A beleza oculta

RITA BRAGATTO – No último domingo, depois do meu treino de corrida, cheguei em casa e resolvi sentar na escada de acesso para aproveitar um pouco mais o Sol do verão europeu. Abri uma cervejinha (porque também não sou de ferro). Fiquei observando a arquitetura medieval do lugar onde vivo. Escutando a gargalhada gostosa da netinha da minha vizinha. Sentindo o cheiro bom de comida vindo de algum fogão. Fui invadida por uma sensação enorme de pertencimento. Eu me senti em casa. E é muito louco isso. Nem nos meus mais criativos sonhos eu tinha me imaginado morando num lugar como esse. Muito menos pensei que, ao perder o controle de uma situação, eu ia encontrar a paz.


Quando saí do Brasil para estudar na França, em maio do ano passado, eu tinha em mente fazer o reconhecimento da cidadania italiana. Para isso, planejava viver os três meses últimos meses do meu visto de permanência no “país da bota”. Eu tinha algumas informações dos meus ancestrais. Mas não sabia, exatamente, em qual Comune eles foram registrados. Então, em junho, já dei início à investigação.

Com a ajuda de uma grande amiga consegui a lista de e-mails de mais de cem Comunes da região de nascimento dos meus bisavós. Mandei mensagem para todas. Um belo dia, milagrosamente, tive resposta: recebi – em casa – a certidão de nascimento da minha bisavó. Nem acreditei! É muito difícil ter retorno. Eles não facilitam a aquisição desses documentos. Enfim. A partir daí, comecei a pesquisa de assessores que poderiam me ajudar com o processo na Itália.

Conversei com várias pessoas e entendi que até era possível fazer o reconhecimento com essa certidão, mas que demoraria muito mais tempo. O governo italiano dá preferência para o processo a partir do lado masculino. Mas como eu não possuía ainda nenhuma informação do meu bisavô, resolvi iniciar assim mesmo. Lembra? Eu tinha um prazo para fazer tudo isso. E como precisei fazer retificações de nomes nas certidões brasileiras teve início uma corrida contra o tempo. E uma sucessão de contratempos.


Para conseguir uma assinatura importante para o processo, por exemplo, aluguei um carro e cruzei a França, a Suiça e boa parte da Itália, sozinha. Dirigi dez horas seguidas. Uma loucura, eu sei. Mas eu tinha a data limite e, principalmente, precisava me sentir no controle da situação. No dia seguinte, enviei esse documento assinado para o Brasil e a carta registrada, que deveria chegar em seis dias, demorou 35. Ninguém sabia onde ela estava. Cheguei a pensar que o documento tinha sido extraviado. Imagine como eu fiquei com esse atraso de um mês.

Enfim, quando toda a documentação estava organizada, entreguei as chaves da casa onde eu vivia na França e fui pra Bélgica fazer um curso, num fim de semana. De lá, eu pegaria um avião para a Itália e me encontraria com o meu assessor. Estava tudo certo. Alinhadíssimo. Qual não foi minha surpresa quando eu já estava na Bélgica e, por telefone, ele me disse: “não venha. Não posso te receber agora.” É isso mesmo o que você está pensando! Ele me largou na mão. Sem alternativas. Sem explicações. Sem desculpas.

Imagine a situação: eu estava crente que teria uma casa à minha espera na Itália e recebo essa notícia que tirou meu chão. Ou melhor, tirou meu teto, já que depois deste telefonema eu me transformei na mais nova “homeless” da Europa. Parece engraçado agora. Mas na hora não foi nada divertido. Quase peguei o primeiro avião de volta para o Brasil.

Graças a Deus, tenho amigos pelo mundo. E eles me deram, literalmente, abrigo. Fiquei uma semana na casa de uns. Outra semana na casa de outra. Até que consegui arrumar um novo assessor que atendia em San Vito Romano.


Nunca tinha ouvido falar dessa cidade. Quando olhei no Google, vi que era um pequeno vilarejo medieval, isolado, no alto de uma colina. Pensei: “Nossa! Que fim de mundo! O assessor vai me trancar lá e jogar a chave de casa na boca dos dragões.” Mas eu não tinha outra escolha por causa do cronograma. Meu visto de permanência terminaria em breve. E, por isso, vim com a fé e coragem. Cheguei exausta com tanto estresse. Sem conhecer absolutamente ninguém. Sem falar o idioma. Mesmo sendo uma aventureira de carteirinha, confesso que estava em dúvida se iria “sobreviver” a tudo isso.

Hoje, sentada na soleira de casa, me sentindo tão conectada com esse lugar, todo esse caminho percorrido passou como um filme na minha cabeça. Parece que eu vivi tanta coisa nesses últimos quatro meses. Foi tudo tão improvável e intenso. Nunca imaginei que o desfecho dessa história seria esse. Tive dias muito solitários. Dias muito estressantes à espera da resposta do consulado. Em resumo, dias muito difíceis. Pra ajudar, ainda estava um frio terrível, um inverno que não tinha fim.

Mas também tive dias maravilhosos. De muito amor. De muito carinho. De muito acolhimento. “Garrei apego” por San Vito e sua gente. Tanto que decidi ficar aqui mais um pouco e viver essa cidadania com uma verdadeira italiana. Hoje, caminho pelas ruas e não me sinto uma estrangeira. Tampouco uma turista. Vivo na fluidez deste vilarejo. Eu já me sinto parte da paisagem. É, parece que o “fim do mundo” se transformou em início de algo muito bom, dentro de mim.

Vejo que eu tentei controlar tanto o processo. Fiz e refiz o cronograma milhões de vezes. Perdi o sono muitas noites. Chorei. Quase desisti. E todo esse estresse não adiantou nada. Tudo aconteceu de uma maneira completamente diferente dos meus planos. Fui surpreendida, inúmeras vezes, de forma favorável. Graças a esse atraso, inclusive, consegui encontrar a certidão do meu bisavô e, por isso, o processo de reconhecimento foi bem rápido.

Tem um ditado popular que diz que “Deus escreve certo por linhas tortas”. A gente até quer acreditar nisso. Mas quando está no meio do “olho do furacão” é difícil ter fé, eu sei. As coisas acontecem como têm de acontecer. Não como a gente quer. Nós não temos o controle da nossa vida. No máximo, temos o comando das decisões, à medida que a vida se apresenta.

Espero que, com mais esta experiência, eu tenha aprendido essa lição de uma vez por todas! Não quero ficar no controle de tudo porque ele nos tira do momento presente. A cada dia que passa, mais me conscientizo de que por trás de cada imprevisto, de cada desvio de rota, tem uma beleza oculta. O tempo nos mostra que existe uma força muito maior que nos guia e nos coloca no lugar e na hora exatos. Nada é por acaso.

Clarissa Pinkola Estés, em seu livro “Mulheres que correm com os lobos” tem uma teoria muito bonita sobre isso: “Diz-se que tudo o que procuramos também está à nossa procura; que, se ficarmos bem quietos, o que procuramos nos encontrará. Ele está esperando por nós há muito tempo. Depois que ele aparecer, não devemos fugir. Descansemos. Vejamos o que vem a seguida.”

Rita Bragatto é psicanalista e jornalista
Email: rita.bragatto@gmail.com
Facebook: https://www.facebook.com/rita.bragatto.escritora/

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