Praxes de Bolsonaro são mais velhas que o Brasil

GERALDO BONADIO – Algumas pessoas a quem respeito acreditam que Bolsonaro representa o novo na política brasileira. Isso me entristece. Ele, na verdade, encarna algo bem mais velho que o Brasil: o patrimonialismo que, no início do segundo milênio, presidiu a formação do Estado português.

Sem descer a detalhes, o chefe, no Estado patrimonialista, exerce mando “como se todas as pessoas e bens integrassem o seu patrimônio particular”, na síntese de Raymundo Faoro.

O Brasil nasceu e ainda vive sob o patrimonialismo. A atribuição a alguém de um cargo público só por exceção se faz com base nas qualificações técnicas e morais do escolhido. Habitualmente resulta de uma escolha voluntarista do governante e traz, embutido, um pacto: aquele que tudo pode lhe concede esta prebenda sob a condição de que você sempre faça o que ele determinar, sem discordância e a retirará de você se pressentir alguma relutância em obedecer.

O Brasil, em 1988, através de uma Assembleia Nacional Constituinte, escolheu ser um Estado Democrático de Direito. Como a Constituição não é um livro mágico, a cabeça da maior parte dos governantes em nada mudou. Para chegar àquele objetivo as instituições democráticas enfrentarão turbulências, batendo de frente com a negativa dos que governam de exercitar o mando dentro de padrões gerais, inflexíveis e transparentes. Sempre que não encontrarem resistência, usarão o poder como um dom divino, que podem empregar como lhes der na telha.

A crise política de que Sorocaba forceja para sair nasceu de um insustentável ato de mandonismo. A tempestade perfeita em que o Messias vai enfiando o Brasil tem a mesma velhíssima raiz.

Quem achou justo o afastamento do prefeito, só traindo a própria razão pode admitir que o presidente coloque nossa mais estratégica embaixada nas mãos inaptas de alguém cuja única qualificação é a de ser seu filho.

Só não veem esses e outros desmandos do “mito” aqueles que cegaram a si mesmos.

Cerimônia de beija-mão na Corte de D.João VI, Brasil, século XIX, do artista e militar inglês conhecido apenas pelas iniciais A.P.D.G, BN

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