Larissa e Joana (conto). Parte 1: Alguém para conversar e nada além disso

José Carlos Fineis

A campainha ding dong soou duas vezes sem que o menor sinal de vida pudesse ser percebido dentro do apartamento. A jovem entrevistadora decidiu tocar de novo e esperar, pois naquela região havia muitos idosos que demoravam para colocar os calçados, pentear os cabelos e passar uma água no rosto antes de atender à porta.

Enquanto esperava, ficou imaginando que tipo de pessoa poderia querer uma porta com aquela, entalhada em madeira maciça com bonitas molduras e baixos-relevos, em cujo laqueado branco e sem mácula se destacava a fechadura de trinco dourado – uma porta apropriada para uma mansão, só que colocada em um prédio decadente e com porteiro eletrônico, de corredores estreitos e escuros, na região da cidade com maior concentração de desocupados, viciados e os chamados “fantasmas”, cujas consciências já foram completamente devoradas pelo crack.

As divagações da garota foram interrompidas por um ruído de trincos e trancas. A porta se abriu uns 15 centímetros, ainda ligada ao batente por uma corrente de metal, como aquelas dos filmes americanos que exigem que se feche a porta para corrê-las por um pequeno trilho no sentido contrário e liberar a entrada.

Uns olhos grandes e castanhos espiaram pela fresta.

– O que você quer, menina? Como conseguiu entrar no prédio? – indagou uma voz de mulher.

– Sua vizinha aqui do apartamento 53 permitiu que eu entrasse. Ela me atendeu muito bem. Então, já que estava aqui, pensei que poderia arriscar e bater em sua porta.

– Isso não é ético, sabia? – informou a mulher com firmeza, mas sem agressividade. – A vizinha do 53 liberou sua entrada para ir ao apartamento dela, não ao meu. O certo seria você voltar lá na calçada, apertar a campainha do meu apartamento, que é o 54, dizer boa tarde, se apresentar e informar o que deseja, para que eu pudesse decidir se destrancava a porta para você entrar.

– A senhora quer que eu faça isso? Posso voltar lá na calçada e fazer como a senhora falou. Não custa nada. Se eu fizer dessa forma, a senhora me atende?

A resposta da moça soou como uma súplica e estremeceu a mulher atrás da porta, que acreditava ter encerrado a conversa.

– Não. Espere um pouco – a moradora respirou fundo. – Não faria sentido. Seria uma estupidez obrigar você a voltar lá. Já que está aqui, diga o que deseja.

– Eu estou fazendo uma pesquisa – a garota disse, puxando o crachá pendurado no pescoço para perto da abertura e sorrindo o seu melhor sorriso.

– Larissa – leu a mulher em voz alta.

– Eu mesma. Muito prazer.

– Nunca ouvi falar nesse instituto, Larissa. Sobre o que é a pesquisa?

– Eles não disseram pra gente o que pretendem saber. Apenas nos treinaram para aplicar o questionário. Basicamente, são perguntas sobre marcas de produtos e serviços mais lembrados. Programa de TV, aplicativo, manteiga, carro, supermercado.

– Só isso? E por acaso, no meio dessas perguntas, não tem nada do tipo “como você avalia o atual governador” ou “em qual destas pessoas você votaria para deputado”?

– Tem, sim. Mas essa parte política são cinco perguntinhas apenas.

– A pessoa pesquisada precisa se identificar?

– Sim. Temos que fazer um cadastro básico e anotar o telefone de cada entrevistado.

– E quanto tempo demora?

– Uns 15 a 20 minutos, no máximo.

A mulher ficou em silêncio por um instante.

– Tudo bem. Vou atender você.

A porta foi fechada para a retirada da corrente e escancarada com um gesto largo. Larissa se viu frente a frente com uma mulher alta, esbelta e bem cuidada. Quantos anos teria? 35? 40? Não mais que 40.

– Entre. Não repare a minha bagunça – disse a mulher, enquanto fechava a porta e caminhava apressada para dentro do apartamento. – Vivo sozinha e tento manter a casa em ordem, mas não tenho faxineira – completou, já fora de vista.

– Imagine! – gritou Larissa na direção do corredor por onde a mulher entrara. – Seu apartamento está muito limpo e arrumado. E é muito bonito também.

O elogio foi sincero. Embora sem grande criatividade, a sala espaçosa, típica daqueles prédios antigos do Centro, parecia ter sido recriada por um bom decorador.

O piso de tacos de madeira tinha sido lixado e pintado de preto. Uma cristaleira antiga, com objetos antigos – entre eles, um cachimbo de madeira com suporte e um velho livro de capa dura, vermelha e desgastada –, chamava a atenção numa das paredes. Pinturas em estilo impressionista eram vistas aqui e ali. Perto da janela entreaberta, onde o ar da rua fazia tremular uma cortina de tecido rendado, um conjunto de namoradeira, poltronas e mesinha em estilo clássico compunha com o tapete felpudo um recanto acolhedor, que parecia ter sido preparado para longas conversas madrugada afora. Mas com quem?

Larissa permaneceu de pé a dois passos da porta, com uma grande bolsa estilo sacola pendurada no ombro, relutante em avançar. Ela esperava ser recebida por uma senhorinha de cabelos brancos, como dona Maria Helena do 53 e seu rabugento marido. Ou por uma mãe com duas ou três crianças hiperativas, que levaria várias vezes o tempo usual da entrevista para responder o questionário, entre berros de “desça daí” e “pare com essa gritaria senão eu te mato”. Ou, na pior das hipóteses, por algum cinquentão barrigudo que tentaria cantá-la. Situações como essas faziam parte de sua rotina.

– Você sabe que esse negócio é uma grande trapaça, não sabe? – disse a mulher que voltava pelo corredor trazendo xícaras, açucareiro, adoçante e um bule térmico em uma bandeja. Depois, estacando no meio do caminho, sorriu sem jeito:

– Desculpe, acho que eu não a convidei para se sentar. Mas pensei ter dito para ficar à vontade.

– Tudo bem – disse Larissa, sempre sorrindo. – Muito obrigada por me receber.

– Sente-se na namoradeira. Tem mais espaço pras suas coisas. Eu estava terminando de coar um café. Você toma café comigo, não?

– Aceito um pouco – disse Larissa, enquanto se aproximava do recanto próximo à janela. A mulher afastara algumas revistas e colocara a bandeja na mesinha de centro. Larissa sentou-se onde a mulher indicara e, enquanto tirava a prancheta e uma caneta da bolsa, perguntou: – O que é trapaça?

– Como assim, trapaça?

– A senhora disse que é tudo uma grande trapaça.

– Ah, sim. Essa pesquisa que você está fazendo. Na verdade, me parece que essas perguntas sobre marcas devem ser só uma cortina de fumaça, um disfarce para o núcleo da pesquisa, que são as cinco perguntas políticas. Mas posso estar enganada. Dependendo do grau de profundidade da pesquisa, as perguntas sobre consumo podem desempenhar uma função importante, que seria a de relacionar o perfil socioeconômico do entrevistado, seu poder aquisitivo e classe social com suas preferências políticas.

– Pode ser – Larissa aquiesceu, balançando a cabeça. Seu pensamento estava distante agora. Enquanto mexia vagarosamente o café com a colherinha, pensava se esquecera de pôr alguma coisa na sacola do bebê que deixara aos cuidados de uma tia.

– Então, o que você quer saber? – a anfitriã sorriu, acomodando-se com uma xícara enorme de café na poltrona mais próxima da janela.

Os 20 minutos seguintes foram bem aborrecidos para ambas, mas tanto Larissa quanto Joana — esse o nome da pesquisada — se esforçaram para ser educadas e fingir que levavam aquilo a sério.

“Revista?”, “Piauí.” “Cerveja?”, “Não bebo. Pode pular tudo o que for referente a bebidas alcoólicas.” “Marca de carro?”, “Audi, mas nunca vou ter um.” “Supermercado?”, “Qualquer um que esteja no caminho.” “Cafeteria?”, “Dom Leopoldo.” “Programa de TV?”, “Há séculos não vejo TV.” “Rádio?”, “Fox Rock.” “Arroz?”, “Ráris. Aquele cheio de sementinhas.”

As questões políticas eram exatamente as que Joana antecipara: avaliação dos governos federal, estadual e municipal, e em qual destes candidatos – Larissa tinha duas listas, com os nomes em ordem alfabética – a pessoa votaria para deputado estadual e deputado federal.

No final, havia um campo para a identificação completa do entrevistado. Joana não conteve um palavrão quando Larissa pediu seu nome completo e RG.

– É para controle interno apenas – Larissa tranquilizou.

– Espero que seja mesmo. Na verdade, eu não devia responder nada sobre política. Na universidade em que eu trabalho está havendo uma caça às bruxas. Mas foda-se. Todos, do porteiro ao reitor, sabem o que eu penso. Sou paga para dar aulas, não para que me digam o que devo ou não devo pensar.

Larissa anotou o telefone de Joana e informou que alguém deveria ligar para ela nos próximos dias, para validar a entrevista. Depois guardou a prancheta na bolsa e, juntando as mãos num gesto de agradecimento, fez menção de se levantar.

– Bem… Terminamos!

Joana retribuiu com um sorriso curto, mas não se moveu. Olhou pela fresta da janela com o semblante absorto, como se pensasse em alguma coisa muito importante. Depois voltou-se para Larissa e, adotando um tom de voz quase maternal, indagou:

– Larissa, quanto você ganha por entrevista? Posso saber?

– Hum, não sei se posso dar essa informação.

– Eu fui gentil com você. Respondi todas as suas perguntas. Diga pra mim, por favor. Quanto você ganha por entrevista?

– Annnnnn, tudo bem. Acho que não faz mal eu falar. Eu não ganho por entrevista. Ganho por lote de entrevistas. Foram encomendadas 30 desta vez.

– Sim, mas quanto isso paga, por questionário respondido?

– É pouco. Dá até vergonha de dizer.

– Diga. Não há vergonha nenhuma em ganhar mal.

– Eles pagam R$ 750,00 pelas 30 entrevistas.

– Certo. Então deixe ver, 750 por 3, tira um zero… São R$ 25 por entrevista, correto? O transporte é por conta de quem?

– Eles nos dão passes de ônibus.

– E quanto tempo você leva para fazer uma entrevista?

– Acho que no máximo uns 35, 40 minutos. A questão não é o tempo da entrevista. É o tempo que leva para conseguir alguém disposto a responder um questionário longo como esse. Eu nem sei em quantas portas tenho que bater para conseguir alguém que aceite participar. E não pode ser qualquer pessoa. A cota de entrevistados é segmentada por sexo e idade. O segmento de idosos praticamente eu já concluí, porque eles têm tempo e costumam ser atenciosos. Pessoas de meia-idade e jovens são mais difíceis de convencer.

Joana sorriu para Larissa, com um olhar que poderia ser definido como carinhoso. Depois, inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos para chegar mais perto da garota. O sorriso suavizava sua expressão e Larissa, só então, percebeu o quanto Joana era bonita com seus olhos grandes, nariz delicado e dentes perfeitos.

– Larissa, eu percebo que você é uma pessoa esforçada, que batalha muito para se manter. Você me permitiria lhe fazer uma proposta?

– Proposta? Que tipo de proposta?

– Eu pago 300 reais por duas horas do seu tempo, uma vez por semana.

Larissa empalideceu.

– Como assim? Não estou entendendo. A senhora não pensa que eu…

– Não é isso que você está pensando, se é que está pensando o que imagino que esteja pensando.

– O que a senhora quer de mim?

– Conversar.

– Só conversar?

– Sim. Conversar. Não me pergunte por quê. Você aceita?

Larissa hesitou.

– A senhora não acha estranho pagar alguém para conversar? Quero dizer: é uma mulher inteligente, bonita, trabalha em uma universidade. Não faltariam pessoas muito mais interessantes do que eu para conversar com a senhora.

– Sim, mas eu estou de saco cheio com todo o mundo. Todos os que eu conheço já têm uma ideia formada sobre mim, ou querem alguma coisa de mim, ou têm reservas contra mim. Acho que seria desestressante tomar café com você e falar sobre qualquer assunto, uma vez por semana. O que há de errado nisso?

– Mas pagar pra conversar não é meio esquisito?

– Larissa, preste atenção. É o seu tempo que você vai dedicar a mim. Seu tempo vale dinheiro. Além disso, esquisitice – como você define – é o que não falta neste mundo. Há pessoas aparentemente ajustadas no casamento, e você deve conhecer muitos casos assim, que só suportam umas às outras pelo dinheiro. Outras fazem tratamentos com psicólogos e psicanalistas, o que acho bastante válido, mas não porque estão com algum problema emocional ou psicológico, e sim porque não têm, entre seus familiares – marido, pais, filhos –, alguém que as ouça, que lhes dê um mínimo de atenção. Eu li recentemente sobre uma terapeuta americana que cobra uma fortuna para dar abraços demorados em seus pacientes. E no Japão – se bem que o Japão é outra cultura, quase que um outro planeta –, tem uma empresa que aluga amigos e parentes para pessoas solitárias, para acompanhá-las em festas ou mesmo para conviver com elas em casa. Na verdade são atores, que desempenham o papel de irmão, mãe, filho, namorado. Isso sem falar nos homens que compram mulheres de silicone para ver TV de mãos dadas no sofá e depois fazer sexo com elas. Você acha mesmo que receber 300 reais para bater um papo e tomar um café uma vez por semana é esquisito?

Larissa foi até a janela. Olhou para a rua. Estava um pouco confusa, mas não havia muito o que ponderar. Eram R$ 1.200,00 por mês. Muito mais do que ganhava com a atividade de babá eventual e aquelas pesquisas, que na verdade eram bicos e só surgiam com intervalos de meses. Pensou no bebê, na mensalidade do curso, na forma gentil como Joana a tratara e, sem dificuldade, decidiu:

– Tá bom. Se a senhora acha que isso vai lhe fazer bem, e se o dinheiro não lhe fará falta, eu aceito. Mas tem de ser durante o dia, a chave deve ficar na porta e uma pessoa de minha confiança saberá que estou aqui. Por favor, não leve a mal, mas não conheço a senhora, preciso dessas precauções. E a conversa é só conversa, como foi hoje. Nada de abraços ou contato físico. Se eu me sentir desrespeitada, levanto e vou embora e a senhora nunca mais me verá.

– Acho justas suas condições – concordou Joana. – Mas devo dizer que não sou lésbica, se é isso que a preocupa.

– Veja bem, não se trata disso. Se a senhora…

– Você.

– Se você fosse lésbica e rolasse alguma atração entre nós, não haveria problema quanto a isso. Mas, nesse caso, eu não me sentiria bem em estar com você por dinheiro. Seria uma situação diferente.

– Concordo. A propósito, Larissa, você acredita que o amor é apenas uma palavra de quatro letras, como diz uma antiga canção?

– É claro que não. Quem disse essa bobagem? Eu amo um cara. Sou louca por ele. Como poderia aceitar que o amor é apenas uma palavra? Não dei muita sorte até agora nessa parte de minha vida, mas acredito, sim. Eu acredito no amor.

– Nas nossas conversas, nós podemos falar sobre amor? Quer dizer, isso não a faria se sentir invadida?

– Podemos falar sobre o amor, sem problema. Agora, se eu não quiser falar sobre alguma coisa muito particular, muito íntima, tudo bem pra você?

– Claro. Você só me conta o que quiser e achar que deve.

Combinaram que se encontrariam sempre às terças-feiras, das quatro às seis. Joana não dava aulas nesse dia. Larissa estudava pela manhã e tinha esquema para deixar o bebê com a tia, quando surgia trabalho.

– É lindo o pôr do sol daqui – comentou Joana, feliz por Larissa ter concordado.

– É sim.

Larissa jogou a bolsa no ombro, puxou o cabelo do rosto e sorriu meio sem jeito.

– Bem. Então eu vou.

– Claro. Vou te acompanhar.

Diante da porta aberta, as duas hesitaram. Por fim, trocaram beijinhos desajeitados, sem se tocar.

– Até terça, então.

– Até terça.

Mas, antes que Larissa saísse, Joana se agitou.

– Espere, Larissa. Eu posso lhe dar um presente?

– Um presente? Acho que sim.

Joana foi à cristaleira e retirou um sapo de pano, com olhos grandes e espertos. Era um desses fantoches artesanais em que se enfia a mão como em uma luva, com o dedão na parte de baixo e os outros dedos na parte de cima, para fazê-los abrirem e fecharem a boca.

– É pra você contar histórias pro seu bebê.

Larissa olhou para o brinquedo com ternura. Depois teve um estalo:

– Mas como você sabe que eu tenho um bebê, Joana? Eu não contei nada sobre isso.

– Dizem que sou meio bruxa – Joana brincou. – Você é caloura de algum curso de Humanas, tem um bebê e o deixa com alguém, provavelmente sua mãe ou uma tia, para fazer trabalhos eventuais, e assim pagar a faculdade. Li tudo isso em seu rosto pela fresta da porta, logo que bati os olhos em você. Aliás, foi só por isso que deixei você entrar.

Leia a segunda e última parte deste conto no próximo domingo, 11 de agosto, no blog Conversa de Armazém.

Crédito da ilustração
Quadro “The Dream” (“O Sonho”) de Pablo Picasso (1932).

“Amor é apenas uma palavra de quatro letras”

A “antiga canção” citada por Joana, “Love is Just a Four-Letter Word”, foi composta por Bob Dylan por volta de 1965 e cantada em shows por Joan Baez desde então, A canção foi gravada pela cantora em 1968, em seu álbum “Any Day Now”. A letra faz referência a diferentes passagens da vida de uma mãe solteira por meio de fragmentos poéticos. Segundo a lenda, a canção nunca foi terminada por Dylan, que jamais a gravou, tendo os versos finais sido escritos pela própria Baez, que foi namorada do cantor no início dos anos 1960. Dylan é ganhador do Prêmio Nobel de Literatura.

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