Crítica teatro: A Valsa de Lili

JOSÉ SIMÕES (São Paulo) – O teatro quando em sintonia com o seu tempo se agiganta diante dos espectadores. Este é o caso de A Valsa de Lili,  texto de Aimar Labaki, direção de Debora Dubois e interpretação de Debora Duboc, inspirado no livro Pulmão de Aço de Eliana Zagui.

Em cena, a história de Eliana, portadora de poliomielite, desde os dois anos de idade, sem a maioria dos movimentos do corpo. Restaram-lhe somente os movimentos da cabeça. Residente, desde então, no Hospital das Clinicas (HC), até os dias de hoje. Mais de quarenta anos na cama deste hospital.

Apenas com os movimentos da cabeça, ela desenvolveu um conjunto de habilidades, consegui estudar, pintar, aprender duas línguas e, também, escreveu o livro que serve de inspiração para o dramaturgo Aimar Labaki.

A situação posta em cena coloca como pano de fundo não somente a superação, a luta de indivíduo, mas questões como: a vacinação, as políticas públicas para a saúde e o universo dos acamados residentes em hospitais.

E se ela tivesse sido vacinada?

Provavelmente, a sua vida seria outra. Em tempos de descrédito das vacinas e com o retorno de um conjunto de doenças que poderiam ser evitadas pela simples vacinação, como por exemplo o sarampo, o texto é atualíssimo.

Sua situação faz nos pensar indiretamente na questão da malversação do dinheiro publico que impede, via corrupção, em muitas cidades com pouca fiscalização, que nem todos os recursos sejam aplicados para melhoria efetiva da saúde dos cidadãos. É certo que os corruptos não são somente os políticos mas, também, os funcionários públicos lenientes e os empresários que superfaturam os seus preços e serviços, quando os oferecem em licitações públicas. Todos são culpados. E a consequência não é invisível. Nada mais atual nos dias de hoje.

Pulmão de Aço é o relato de uma história de superação, coragem e imensamente triste. É triste porque poderia ser diferente. Mas não foi. Então, vida que segue.

A tristeza foi deixada de lado pela protagonista para que ela pudesse viver e conseguir avançar — cada dia é um novo dia. É justamente por não somente reclamar, não desistir, que a sua história comove e tem sua força. Afinal, na maioria das vezes, reclamamos demais e desistimos com facilidade.

Em A Valsa de Lili , texto de Aimar Labaki, inspirado livremente no livro de  Eliana Zagui, ele costura todo este conjunto em cena. Logo no inicio, o autor substitui o “era uma vez” por “dizem”. Dizem isso, dizem aquilo. Seria verdade ou mentira aquilo que foi “dito”?  Seria toda a história uma história contada? Seria uma ficção misturada com realidade? Afinal de contas: dizem. Ao final do espetáculo, o mistério se desvenda na bela solução de Debora Dubois.

As cenas iniciais da dramaturgia proposta por Aimar Labaki são por demais explicativas, no sentido de localizar a situação da personagem e, também, de explicar a doença. O público precisa se esforçar para não se perder do espetáculo.

Entretanto, passado este primeiro momento, que busca trazer o público para um campo comum sobre quem é quem, a doença, é que o texto ganha envergadura cênica. Na sequência, o texto ganha enormes contornos poéticos e a dramaturgia faz as palavras brilharem. Aimar Labaki passa a elaborar pequenas palavras/síntese/vida, que em cena evocam grande prazer no espectador. Uma valsa de palavras.

A encenadora Debora Dubois realiza um trabalho delicado e, ao mesmo tempo, rigoroso. Faz da iluminação elaborada por Aline Santini, do figurino de Márcio Vinicius e da trilha sonora componentes fundamentais para o ritmo do espetáculo. Caminha na tênue linha do drama, sem enveredar para o “tentador” dramalhão, nem para o discursivo e monocórdico. Consegue em seu trabalho evidenciar as qualidades do texto em plena cumplicidade com a atriz.

A atriz Debora Duboc permanece com o corpo imóvel em cena. Tem apenas no movimento do pescoço, no olhar e na voz os elementos para a composição física da personagem. Um enorme desafio. A atriz, então, busca a energia da “presença”, do “estar em cena” para lastrear o seu trabalho

Debora Duboc irradia a sua energia e presença. Joga de modo hábil com esta presença e os sentidos das palavras e as suas sutilezas. Simples assim. Sem subterfúgios ou histrionismos. E desse modo, por mais de uma hora, ela hipnotiza e emociona o público, numa interpretação rara e potente. Faz do texto poesia.

O tempo da poesia oral é, por assim dizer, corporalizado. É um tempo vivido no corpo. (ZUMTHOR)

Em determinados momentos, consegue fazer com que as lágrimas brilhem nos olhos, porém, não as derrama. Afinal, na sequência seguinte, não teria como limpá-las. Não permite, metaforicamente, que a emoção lhe turve a visão. A personagem não faz drama da sua vida. É bem por isso que você não consegue tirar os olhos da personagem desenhada e vivida por Debora Duboc.

Ao final do espetáculo não resta dúvida de que se está diante de uma atriz de primeira grandeza do teatro paulistano. Uma aula de interpretação para os jovens atores e atrizes.

Por fim, A Valsa de Lili é teatro bem feito. Bom texto, boa direção e excelente interpretação.  É uma daquelas experiências que fazem do teatro uma arte ímpar e significativa. Imperdível.

Há poucos ingressos. Tomara que voltem em nova temporada. O teatro agradece.

FICHA TÉCNICA

Texto: Aimar Labaki
Com: Débora Duboc
Direção: Débora Dubois
Cenário e figurinos: Márcio Vinicius
Iluminação: Aline Santini
Fotografia: João Caldas Fº

Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Produção Executiva: Fabrício Síndice
Direção de Produção: Edinho Rodrigues (Brancalyone Produções) Inspirada no Livro “Pulmão de Aço” de Eliana Zagui

Sesc Ipiranga – Auditório – Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga
Temporada: de 15 de agosto a 1º de Setembro
Às quintas e sextas às 21h30, aos sábados 19h30 e aos domingos, às 18h30.

Ingressos: R$ 20,00 (inteira); R$ 10,00 (meia: estudante, servidor de escola pública, + 60 anos, aposentados e pessoas com deficiência); R$ 6,00 (credencial Sesc)

Duração: 60 minutos

Capacidade: 30 lugares

Sesc Ipiranga
R. Bom Pastor, 822 – Ipiranga, São Paulo |Tel: (11) 3340-2000

Fotografia/Divulgação: João Caldas Fº

 

3 comentários em “Crítica teatro: A Valsa de Lili

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