Milton Nogueira, radialista

Rubens Nogueira

Éramos seis. Três homens. Três mulheres. Ele era o segundo filho. A vocação, ele descobriu na adolescência. Tinha a ferramenta básica – Voz, Voice, Voix, Vocce. Era, entretanto, muito indisciplinado. Boêmio incorrigível. Viveu bem, morreu mal, o meu irmão Milton. Amigos, companheiros de trabalho, minhas irmãs, Hilda, Neide, Eunice e meu irmão Edward cuidaram dele até o fim. Sorocaba chorou sua morte sofrida.

Não é por ser meu irmão, mas ele foi um dos maiores locutores de rádio que o Brasil já teve, quiçá do mundo. Fez escola. Um de seus discípulos me disse que escolheu a carreira depois de ouvir e conviver com Milton. Chama-se João Luiz Albuquerque, da BBC, da rádio sueca e da ONU. Eu, mesmo, não acompanhei sempre a sua vida, a não ser nos quatro anos em que ele morou com minha família, aqui no Rio. Nessa época – década de 50 – ele trabalhou nas Rádios Clube do Brasil e na FM Jornal do Brasil. Precisava acordar cedo, para abrir o programa às 7 horas. Como ficava na boemia até as 2, 3 horas da madrugada, dava um trabalho danado acordá-lo.

Milton Nogueira tinha sorte, carisma, era muito querido no meio radiofônico. Fez pequenas aparições na incipiente televisão. Em São Paulo, fez um programa: “Um Homem, uma mulher”, ao lado de Lady Francisco. Um episódio do qual me lembro com orgulho foi vê-lo entrevistando o ator norte-americano Glenn Ford, que foi casado com Eleanor Powell e fez muitos filmes de mocinho, mas brilhou mesmo em Blackboard Jungle como professor de jovens rebeldes.

Em Sorocaba, o centenário jornal Cruzeiro do Sul deu ampla cobertura à tragédia que foi o final de vida do Milton. Imagine: um profissional da voz, com câncer nas cordas vocais. Quando o meu sobrinho José Lázaro deu-me a notícia, eu morava em Itaipava. Disse-me o doutor Lázaro: “Rubens, o câncer do Milton teve duas causas: álcool e tabaco, não necessariamente nessa ordem.” Era maio de 1992. Eu fumava Minister com filtro – a única novidade que Rubem Braga notou no Brasil, ao voltar de uma temporada na França. Deixei de fumar no ato. Beber continuo, com moderação.

A família Nogueira em foto de 1950 (comemoração das Bodas de Prata de Teodoro e Hortência). Da esquerda para a direita, em pé, Hilda (Nena), Edward, Rubens (autor deste blog), Milton e Neide; sentados, Teodoro Nogueira, Hortência Nogueira e Eunice (Nicinha)

Em 5/11/92, o radialista Ademar Adade escreveu na coluna do leitor Cruzeiro do Sul: “Bom dia Nogueira”. “No ar – Vesperal Excelsior – ecoava por toda a cidade e região a voz de Milton Nogueira, anunciando das 16h às 18 horas, pela PRD7 – Rádio Clube de Sorocaba, o programa imbatível no horário, consagrando uma das maiores audiências de todos os tempos do rádio sorocabano. Depois, à noite, às 20 horas, mais um capítulo da novela “Mansão do Destino”, quando as fãs suspiravam pela voz maviosa do galã Milton Nogueira no papel principal.

Ademar Adade eu conheci ainda menino, membro de uma família de jornalista e radialistas. Ele se desmancha em saudade e carinho nessa carta, e inicia uma campanha pública, para arrecadar dinheiro para a compra de um aparelho que permitisse ao Milton falar novamente. Quando o visitei em Piedade, na casa de Mário Xavier, meu cunhado, eu falava e Milton respondia escrevendo para eu ler. Mas sorria, sorria…

Em 8/11/92, na mesma seção, Joel Robson Ibba escreveu: “Quando o ouvi, fiquei impressionado. A grande maioria de nós nem havia nascido ainda, e as ondas do rádio já levavam sua voz, forte, limpa e profunda para todo o Brasil.” Joel chama-o de “Mestre Milton”.

O Jornal Cruzeiro do Sul de 13/12/92 encabeça a campanha por donativos. Descreve os sofrimentos do Milton após a cirurgia e divulga uma frase do meu irmão: “Sábio e feliz é aquele que sabe conquistar seu objetivo, mas não se perturba se o perde.” Relembra a carreira, iniciada aos 17 anos na PRD7 e pelos seguintes 42 anos, na rádio América (São Paulo); nas rádios cariocas já citadas e na rádio Meridional, de Votorantim (SP).

A campanha prosseguiu, noticiada nos dias 16, 18, 24 e 25 de dezembro de 1992. Em vão. O aparelho era caríssimo. Em 12 de fevereiro de 1993, Renata Moeckel escreveu comovido texto informando que, na impossibilidade do aparelho Fonet (importado), Milton fora aquinhoado com uma laringe eletrônica, que o faria voltar a falar. O sobrenome Moeckel acendeu a lanterna de popa do barco de minha vida. Seria ela parente de Gladys Moeckel? Quem sabe? Esta menina Gladys morava na Avenida Eugênio Salerno – era uma adolescente encantadora. Renata, ao que parece, liderou a campanha em favor de Milton.

A doença terrível venceu a guerra. Na sexta-feira, 23 de abril de 1993, a manchete do Cruzeiro do Sul: “Morre de câncer o radialista Milton Nogueira”. No seu sepultamento, no cemitério da saudade, junto à nossa mãe Hortência, foram lidas as seguintes palavras: “Diga aos amigos que estou em paz. Quero caminhar para a morte com dignidade. Estou com Deus. Que chegue logo. Já não aguento mais. Ore por mim. Não posso nem devo blasfemar.” Contava 60 anos.

Imagem de tookapic por Pixabay 

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