A floresta vem avisar

PEDRO HENRIQUE NEGRÃO (FOTO) (POVO KARIRI XOCÓ) / VANESSA MARCONATO NEGRÃO (TEXTO) – “O homem da cidade também vai morrer. Vai começar a sofrer, a brigar, a matar parente. Vai querer comprar floresta, vir com trator para cá e a destruição vai engolir todo mundo. Não é só o índio que vai morrer”.

Quem diz essa frase é Davi Kopenawa , a maior liderança indígena brasileira. Respeitado mundialmente já foi premiado pela ONU e conseguiu para seu povo Yanomami, um território de extensão maior que todo o país de Portugal. Davi Kopenawa, anuncia que o céu pode cair há muito tempo. Ao contrário de nós que assistimos temerosos e surpresos o dia virar noite, Davi vinha alertando a iminência da tragédia.

Estive com ele em março desse ano, e ouvi num quase transe de consciência seu alerta. É difícil não se sentir culpada ao testemunhar sua fala e é impossível ficar indiferente a ela. De forma simples e direta: “Não tem outro planeta. O povo da terra também é um só, nós e vocês. Então precisa sentar para trocar ideia. É preciso pensar no futuro, sobre como usar nosso planeta e nosso país que é tão rico e bonito e tem água limpa”

Ailton Krenak, indígena do Vale do Rio Doce, que discursou e se pintou de jenipapo na Assembléia Constituinte em 1987, arremata seu manifesto ‘Ideias para adiar o fim do mundo’ da seguinte forma: ” Quando despersonalizamos o rio. a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista. Do nosso divórcio das integrações e interações com a nossa mãe, a Terra, resulta que ela está nos deixando orfãos, não só aos que em diferente graduação são chamados de índios, indígenas ou povos indígenas, mas a todos.”

A primeira frase de ‘A queda do céu’ exige um outro nível de atenção, e deve permanecer suspensa até sua completa digestão : “Faz muito tempo, você veio viver entre nós e falava como um fantasma”. Terminando no pedido par disseminar sua pele de papel: “Entreguei a você minhas palavras e lhe pedi para levá-las longe, para serem conhecidas pelos brancos, que não sabem nada sobre nós”. Que as palavras e as imagens dos povos da floresta voem, mais densas que a fumaça que nos cobre o horizonte.

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