forma digna de deposição de seu cadáver.

Ao sapatear sobre feridas incicatrizáveis, como as que a morte do pai causou em Felipe Santa Cruz, violando a lei não escrita, anterior a qualquer estatuto jurídico, hoje recepcionada e amparada pela Constituição Cidadã, Jair Messias Bolsonaro, seus acólitos e seus seguidores, supostamente cristãos, se esvaziaram de humanidade e bateram de frente com o ensinamento de Paulo apóstolo quando recomenda, aos seguidores do Cristo: chorai com os que choram, princípio contra os quais nem mesmo os crimes que tenham sido cometidos pelos insepultos prevalece – até porque, do contrário, estaremos repetindo o que neles condenamos.

Se o presidente teve acesso a uma versão a ele repassada por algum torturador orgulhoso, não pode, sem violar os estatutos jurídicos do país que, para infelicidade geral da nação, governa, dizer de público o que sabe, sem recuar, como o fez, de maneira pusilânime, no dia seguinte, valendo-se da indigna praxe de se desdizer.

Outra não é a razão pela qual, numa atitude inédita, todos os ex-presidentes da Ordem dos Advogados do Brasil, juntamente com Felipe Santa Cruz, estão batendo às portas do Supremo para cobrar providências.

2 comentários em “Quem desrespeita o luto se aparta da humanidade

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  1. Bravo, Bonadio! Inacreditável o momento de retrocesso político, social e civilizatório que estamos vivendo. Agora, saúda-se a morte vil! Só alguém torpe, pusilânime e que cultua cotidianamente o ódio, a ignorância e a barbárie é capaz desse tipo de coisa. Até quando as instituições, a sociedade organizada e mesmo os ‘cidadãos de bem’ aguentarão tais agressões contra a Constituição e nossas consciências?

  2. Não tenho dúvida de que quem defende os torturadores teria sido um, se tivesse tido a oportunidade. Em que buraco o Brasil se meteu. Quanta vileza, quanta infâmia, quanta maldade explícita nos mínimos gestos e comentários.
    Parabéns, Geraldo, pela lucidez de sempre.

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