Na galeria dos fortões e bons de garfo das HQs, reina o marinheiro Popeye que, em 2019, faz 90 anos em grande forma

MARCO MERGUIZZO – “A Imprensa tem que entender que eu, Johnny Bravo, ganhei”. Foi assim, com a habitual e indefectível diatribes, que o atual mandatário do país disparou um vez mais sua metralhadora verbal contra os jornalistas presentes na inauguração da Usina Solar, no município baiano de Sobradinho, neste início da semana.

Comparação irrefletida, quase involuntária, coisa peculiar ao Presidente, a autoimagem com contornos de autoelogio sem pudores (na verdade, uma caricatura de si mesmo) ocorreu no momento em que o Capitão Johnny Bolsonaro Bravo respondia a uma pergunta sobre a indicação de um de seus filhos ao cargo de embaixador do Brasil em Washington, capital americana onde fica a residência oficial do amigão Trump.

Resultado: a risível ilação presidencial projetada em um personagem fictício de desenho animado – um sujeito loiro e fortão totalmente desconhecido da maioria dos brasileiros -, repercutiu como um tsunami na imprensa, acarretando uma avalanche de memes e tornando o assunto no mais comentado das redes sociais. Logo no dia seguinte, na terça-feira (6), o capitão voltaria às manchetes ao direcionar suas baterias contra dois alvos principais: a Imprensa, o inimigo de sempre, e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o insuspeito Inpe, o oponente da vez.

O objetivo claro era desqualificar os relatórios que aferem o preocupante e incontido desmatamento da região amazônica, em velocidade alucinante durante os sete primeiros meses do seu governo, o que culminou com a exoneração do físico Ricardo Galvão, cientista respeitadíssimo dentro e fora do país, defenestrado dias antes da presidência da entidade. “Sou o capitão motosserra”, bravateou de modo constrangedor, desviando o foco de sua criminosa política ambiental e, de quebra, criando para si outro anti-herói para o seu currículo e extenso anedotário político pessoal.

Criado nos final dos anos 90, Johnny Bravo, o protagonista do seriado da Hanna-Barbera que ganhou os holofotes por “inspirar” o atual ocupante do Planalto é, de acordo com um breve spoiler da Wikipedia, “um homem louro, musculoso, egocêntrico e mulherengo, que costuma ser rejeitado pelas garotas por seus modos desagradáveis ao tentar conquistá-las”. No auge da série, portanto, há cerca de duas décadas, os fãs do personagem se divertiam com as presepadas amorosas de Johnny.

Mimado pela mãe, também era um sujeito vaidoso e narcisista. “Agindo mais com a emoção e menos com a razão, suas atitudes lembram uma criança de 10 anos, que não percebe coisas óbvias, embora esteja sempre querendo se mostrar esperto”, registra o “pai dos burros digital”. Embora tenha divertido uma geração hoje na casa dos 30 anos – coincidentemente a mesma faixa etária dos três filhos do presidente -, Johnny jamais foi alguém para se espelhar. Logo…

Johnny Bravo: acredite, ele virou presidente do Brasil
Fotos, gifts e vídeos deste post: Arquivo, Media Tenor e Youtube

Quem cresceu no final dos anos 90, comecinho dos anos 2000, provavelmente se lembra de Johnny Bravo. As trapalhadas do protagonista marcaram o imaginário popular: um rapaz loiro, alto, forte, extremamente narcisista, ególatra e mulherengo, mesmo sendo sempre rejeitado das piores maneiras possíveis pelas mulheres com quem flertava, graças, principalmente, à maneira inapropriada que agia. Johnny mora com a mãe, Bunny, que o trata como se fosse um garoto de 8 anos de idade, disposta sempre a protegê-lo. Frequenta todos os dias um o Palácio Lunar do Pops, seu restaurante predileto. Lá, quase sempre, devora um prato de chilly apimentado mas dificilmente paga a refeição, já que se considera um grande amigo de Pops, o dono do lugar. Bocas-livres e outras mamatas costumam ser, enfim, um dos pontos questionáveis da personalidade de Johnny Bravo. Ou seria melhor chamá-lo de Johnny Fraco?

UM MARUJO BOA PRAÇA E BOM DE GARFO

Mas, em se tratando de fortões de verdade que povoam o imaginário de várias gerações de brasileiros, certamente o marinheiro Popeye, que em 2019 comemora em plena forma o seu nonagésimo aniversário, põe Johnny Bravo no bolso em se tratando de carisma, prestígio, longevidade e simbolismo. Por causa de sua superforça, Popeye é descrito como um pioneiro entre os super-heróis que dominariam o mercado americano de quadrinhos.

Sem contar que o companheiro inseparável de Olivia Palito era um comilão de quatro costados. O mais famoso devorador de espinafre dos jornais, telas e telonas, Popeye divulgou e resgatou por décadas não só o consumo dessa desprestigiada hortaliça rica em ferro, responsável por turbinar sua força sobre-humana, mas incentivou a adoção de hábitos alimentares saudáveis por parte dos nossos pais e avós e uma legião de marmanjos e crianças pelo mundo. Ou seja: sob esse ponto de vista, o bom e velho marujo poderia ser considerado uma espécie de precursor dos nutricional influencers dos dias atuais.

Há que se descontar, claro, o hábito do personagem em fumar cachimbo (no caso do personagem é feito de sabugo de milho. Por causa disso, Popeye só fala com um dos cantos da boca), hoje um objeto quase em extinção e, consequentemente, o tabagismo explícito do marinheiro nonagenário, compreensível e aceito no passado mas que nos dias atuais, sabe-se, é extremamente prejudicial à saúde, além de ser considerado social e politicamente incorretos.

Rascunhado em 1929 pelo ilustrador norte-americano Elzie Crisler Segar para estampar as tirinhas do jornal Thimble Theatre, o simpático marinheiro brilhou não só em gibis, onde estreou, mas também em desenhos animados para a TV e o cinema (em preto e branco e em cores), em várias películas lançadas ao longo do tempo.

Não por acaso Popeye é daqueles personagens icônicos que se encaixa tanto na galeria dos protagonistas highlanders da chamada cultura pop, como na dos bons de garfo das histórias em quadrinhos de todos os tempos (confira, no final, a galeria de comilões famosos das HQs).

UM HIGHLANDER PRECURSOR DOS SUPER-HERÓIS DOS GIBIS

O amor pela figura frágil e bulímica de Olívia Palito (originalmente, em inglês, Olive Oyl) é outro traço marcante do marinheiro que está sempre tentando proteger sua namorada das garras do seu eterno inimigo: Bluto, ou Brutus, nome em português com o qual ficou conhecido no Brasil. Quando come espinafre, Popeye fica muito mais forte e confiante, podendo vencer qualquer desafio e inimigo – te cuida, Johnny Bravo!

Diferentemente do que muita gente supõe, o velho marujo não é um ancião. Castigado pela dura lida no mar, seu rosto enrugado o faz parecer bem mais velho. Em um curta-metragem de 1953, chamado Popeye, the Ace of Space, sua idade seira revelada pela primeira vez: 40 anos. Em Popeye o Filme, de 1980, que traz o fantástico ator Robin Williams (1951-2014) no papel principal (assista ao trailer no final do post), ele ostenta cerca de 30 anos. Oficialmente, o site popeye.com, soluciona tal dilema: Popeye tem 34 anos, Olívia, 29 e Brutus, 36.

Apesar de ostentar a idade de um adulto na sua maturidade (o site oficial popeye.com, informa que Popeye tem 34 anos, Olívia, 29 e Brutus, 36), outras marcas registradas do marinheiro são o tórax musculoso, o queijo protuberante partido ao meio, a calva e o rosto enrugado de um sessentão, além das duas âncoras tatuadas nos braços e um dos olhos permanentemente fechado.

Em suas primeiras aparições, o velho marujo não era careca. Embora modesto, possuía um topete despenteado em baixo do quepe de marinheiro. Com os anos e as mudanças no design do personagem ocorridas ao longo do tempo, os parcos fios foram escasseando reduzindo-se até os atuais três, dois fios de hoje. Coisas da vida.

Mas se suas características físicas e psicológicas permaneceram praticamente imutáveis ao longo de quase um século, o mesmo não se poder afirmar em relação à farda de marinheiro. Nos seus inícios, no decorrer dos anos 30, o uniforme era escuro. Já a partir da década posterior mudaria para a cor definitiva – o branco -, cor oficial da Marinha norte-americana, permanecendo assim até os dias de hoje.

Dudu, Wimpy, no original em inglês, ou ainda Pimpão, como também é conhecido, é o melhor amigo de Popeye. Apaixonado por hambúrguer, o personagem, um sujeito boa-praça mas tanto indolente e espertalhão, gosta tanto desta invenção culinária consagrada pelo fast-food, que acabou batizando milhares de restaurantes mundo afora, incluindo uma famosa rede de lanchonetes no Reino Unido.

CONFRARIA DOS BONS DE GARFO DAS HQS

Confira, abaixo, outros comilões das tirinhas de jornal e dos desenhos animados da TV e do cinema

BOLOTA

Numa época, já remota, em que a obesidade infantil não era considerada epidemia como hoje, a garotinha Bolota – Little Lotta, no original em inglês -, da Harvey Comics, circulou nos jornais entre 1953 e 72 (esporadicamente até 1982). Por muitos anos teve no Brasil uma revista própria editada pela Editora Abril, na qual havia a seção de cartas intitulada Papo da Hora do Lanche. Dotada de força incomum e apetite insaciável, a simpática gorduchinha sempre fugia dos regimes impostos pelo pai, cuja missão – inglória – era fazê-la emagrecer.

GARFIELD

Gorducho e preguiçoso, o sempre atilado bichano criado no final dos anos 70 pelo americano Jim Davis não poderia faltar nesta e em nenhuma lista de comilões que se preze. Dono de um apetite insaciável, não resiste a uma boa lasanha, de longe seu prato predileto, rendendo sempre ótimas piadas e colocando o seu dono, o atrapalhado Jon, em situações delicadas e engraçadas. Garfield tem uma enorme fixação por comida, o que o faz “dialogar” com o seu prato de ração, que representa sua própria consciência.

HAGAR

A figura do guerreiro viking foi engendrada em 1973 pelos manos americanos Dik Browne e Chris Browne. O personagem tenta invadir a Inglaterra e outros países. Embora respeitado profissionalmente (um dos maiores saqueadores e assassinos da Escandinávia), Hagar leva uma vida pessoal frustrada. Está sempre discutindo com a esposa Helga, que não está satisfeita com o padrão de vida que a família leva. Hagar é tanto um guerreiro feroz quanto um homem de família. Sua higiene pessoal é excepcionalmente deficiente, e seu banho anual é um momento de celebrações. Ele adora devorar um grande naco de carne e beber cerveja. As tiras são publicadas em 13 idiomas diferentes, em 58 países num total de mais de mil e seiscentos jornais.

HOMER SIMPSON

Personagem principal da série animada de TV criado no final dos anos 80 pelo desenhista Matt Groening – os Simpsons -, bastante popular e conhecida, Homer é o patriarca de uma típica família de classe média norte-americana. Como todo chefe de família gringo, taoquei?, ele trabalha para sustentar a casa, limitando-se basicamente a assistir partidas de beisebol pela televisão e ir ao bar com os amigos para beber cerveja. Sem qualquer refinamento à mesa, ele não hesita em devorar salgadinhos, hambúrgueres, donuts, refrigerantes e todo tipo de trash food, numa série de desvios alimentares. Ou sejs, pertence àquela categoria dos comilões sedentários e candidatos a um infarte.

MAGALI

Veiculada pela primeira vez há exatos 56 anos como tirinha no jornal Folha de S. Paulo, onde estreou, a personagem é uma das estrelas coadjuvantes da Turma da Mônica, idealizada pelo cartunista brasileiro Mauricio de Sousa. Assim como a amiga protagonista, Magali foi inspirada em uma das filhas de seu criador, uma declarada comilona apesar de magérrima. Meiga, delicada e detentora de um apetite absolutamente incontrolável, a garotinha é fã número um de melancia, porém, como todo bom de garfo, devora qualquer tipo de comida que apareça à sua frente. Desde 1989, Magali tem a sua própria revista em quadrinhos, onde aparecem também histórias de seu gato de estimação, o Mingau.

SARGENTO TAINHA

Sgt. Orville Snorkel, o seu nome original em inglês, é o sargento brutamontes e glutão criado na década de 1950 pelo americano Mort Walker. Simpático e durão, o militar gorducho tem como companhia constante o engraçado cãozinho Otto. Fora do quartel, quando sai de licença com o Recruta Zero e Quindim, seus subordinados de farda e companheiros de farra, de quem por sinal vive pegando no pé, ele adora comer e não dispensa uma boa cervejota.

SCOOBY-DOO E SALSICHA

Embora tenha surgido como desenho animado para uma série de televisão nos anos 70, esta dupla famosa dos estúdios da Hanna-Barbera, conhecida pelas confusões e gulodice insaciável, atravessou o tempo ampliando sua legião de fãs nas telonas do cinema e nos gibis. Entre uma aventura e outra, o atrapalhado dog dinamarquês e o companheiro magricela de voz esganiçada de todas as horas, o atrapalhado Salsicha, aproveitam sempre para fazer uma boquinha, priorizando o estômago.

OBELIX

Personagem criado em 1959 pelos craques franceses Albert Uderzo e René Goscinny, Obelix é o melhor amigo da turma do protagonista Asterix, que dá batiza este clássico da HQ. Ambos são guerreiros de uma aldeia gaulesa que resiste bravamente ao domínio do Império Romano, derrotando-o toda vez que os legionários tentam invadi-la. Obelix é um comilão desde que era bebê, já que caiu em um caldeirão de poção mágica do druida Panoramix, de onde provém sua força descomunal. Embora coma de tudo – e muito -, são os javalis selvagens o prato predileto deste personagem impagável.

MÃO NA MASSA
QUICHE DE ESPINAFRE E ALHO-PORÓ

INGREDIENTES

1 1/2 xícara (chá) de grão-de-bico cozido. 2 colheres (sopa) de azeite de oliva extravirgem. 2 colheres (chá) de sal marinho ou flor-de-sal. 2 ovos. 3 ovos em clara. 1 xícara (chá) de espinafre picado. 1 xícara (chá) de alho-poró picado. 1 unidade e cebola cortada em rodelas. 2 colheres (sopa) de açúcar mascavo. Pimenta-do-reino moída a gosto.

PREPARO

1) Deixe 1 xícara e 1/2 de chá de grão-de-bico de molho da noite para o dia e então cozinhe na panela de pressão por aproximadamente 30 minutos, a pele que envolve o grão de bico irá soltando aos poucos e deverá ser retirada. 2) Em um processador, bata o grão-de-bico, as duas colheres de azeite de oliva extra virgem, uma colher de chá de flor-de-sal ou de sal marinho e espalhe na forma. 3) Em um bowl, misture os dois ovos, as três claras, uma xícara de espinafre picado, uma xícara de alho-poró picado, uma cebola cortada em rodelas, uma colher de flor-de-sal, duas colheres de açúcar mascavo, pimenta-do-reino moída e espalhe sobre a massa que já está na forma. 4) Leve ao forno pré-aquecido a 200°C por 30 minutos e sirva.

POPEYE PARA VER E SE DIVERTIR (VÍDEOS)
MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste coletivo 
toda quinta-feira. 
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