Carolinas

GERALDO BONADIO – Na vida das pessoas, mede-se o tempo por anos, no máximo, décadas. No das nações e dos estados, por séculos e, às vezes, milênios. Daí a surpresa, justificada, com que o Ocidente, após quinhentos anos de dominância global, vê aproximar-se, em velocidade acelerada, o instante em que o bastão da liderança será, forçosamente, devolvido aos Estados asiáticos ou, no mínimo, euroasiáticos. Tal perspectiva é assustadora em especial para os Estados Unidos, o país geograficamente mais ocidental do Ocidente que, desde o final da Segunda Guerra Mundial, por uma soma de múltiplos fatores, lidera a economia e a política mundial.

A Índia, hoje um dos gigantes asiáticos, foi colônia britânica até 1947. Não logrou, como queria Gandhi, destacar-se do Império britânico com um Estado único e não confessional: duas frações da antiga colônia deram origem ao Paquistão e a Bangladesh, mas, apesar disso, chegou ao século atual como uma potência emergente.

Multifragmentada com o final da União Soviética, a Rússia, cujo território situa-se, em sua maior parte, na Ásia, surpreendentemente ressurgiu, retomou a tendência expansionista que remonta ao tempo dos czares e, hoje, volta a disputar, com os Estados Unidos, a liderança em tecnologia militar.

O caso mais surpreendente, entretanto, é o da China. Atacada, no século XIX, durante as guerras do ópio, pela Inglaterra – isoladamente na primeira delas; em aliança com a França e a Irlanda, na segunda – viu-se forçada a abrir seus portos ao comércio com aqueles países e, pior, a aceitar que o ópio fosse livremente comercializado em seu território, gerando dependência química para milhões de seus nacionais.

As coisas se agravaram no século XX, em que se viu às voltas, com a guerra civil entre comunistas e nacionalistas, após a deposição do imperador; com a invasão e conquista, pelo Império Japonês, antes e durante a Segunda Guerra Mundial; com as Guerras da Coréia e do Vietnam e, também, com os conflitos internos entre várias correntes comunistas. Mesmo assim, ingressou, no século XXI, como a segunda potência econômica do planeta, enfrentando os Estados Unidos inclusive no campo da tecnologia avançada.

A presença dessas três potências emergentes na Eurásia reaviva a teoria geopolítica de Mackinder, segundo a qual quem controlar aquela porção do globo determinará os rumos do planeta, tese em benefício da qual trabalham, hoje, o declínio demográfico e político da Europa – que se agravará com a saída da Inglaterra da União Europeia e o crescimento populacional da África. Surge, diante de nossos olhos, uma realidade cheia de desafios, que ninguém imaginava possível há cinquenta anos.

Como a Carolina de Chico Buarque, o tempo passou na janela, só Bolsonaro não viu. Acolitado por generais que continuam a se guiar pelos manuais da Guerra Fria e da finada confrontação bipolar de poder (EUA x URSS), dirige o carro do Estado brasileiro guiando-se pelo retrovisor e aposta o futuro de nossa gente no time do Trump, cuja chance de vencer o jogo da nova geopolítica é menor que zero.

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