Fazer da Cordilheira dos Andes a Sierra Maestra da América Latina

FREDERICO MORIARTYFresa y Chocolate é uma coprodução cubana, espanhola e mexicana de 1993. Contou com a direção de Tomás Gutiérrez Alea e Juan Carlos Tabio. A história se passa em Havana logo após o fim da União Soviética. David (Vladimir Cruz) é um militante comunista de carteirinha do PC cubano. Chutado pela namorada, em depressão, ele é direcionado pelo governo de Fidel Castro para morar num apartamento ocupado por Diego (interpretado por Jorge Perugorria).

Capa do DVD brasileiro de “Morando e Chocolate” (Fotos de Arquivo)

Tudo complica nesse instante, pois o anfitrião é homossexual. David é o macho-alfa, um comunista que vê na orientação sexual um “desvio burguês”. Diego sonha com a liberdade e, claro, com os Estados Unidos. Aos poucos, apesar da rejeição de David, os dois criam um laço de afetividade. O bom humor, a criatividade e a energia positiva de Diego conquistam o triste e radical comunista (teórico), David.

A cena em que David ouve Diego conversando com uma mulher na cozinha é hilária. Teria o homossexual se convertido? Não. Era apenas uma velha geladeira soviética que, de tão ruim e arcaica, andava pela cozinha. Exagero? Digo-lhes meus poucos e seletos leitores: Não. Uma querida tia de Sorocaba, certa vez, amarrou um cordão na parte de ferro da geladeira GE dela e desta num parafuso milimetricamente colocado na parede. O motivo: a mesma dava tantos pulos que vivia saindo do lugar.

A Revolução Cubana e o foquismo

Entre 1956 e 1958, cerca de duas centenas de revolucionários cubanos retiraram-se para a Sierra Maestra (no interior da ilha caribenha) e iniciaram as batalhas campais contra o governo do ditador cubano Fulgêncio Batista. Cuba era controlado por mafiosos (muitos deles norte-americanos) que faziam fortunas com prostituição, jogos ilegais e tráfico de drogas.

A tática guerrilheira dos revolucionários era o Foquismo. Ideia e prática do ex-médico argentino Ernesto Che Guevara. O foquismo consistia em trazer as tropas do Estado para combater os rebeldes num território geograficamente árduo e escolhido a dedo pelos insurgentes. Ao mesmo tempo em que acontecia a “guerra de guerrilhas”, os revolucionários faziam a educação comunista.

Conseguir a adesão da população carente do país ao movimento e formar pedagogicamente mentes preparadas para o sonho socialista. Isto porque boa parte deles pertenciam ao Partido Comunista como o jovem Raul Castro e Camilo Cienfuegos. Após várias vitórias e avanços no território cubano, o Movimiento 26 de Julio, então liderado por Fidel Castro, entra na capital Havana na madrugada de 1º de janeiro de 1959.

Na mesma noite o ditador Fulgêncio Batista foge, assim como cerca de 2 mil cubanos e empresários norte-americanos. Os poucos soldados leais ao governo rapidamente desertam. Estourava a mais importante revolução latino-americana da História: a Revolução Cubana de 1959.

Somos socialistas

Nacionalista no princípio, a Revolução de 1959 iniciou uma estatização de várias empresas norte-americanas no segundo ano do movimento. Além disso, uma ampla reforma agrária aconteceu no país. Os Estados Unidos de J.F. Kennedy patrocinaram a fracassada tentativa de invasão da baía dos Porcos. Fidel e Che Guevara derrotaram os contra-revolucionários cubanos.

A Ilha pendia cada vez mais para o lado socialista. Em 1961, após satélites norte-americanos detectarem a possível instalação de mísseis soviéticos em Cuba, o mundo esteve muito próximo da 3ª Guerra Mundial entre EUA e URSS, na chamada Crise dos Mísseis. O relógio do fim do mundo chegou o mais próximo da meia-noite em quase 40 anos de existência. A questão geopolítica tornou-se inevitável: Fidel alinha-se à União Soviética e a Revolução Cubana passa a ser “comunista”.

Apesar desta cena pertencer a um filme, o relógio do Apocalipse realmente existiu. O Ministério da Defesa dos Estados Unidos e alguns órgãos de imprensa acreditavam nele. Na Crise dos Mísseis, ele chegou às 23h59m45s, o mais próximo em toda a História da Meia-Noite, a hora do Juízo Final.

Sovietização da Ilha

O alinhamento à URSS trouxe os planos quinquenais e a transferência de capitais do país europeu para a ilha preferida de Ernest Hemingway. Além, é claro, de engenheiros, técnicos, médicos e professores que nos primeiros anos ajudaram um país com 80% de população analfabeta (em 1958) a se transformar no de maior número de médicos por habitante de toda a América (em 1990).

Cuba obteve grandes vitórias no campo social, com um sistema de saúde e educação de caráter universal, gratuito e de boa qualidade. Possuía indicadores sociais de “primeiro mundo”. Pleno emprego e democracia social. Entretanto havia a crítica ao atraso econômico. Os carros dos anos 40 (e as geladeiras que andam). Como se o resto da América Latina tivesse atingido o paraíso. Mas o grande problema sempre foram as liberdades individuais. Cuba nunca foi uma “democracia ocidental”. Entendida como a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, a alternância no poder e o pluripartidarismo.

Tempos de abertura

Com o fim do socialismo no leste europeu, em 1989, e da União Soviética, dois anos depois, a fonte de recursos externos secou. Fidel Castro foi obrigado a abrir a Ilha. Uma das revelações da abertura do início dos anos 90 era de que não se permitia o homossexualismo em Cuba. Muitos homossexuais eram internados em hospício. Não era só uma questão de economia, havia a discussão de gênero. E Fidel e a Revolução tiveram de mudar em nome da sobrevivência. Pouco a pouco o país passou a respeitar a diversidade sexual.  

Diego e David e os novos tempos

Mas como abrir a economia se, desde 1960, antes mesmo da adesão do país ao comunismo, os Estados Unidos decretaram o boicote comercial, financeiro e sanitário a Cuba? Qual país resistiria tanto tempo isolado do mundo? O embargo estadunidense permaneceu entre 1960 e 2016, quando o presidente norte-americano Barack Obama iniciou um relaxamento das tensões entre os dois países. Porém, a distensão durou apenas 3 meses, pois em fevereiro de 2017 o novo presidente dos EUA, Donald Trump, cancelou os acordos do seu antecessor. Cuba voltara a ser apenas uma Ilha.    

Doce amargo da tua boca

Fresa y Chocolate é uma alegoria do regime cubano em transformação. Mais do que isso, uma alegoria de nossa humanidade. Para vivermos com o outro é necessário deixarmos de ser nós mesmos.  É preciso olhar e amar ao outro como nos olhamos. Uma confusão imprecisa sempre, pois somos únicos, cada um com sua identidade, somos opostos.

E nada mais delicioso e apaixonante do que a contradição. Morango é azedo, chega a arder na nossa língua. Chocolate é doce e certamente o néctar dos deuses. Ao misturarmos esses dois elementos, um natural outro artificial,  um amargo outro tomado de mel, temos uma iguaria divina. Divina por ser oposta, divina por ser inesperada, divina por ser o encontro das diferenças, a harmonização do contraponto.

Num mundo de escuridão, de preconceitos, de racismos, machismos, homofóbico, a sétima arte nos liberta. O cinema purifica nossa alma de tanta maldade que nos cerca. Nos civiliza. E nos restaura.

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