Elisa Gomes

GERALDO BONADIO – Elisa Cristina Gomes, que Sorocaba perdeu no final de semana, foi uma das mais importantes heroínas quase anônimas da luta pela reconstitucionalização do Brasil e instauração de uma sociedade fundada na dignidade das pessoas, sem preconceitos de espécie alguma, e na igualdade de oportunidades.

Ao Estado Democrático de Direito, como o define a Constituição Cidadã de 1988, não basta que a atividade do governo esteja direcionada para o bem dos cidadãos. É essencial que tal atividade seja realizada pelo povo, através de mecanismos de participação, formais e informais, não sujeitos ao controle nem à repressão estatal, enquanto operam nos limites da lei. Edificar esse Estado foi a tarefa com a qual se viram confrontados os milhões de brasileiros que, a contar de 1974, tendo como marco inicial e visível as anti candidaturas a presidente e vice-presidente da República de Ulysses Guimarães e Barbosa Lima Sobrinho, engendraram, nos anos seguintes, a grande vitória oposicionista nas eleições parlamentares e de prefeitos e vereadores de 1976, a campanha das Diretas Já, a vitória de Tancredo Neves na última eleição pelo Colégio Eleitoral, o fim da ditadura militar, a convocação da Assembleia Nacional Constituinte e a feitura e promulgação da Constituição vigente.

Essa epopeia cívica não se fez de cima para baixo. Ela só foi possível a partir do trabalho de formiguinha realizado nas bases da sociedade por um grupo muito grande de heróis anônimos, pessoas que, através de uma multiplicidade de conversações e encontros, auscultaram e deram voz aos anseios de liberdade de nossa gente; teceram, pacientemente, a rede que as unificou, levaram-nas a dialogar entre si, definindo e construindo propostas e projetos partilhados pelo conjunto da cidadania.

Nesse pensar e fazer, arrostaram o autoritarismo, a incompreensão e o desprezo dos supostamente mais esclarecidos, até que a cidadania, assim reconstituída, pudesse se manifestar publicamente.

Entre as heroínas engajadas nessa olímpica tarefa esteve, durante décadas, Elisa Cristina Gomes, falecida dia 24, aos 83 anos. Como bem disse o Plenu – Instituto Plena Cidadania, em nota de pesar divulgada naquela data, Elisa foi uma militante histórica do movimento feminista em nossa cidade, primeira presidenta eleita do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher (CMDM) de Sorocaba, e uma das articuladoras da criação da Comissão Pró-Unificação do Movimento Feminino na cidade.

Além de atuar nos diversos movimentos feministas, teve participação no movimento das Diretas-Já no município, em 1984. Entre as bandeiras que ela defendeu estiveram aquelas pela melhoria das condições de trabalho, remuneração e saúde para as mulheres, e educação adequada para seus filhos.

Em razão disso, foi a homenageada da 17ª Turma de Promotoras Legais Populares (PLPs), ocasião em que, ao ministrar a Aula Magna, assim definiu a missão contemporânea da mulher:

“É uma aliança fraterna, esculpida com os elos das nossas histórias, com as lágrimas e dores de nossa memória. Viemos porque é urgente, imperiosa, a construção de um novo palco, onde nunca estivemos, pois não nos contemplaram. Agora, nós somos protagonistas de um novo espetáculo, onde nossa energia psíquica é onda alta, é luz, consciência viva iluminando um chão sagrado, que se abre aos nossos passos, fecundando novas sementes, florescidas, amadurecendo as raízes das nossas escolhas, por uma vida sem máscaras. Vida de coragem, de novas descobertas, sem fronteiras. Vida liberta. Vida liberta de preconceitos”

De Capão do Leão (RS), onde atualmente residem, Mário e Ruth Mattos, que a tiveram como companheira de lutas e madrinha de casamento, somaram seu abalo e profunda dor “ao pesar geral de Sorocaba pela perda irreparável de Elisa Christina Gomes, imensa cidadã brasileira.”

Faço minhas as palavras daqueles queridos amigos.

Legenda: Elisa Gomes entre as militantes Emanuela Barros e Drika Martins nas manifestações do 8 de março de 2019. Foto Emanuela Barros.

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