Memórias de um carioca de coração

Rubens Nogueira

Aconteceu há muito tempo uma parte da história que vou contar. O rapaz vivia encantado com tudo ao seu redor: a terra, o mar, o ar. Sentado na mureta de pedra da praia do Flamengo, olhava o horizonte: Nictheroy, a praia de Icaraí, os morros, as montanhas. Aspirava o ar puro, marinho, salgado e fresco. Baixava os olhos e via sob seus pés as pedras cobertas de verde limo e cravejadas de mexilhões. Ficava horas por ali. De tempos em tempos um jorro d’água mais forte saía dos tubulões que aprisionavam o Rio Carioca. Eram descargas dos edifícios da rua Paissandu e de outros edifícios da região. O Rio Carioca nasce nas encostas de um morro no Cosme Velho, no bairro de mesmo nome. Na rua Cosme Velho, lá pelo nº 800, há uma ponte que liga o asfalto ao beco do Boticário. ”Esse é o único trecho do rio que se encontra em sua feição original, pois que, a partir daí, até a Praia do Flamengo, foi ele canalizado e coberto pelas obras de reurbanização do bairro de Laranjeiras, ao tempo do prefeito Pereira Passos.” (*) Naquele tempo o rapaz não sabia nada disso. Mas conhecia a história da cidade, habitada pelos índios tamoios. Portanto, em priscas eras, meninos e meninas, nos seus caiaques, certamente velejavam pelas águas do Rio Carioca: pelo lazer e pela pesca de curimbatás, bagres, lambaris.

Aqui por perto, o rapaz, olhando um carro passar, leu a marca e pronunciou alto: “olha, um Peugeot”, logo corrigido pelo professor Cleantho: pronuncia-se “Pejô”. Vexame? Mais ou menos. Muitos anos antes, com oito ou nove anos, aquele mesmo rapaz “lera” a marca do caminhão, que ia rangendo sob o peso da carga, em frente da carroça do padrinho dele: “Vovô”! Era “Volvo”. Mas é assim mesmo – “sem leitura não há cultura”.

O rapaz continua o mesmo. E escreve do sexto andar do Edifício Carioca, esquina da rua Paissandu com a Senador Correia. Da janela vê o Corcovado e a imagem do Cristo Redentor. É uma visão muito linda, encorajadora, que suscita pensamentos de fé, esperança e amor. São as voltas da vida: “l’eternel retour”. O rapaz, agora encanecido, dolorido, sofrido, mas sempre agradecido, ora em direção à estátua do Salvador e, quando desvia o olhar para a direita, dá com os fundos do edifício da rua São Salvador, 99. Ali mesmo, onde, entre 1953 e 1964, viveu, amou, conheceu muitas alegrias, sofreu horrores, foi feliz, comeu o pão que o diabo amassou, ali, onde os cinco filhos foram gerados – um, Deus requisitou aos trinta dias de vida, mas as três meninas e o menino temporão estão por aí, entre “Oropa, França e Bahia”, todos sãos de corpo e alma, carregando o fado de viver e produzindo: arte, cultura, filhos, filhas, netos, e fazendo do rapaz um orgulhoso bisavô, olé!

“Com seus cavalinhos coloridos, os espelhos, a música nostálgica, gira, gira, mas não sai do lugar. Nós é que, estonteados com a velocidade cada vez maior, vemos a multidão em torno, fixamos alguns rostos. Estão por ali durante algumas voltas, de repente não estão mais. É a vida. São os momentos.”

Tens a sensação de que já leste ou ouviste? Claro que sim. O carrossel do filme “Les Enfants du Paradis”, a música “La Ronde”, de Jacques Prévert, ou era o “Boulevard do Crime”? Com seus cavalinhos coloridos, os espelhos, a música nostálgica, gira, gira, mas não sai do lugar. Nós é que, estonteados com a velocidade cada vez maior, vemos a multidão em torno, fixamos alguns rostos. Estão por ali durante algumas voltas, de repente não estão mais. É a vida. São os momentos. “Uma geração vai (…) e nasce e põe-se o Sol…” Morrer é não ser mais visto, lembra Fernando Pessoa.

O tempo passou, na janela, na rua, no país, mas o Rio Carioca ainda nasce ao lado da entrada dos túneis que aproximam Laranjeiras, Cosme Velho, Lagoa Rodrigo de Freitas, a Zona Sul do Rio azul, de sol, de sal, de tanto calor, de tanto amor. E o velho rapaz ou rapaz velho sai a andar na clara manhã de vinte de janeiro, sábado, verão. Caminha pela rua Paissandu até a Marquês de Abrantes e não mais cruza com Alceu Amoroso Lima no seu terno de linho branco – homem alto, tez clara, óculos de grau, passos firmes, olhar perdido, não parece se dar conta da beleza em torno, das altas e bem cuidadas palmeiras imperiais. Tudo bem, vamos embicar pela Travessa dos Tamoios. Eles só deixaram o nome do logradouro – há muito suas andanças para caçar e guerrear contra os “cariocas” ficaram na História da cidade. Mas a Universidade Metodista está aqui. Não tinha esse nome. Era apenas o Colégio Bennett – uma casa de ensino modelar, a qual preparava gente do pré-primário às portas das Universidades. Nas suas salas, às sextas-feiras, o rapaz participava das reuniões da ACA – Associação Cristã de Acadêmicos. Quantas coisas boas ali aprendeu! Naquele ambiente culto, conheceu algumas personalidades: o pastor francês Charles Boegneur, titular de L’église du Passy, em Paris, o missionário norte americano John-Mckay, o qual no final da vida foi reitor do Seminário de Princeton, onde se doutorou em teologia, o catarinense nascido em Curitibanos, Waldyr Carvalho Luz, conhecido do rapaz e amigo querido do idoso. Em certa época se apaixonaram, ele e o rapaz, por duas irmãs, lindas de morrer.

O rapaz, no corpo do velho, desce agora a rua Senador Vergueiro. Chega à porta da Igreja da Santíssima Trindade. Não resiste e, como um cão, vendo a porta aberta, adentra o templo. Instintivamente eleva o pensamento a Deus. À mente lhe vêm imagens de um passado longínquo: era também um sábado, quem sabe na mesma hora, em que foi padrinho de casamento de José Lino Gesser, outro catarinense muito inteligente – o qual chegou a presidente de uma empresa multinacional. Por onde andará? Observa as paredes brancas do templo. Estátuas de santos – oito de cada lado. São os únicos enfeites. E os vitrais, naturalmente. Olha mais atentamente. Do lado direito distingue São Pedro e Santa Luzia. O santo tem a mão direita sobre o peito. Na mão aperta uma grande chave. Na mente do velho rapaz brilha o título de um romance e de um filme – “The Keys of the Kingdom”. Já a mão esquerda sustenta uma rede de pescar. Duas cabeças de peixe varam as malhas da rede. Adiante, Santa Luzia tem os braços presos às costas, por fortes correntes. Por quê? Qual a história dessa figura do hagiológio católico que tem o condão milagroso de dar visão aos cegos? Oh, Santinha! Cuida de meus olhos diabéticos, viu?

Igreja da Santíssima Trindade, Botafogo

No lado esquerdo, Santo Agostinho. Tenho grande admiração por esse personagem. Aqui, na estante, o livro das Confissões. Ainda não me dispus a ler, mas conheço a anedota, que o rev. José Borges dos Santos Junior contou na Catedral Presbiteriana: o santo, já com idade, deu de cara com uma antiga amante: Ela: “Sou eu, Agostinho, não se lembra?” E ele: “Claro que me lembro … Mas não sou mais o Agostinho que você conheceu!”

Não resisti e aproximei-me da imagem. Com a cabeça inclinada, empunha um instrumento de escrever – provavelmente pena de ganso – que está a caminho de pousar sobre um pergaminho que segura com a mão esquerda. Nas laterais da base do monumento, palavras em latim: Guardei: “(…) Doctrina Christiana (…)”.

Saio para o mundo que se agita nas calçadas emocionado e de coração leve. E logo avisto um homem jovem, negro, em andrajos, agitando uma latinha, onde tilintam moedas. Não hesito: deposito umas poucas moedas e faço um carinho em sua cabeça. O rapaz é cego. “A fé, sem obras…” Sem querer, querendo, acesso a rua Cruz Lima. Bem em frente à travessa, com nome de rua Senador Euzébio, a entrada algo majestosa do Argentina Hotel. Porta de vidro que se abre à minha aproximação. Na recepção solicito um cartão e pergunto ao jovem: “Você sabe quem é o dono do hotel?” “Sei não, sou novo aqui.” “Você já ouviu falar no ‘seu’ Emílio?” “Já, mas não é do meu tempo”… E afastou-se para atender alguém. Emílio Lourenço de Souza. Personalidade marcante. Bom tino comercial. Tinha outros negócios. Rotariano histórico. Líder empresarial. Comandou anos a fio campanhas de arrecadação de fundos para construção da sede da Associação Cristã de Moços, na rua da Lapa. Presbiteriano convicto, quer dizer cristão fiel, presbítero da Igreja de Copacabana, era concunhado do professor Benjamin Morais Filho, pastor daquela Igreja por muitos anos. A propósito, em janeiro faleceu o rev. Nehemias Marien; recém-formado, foi auxiliar do rev. Benjamin. Depois, criou asas e fundou sua própria Igreja, muito liberal para os herdeiros de João Calvino. Neste hotel hospedou-se uma amiga e professora: Haydée Marçal, irmã de Elin Marçal, o grande amor do doutor Waldyr. Fui com Haydée ao teatro Copacabana ver a estreia de Tônia Carrero, fazendo par com Paulo Autran, na peça “Um Deus dormiu lá em casa”, e o autor, Guilherme de Figueiredo, foi meu colega de publicidade, mas a marca de sua vida era ser irmão do presidente da República, João Batista de Oliveira Figueiredo, o último chamado ditador da revolução de 1964, aquele que peitava Chico Buarque para disputar qual dos dois era mais intelectual!!! O homem que dizia preferir o cheiro de cavalo à exalação do suor dos trabalhadores concorreria com suas habilidades matemáticas!!! Aliás, na turma de 1937, da Escola de Cadetes, das Agulhas Negras, Figueiredo; Costa Cavalcanti (Construtor da Itaipu Binacional) e Ney Braga, governador do Paraná, compartilhavam o mesmo alojamento – muito camaradas – mas nas provas do curso de oficiais disputavam arduamente quem era o melhor – Ney Braga apostava em Figueiredo. O brigadeiro Délio Jardim de Mattos, da mesma turma, corria por fora…

Praia do Flamengo

Tão fácil atravessar as pistas do aterro do Flamengo… num feriado. Dá para olhar à esquerda e reconhecer os edifícios grã-finos – o Biarritz por exemplo, onde morou Jorginho Guinle. E, ali na esquina da rua Paissandu, ficava a residência senhorial de Herbert Moses, “o mosquitinho elétrico” da ABI – Associação Brasileira de Imprensa. A ele se devem o edifício e os anos dourados da entidade. E o edifício onde morou o Brigadeiro Eduardo Gomes – “vote no Brigadeiro, é bonito e é solteiro”. No mesmo edifício, depois que enricou, Carlos Lacerda comprou a cobertura, e, para guardar seus livros, construiu, contra posturas municipais, mais um andar – uma favelinha de “gente bem”, ele que depois “transferiu” para a Cidade de Deus, em Jacarepaguá, toda a população das favelas da Catacumba e Babilônia, que existiam no antigo Morro dos Cabritos, “à cote” da Lagoa Rodrigo de Freitas. Tom Jobim, menino, vadeava por ali.

Olho à direita, o Morro da Viúva escondido pelo edifício-sede do Flamengo Futebol Clube. Na avenida Rui Barbosa, no apartamento de Alice Gammon, sua irmã, Billy, me levou para jantar. Era uma quinta-feira. Os jantares das quintas-feiras viraram rotina. Uma inesquecível tradição. Do pequeno edifício, quase na Praia de Botafogo, a família foi para o 20º andar do edifício do Flamengo. O marido de Alice era dirigente do time glorioso. Mais tarde, em outro edifício daquela nobre avenida, o publicitário Carlinhos, marido da Vera, filha de Cícero Leuenroth, reunia ocasionalmente gente boa, famosa, e gente obscura como eu. E era tudo muito gostoso, do papo às bebidas, aos tira-gostos, a presença de jovens que se tornariam famosos – Francis Hime e a namorada Olívia.

Tudo se passa num átimo, enquanto sorvo um gole de água de coco. Não tem jeito: em cada canto da memória geme a saudade de um tempo feliz. Curioso que este parque não homenageie seu criador, Carlos Lacerda. Fiquei pasmo: chama-se Eduardo Gomes o Parque do Flamengo.

Uma realização magnífica. A mureta de cantaria – belo trabalho de entalhe nos blocos de granito – retirados lá de perto do asfalto, foi recolocada no interior do aterro: respeito pelas realizações do passado.

Aeroporto Santos Dumont

Sentando junto a um quiosque, à sombra das amendoeiras em flor, identifico algumas referências urbanas, a partir da ponte Rio-Niterói: o aeroporto Santos Dumont (um grande painel da VASP remete a dias melhores de nossa aviação civil). Meio escondido, o edifício da Mesbla (acabou a loja, ficou a marca) com a biruta no alto do edifício indicando a direção dos ventos, e o relógio art-déco. Em seguida pressinto o Outeiro da Glória, a sede da revista Manchete, bem visível o nome do Hotel Novo Mundo (onde estava guardado o embrulho que levou Carlos Heitor Cony a escrever seu belo livro “Quase memória”).

Bem lá no fundo, a Escola Naval, a Ilha Fiscal (outrora conhecida como Ilha dos Ratos), morros, mar, Nictheroy, Icaraí, morros, penedos, muito verde. Aqui perto, biguás disputam o espaço com os pombos. Os biguás voam em formação na forma de vê e lembram as revoadas da esquadrilha da fumaça. Quem imita quem?

Nas árvores, os pássaros, com seus cantos, pedem atenção. Pombos e mais pombos procuram alimentação nos vastos espaços de grama verde (e não há qualquer aviso de que não se pode pisar…).

Aviões decolam e aterrissam, homens e mulheres colorem e enfeitam a faixa de areia, banhados pelas águas calmas da enseada. À distância passam lotadas embarcações a serviço do turismo. São lanchas, catamarãs, traineiras, escunas, barcos a vela, veleiros.

Saí de casa às 10 horas. São 11h45min. O tempo de uma partida de futebol, intervalo incluído. À esquerda o Flamengo. Em frente o Fluminense. Eram um só time. A separação foi boa para os torcedores. O Fla-Flu encanta multidões. Dentro de mim o Fla (jovem) e o Flu (velho) dão o jogo por terminado, no tempo regulamentar. No jogo da vida não há prorrogação! Caminho sobre os quase 300 metros do deck sobre o Rio Carioca. Semi-escondidos na grama, gatos enormes espreitam uma possível refeição de pássaros distraídos ou de ratos do banhado, passarinhos, quem sabe um pombo…

Atravesso o espaço até a calçada bebendo goles de água de côco. Bebida ideal para uma manhã de sol e de calor escaldante.

E termino com a mensagem de Rubens Pontes no Natal: “Lembro que os deuses reservaram para nós números babilônicos: ou Júpiter nos concedeu muitos verões ou… o último. O tempo foge, sejamos sensatos. Aproveitemos o dia (de hoje) – carpe diem – enquanto aguardamos o próximo verão.” Palavras do poeta Horácio. E digo eu: sempre com Esperança e Fé e com Oração. Amém!

Rio de Janeiro, 20 de janeiro de 2019, Dia de São Sebastião

Nota

(*) Sobre o Rio Carioca, o Rio de Janeiro e os 92 municípios que compõem a terra fluminense leia o livro: “Documenta Histórica dos Municípios do Estado do Rio de Janeiro” – Documenta Histórica Editora.

O autor, O autor!

Ele não é católico. Não é carioca. Não é escritor – verdadeiramente. No entanto, escreve. Profissionalmente, há sessenta e três anos. Como lazer, enquanto viver. Nos primórdios, corrigia erros gráficos, ortográficos e impropriedades gramaticais. Tinha a idade que a fotografia insinua. Na casa dos vinte anos. Mais tarde arriscou-se a escrever pequenos textos em jornais e revistas. Daí, para redigir anúncios, discursos, reportagens, poesias, cartas, palestras, acrósticos e o que mais significasse comunicação foi somente questão de oportunidade. Ler e escrever tem sido a divisa de sua vida. Enfim, um suposto escritor à procura de um editor.

Créditos das fotos

Foto principal do Corcovado
Imagem de Nuno Lopes por Pixabay 

Carrossel
Imagem de rikkerst por Pixabay Carrossel

Igreja da Santíssima Trindade
arqrio.org

Praia do Flamengo
Imagem de Patricia Nort Paty por Pixabay 

Aeroporto Santos Dumont
Mônica Caneco / Creative Commons

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