O Brasil é o país do futuro. Sem Amazônia, sem vida, qual futuro?

FREDERICO MORIARTY (Pipocando La Pelota) – Jean Baptiste Colbert foi o chefe das finanças francesas no final do século XVII. Depois, tomou conta do Serviço Comercial da terra de Balzac. Vem dele a ideia de saldos favoráveis de balança: exportar é o que importa, diria Delfim Netto.

O Mercantilismo francês – no período do ministro de Luís XIV -, praticava o protecionismo e ia muito além disso: investia no capital e no desenvolvimento nacional. Colbert reformou portos, construiu outros, terminou 256 navios pra rivalizar com o poderio naval inglês, incentivou as artes (o Observatório francês foi obra dele), a ciência e a arquitetura (a Academia de Arquitetura também nasceu na administração Colbert).

Queria equilibrar as finanças e alavancar a França à hegemonia mundial. Não era inocente: fazia a “indústria” francesa copiar os produtos importados para reduzir a dependência externa.

Em 1670, mandou plantar uma floresta de carvalhos em Allier. A floresta de Tronçais ocupava uma área de 11.000 hectares de árvores racionalmente organizadas, quase 400 anos antes da ideia de desenvolvimento sustentável. Hoje, a área da floresta gaulesa chega a impressionantes 11.000 quilômetros quadrados.

O sistema era simples: Tronçais foi dividida em exatas 100 glebas de terra idênticas. A cada ano, os funcionários do rei plantavam mudas de carvalho em 1 lote. Sempre numa sequência. Ano 1 – Lote 1. Ano 2 – Lote 2. Ano 3 – Lote 3 e assim sucessivamente até o ano de 1770, quando terminaram as 100 glebas.

Os 100 lotes eram cortados diagonalmente pois dois grandes veios de rio artificiais, garantindo o abastecimento eterno de água para as árvores e a todo o habitat natural que se desenvolveria no entorno. Por que 100 anos? Porque é o tempo necessário para o crescimento do tronco no ponto do corte perfeito.

Colbert fez isso, prevendo que os carvalhos seriam utilizados um século depois para dotar a frota naval francesa dos melhores e mais resistentes mastros. O genial economista francês possuía projetos de longuíssimo prazo para o país. Sustentáveis. Só não previu o aparecimento do navio a vapor e depois o aço, que botariam o carvalho no limbo da indústria naval.

A partir de 1771, os franceses passaram a cortar uma gleba inteira anualmente. Assim no ano 101 eles cortavam a gleba 1. No ano 102, a gleba 2 foi cortada e reflorestou-se a gleba 1. O ano 103, cortou-se o lote 3 e novas mudas de Carvalho foram plantadas no de número 2. Sucessivamente até o ano 201 (houve uma paradinha no ano 22 quando cortaram também a cabeça do Luís XVI), de tal forma que sempre teríamos um lote cortado e um replantado, garantindo a devastação de apenas 1% ano a ano.

Fosse em terras de Agro é fogo, ops, “Agro é pop”, Tronçais teria virado lenha há muitas décadas. Teríamos soja, cana de açúcar, café e pele de onça pra dar e vender. Mas por ser em França, a floresta esta lá até hoje, produzindo e enriquecendo o país deles e sem devastação nem discursos rastaqueras.

Mastros? Os franceses nunca o fizeram, mas o forte e centenário carvalho (a árvore pode viver até 600 anos) é o mais sagrado e saboroso meio de se armazenar os mais finos vinhos franceses. E os vinhos americanos, afinal as vinícolas da terra de Trump são responsáveis pela importação de 40% dos troncos fortes, resistentes a todas as intempéries, os quais deixam um suave e inconfundível aroma amadeirado na mais adorada das bebidas alcoólicas, o vinho.

Cada 5m cúbicos de carvalho bruto rendem 1m cúbico de tábuas e estas fazem 10 barris de 800 euros cada. Lucro anual da floresta? 100 milhões de euros.

( triste foto da Amazônia em Chamas é  de Araquem Alcântara)

E fico aqui, encasquetando com um Chardonnay qualquer, se algum ministro da área econômica, algum defensor da soja ou algum crítico da natureza leu Colbert nalguma revista usada de 1900 e bolinha, num consultório médico por este país afora.

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