Zé Muleque, o leva e traz (conto). Parte 1: Todos (até dona Rosa) contra Zé

JOSÉ CARLOS FINEIS – Zé Muleque devia ter desconfiado de que havia alguma coisa errada quando foi convidado a entrar – ele, que entrava sem bater – no gabinete do prefeito, naquela manhã de sol. Desde que pisara na Prefeitura, sentira um excesso de mesuras no ar, incomum para um aspone que, embora sem cargo no papel, era considerado “gente da casa”. A secretária do prefeito, dona Rosa, com o sorriso mais falso deste mundo e um brilho incomum no olhar, ofereceu a Zé um cafezinho – justo a ele, que se servia da garrafa térmica do prefeito sem pedir autorização, por vezes sem ligar para o fato de que aquele era o último gole.

As gentilezas e formalismos não tinham razão de ser, fosse porque a intimidade as dispensava, fosse porque as relações entre Zé Muleque e o prefeito, Manoel Botelho, estavam severamente abaladas nas últimas semanas, a ponto de se perder, entre eles, a espontaneidade de arrotar e peidar na presença um do outro, camaradagem esta que acompanhava uma amizade de infância e o respeito mútuo pelo fato de Zé Muleque, dois anos mais velho, ser padrinho de batizado da única filha do prefeito – portanto, além de amigos, eram compadres.

O desconfiômetro de Zé Muleque só foi acender tarde demais, ao ser recebido com um misto de polidez e frieza pelo chefe político, que dispensou o abraço afetuoso de sempre e estendeu o braço por sobre a mesa sem se levantar da cadeira, para que o outro lhe apertasse a mão. Assim que Zé Muleque se sentou, o prefeito pôs as mãos em concha na boca – já que a prefeitura não tinha interfone – e berrou para que a secretária o ouvisse lá do outro lado da porta fechada: “Dona Rosa, mande entrar o pessoal!”

Ouviu-se um burburinho na antessala. Poucos segundos depois, dona Rosa abriu a porta e manteve-a escancarada enquanto por seus batentes passavam algumas das pessoas mais influentes e poderosas da cidade. Pela ordem de importância naquela hierarquia de poder: o dono da PS Terceirizações (empresa que ganhava todas as licitações da prefeitura), o dono da única loja de departamentos, o dono do único posto de gasolina, a assessora especial de gabinete da Prefeitura (que, diziam os mais chegados – Zé Muleque era um deles –, fazia hora extra “com e para” o prefeito), o pároco, o promotor público que se deslocara desde a cidade-sede da Comarca especialmente para aquele encontro, o delegado de polícia, a filha de Botelho e afilhada de Zé Muleque, o secretário de Obras, o assessor de Imprensa, a primeira-dama senhora Bárbara Passos Botelho e três rapazes de terninho escuro e gravata que atuavam como assessores sabe se lá de quê, mas, na verdade, desempenhavam as funções de motoristas, capangas e puxa-sacos do prefeito em tempo integral.

Dona Rosa já ia entrando e puxando a porta atrás de si quando chegaram, quase sem fôlego e atrasados como sempre, o presidente da Câmara e o líder da bancada governista. A secretária, mais por educação do que por respeito à hierarquia, deixou que eles passassem antes de si, e entrou por último, fechando a porta e girando a chave.

Logo que começou aquela pequena procissão dos infernos, Zé Muleque saiu da cadeira diante da mesa do prefeito, onde mal acabara de sentar, e foi, meio que por instinto de sobrevivência, encostar-se na janela atrás da mesa, de onde podia-se ver parte da praça mas, uma vez que o vitrô era protegido por grades, infelizmente era impossível escapar.

Num gesto desavergonhado de intimidação, cada homem, ao entrar, com exceção do pároco e do promotor, foi colocar seu revólver sobre a mesa do chefe do Executivo, que se tornou, em poucos minutos, um pequeno mostruário da indústria de revólveres e pistolas nacionais e estrangeiras, de hoje e de ontem. De onde estava, Zé Muleque pôde distinguir duas ou três pistolas parecidas com aquelas dos filmes de nazistas, um “três oitão” semelhante aos usados pela Polícia Militar, uma garrucha de cabo de marfim amarelado (“seria de carregar pela boca?”, pensou, com um sarcasmo que não o abandonava nem nos momentos mais desesperadores) e até um revólver que lhe pareceu, a ele que entendia mais de cinema do que de armas, um lendário Magnum 44 como o que é usado por Robert de Niro nas cenas finais do filme Taxi Driver – aquele cujo tiro arranca metade da mão de um homem, tamanho seu poder de destruição.

A exposição de armas sobre a mesa do prefeito estava longe de ser comum. Aquelas pessoas graúdas tinham ido à prefeitura para tirar satisfação sobre coisas que Zé Muleque andava espalhando sobre elas. Obviamente, a emboscada havia sido combinada com o prefeito, que atraíra o compadre com um telefonema sobre qualquer coisa referente à quermesse da igreja, algo assim.

– Repita agora, na minha cara – começou o dono do posto de combustíveis –, que a minha gasolina e o meu álcool têm mais água que ponche de aniversário de criança.

– É. Diga agora, olhando pra mim – adiantou-se a assessora especial com seu corpinho de tanajura, vocabulário vulgar e alguns perdigotos – que eu, que inclusive sou uma mulher casada, fico dando pro prefeito depois do expediente.

– Isso, diga na cara dela e na minha – completou a mulher do prefeito, que se sentia mais prejudicada em sua baixa autoestima, pensando no que “os outros vão dizer”, do que no relacionamento com o prefeito, por quem, havia muito, perdera qualquer sombra de amor e tesão. – Diga que esses dois andam me corneando. Diga!

Com um pigarro para chamar a atenção e ajeitando o nó da gravata Pierre Cardin, o promotor, com seu jeito certinho de meninão criado pela avó, destacou-se do grupo e empostou a voz, como se inquirisse uma testemunha em um tribunal:

– O sr. José… Como é mesmo sua graça?

– Luiz Antônio Firmiano dos Santos Neto.

– Não tem José no seu nome?

– Não. Zé é apelido.

– Correto. E por acaso o sr. Luiz Antônio Firmiano dos Santos Neto, vulgo Zé Moleque, é capaz de reafirmar taxativamente, diante deste representante do Ministério Público e desses honrados munícipes, que nós do MP, assim como os demais digníssimos integrantes da força-tarefa contra a corrupção, engavetamos sem apurar uma denúncia identificada e protocolada, de irregularidades em licitações de obras da prefeitura?

E assim, em resumo, para não cansar o leitor, cada pessoa naquela sala desafiou Zé Muleque a repetir “na cara, se fosse homem” algo que ele supostamente havia dito. Até mesmo a outrora sorridente dona Rosa estava como o cenho fechado e, encerrando o rosário de queixas, adiantou-se para o centro da sala, sem pedir licença.

– É, seu falso. Seu leva e traz! Diga também, se for macho, que meu café é uma bosta — você que toma dois litros do meu café todos os dias. Diga, seu… seu… Seu moleque!

E pôs-se a chorar.


De seu posto próximo à janela, Zé Muleque já havia percebido que não sairia dali sem um soco, ou um processo, ou uma ameaça de morte – provavelmente os três. Era impossível negar que dissera tudo aquilo, até porque realmente dissera. Mas ainda não começara a suar frio e mantinha, até, uma certa empáfia, por conta de uma intuição muito vaga, quase uma esperança, de que a única pessoa em toda a cidade – e, por extensão, em todo o planeta – capaz de salvá-lo apareceria naquele momento, já que era costume dessa pessoa ir sempre à cidade pela manhã, para “ver gente”, comer pamonhas, tomar café e tratar de negócios.

Por isso, foi como se presenciasse um milagre bíblico, do tipo caminhar sobre as águas ou derrubar muralhas com o troar de trombetas, quando Zé Muleque avistou, por uma fresta do vitrô, que seu único possível salvador atravessava a praça e se dirigia com passos largos e decididos para a entrada da prefeitura.

Era impossível não reconhecer, mesmo a grande distância, a figura de Antônio Augusto Tiroel, ou simplesmente Coronel Augusto, com seu terno branco de linho, seu chapelão igualmente branco, suas calças pula-brejo e botas pretas. É preciso esclarecer que o Coronel Augusto não era militar. Era fazendeiro, podre de rico. Acontece que, naquela cidadezinha atrasada, ainda se mantinha o costume dos primórdios da República, de chamar de coronel aos expoentes da oligarquia local.

E, para júbilo integral de Zé Muleque, o homem mais poderoso daquela região inteira não vinha só. De cabeça baixa e com o rosto praticamente escondido pelo chapéu de palha, macacão de brim de cor indefinida devido à sujeira sobre o corpo musculoso e uma foice de cabo longo apoiada no ombro, caminhava atrás do fazendeiro, com passos igualmente resolutos, aquele que era, embora não se anunciasse abertamente, o braço terrivelmente armado do Coronel Augusto para situações de perigo real, possível ou imaginado.

Para quem nunca ouviu falar, o que é raro numa região imensa do interior paulista que vai de Barra do Turvo a Miguelópolis, passando por Sorocaba e Teodoro Sampaio, aquele era o lendário João da Foice, cuja habilidade com essa ferramenta – que usava, eventualmente, também para os serviços da lavoura – fazia dele o homem mais temido em todo local por onde tivesse passado. E eram muitos os locais por onde passara antes de se acomodar com um bom salário na fazenda do coronel, e em grande parte dessas localidades a terra recebera, por sua conta, alguma quantidade de sangue e até mesmo alguns corpos, resultados de provocações, desavenças e acertos de contas que não vêm ao caso.

Zé Muleque só esperou um instante para se certificar de que o Coronel Augusto e João da Foice rumavam mesmo para a prefeitura, para sair de sua posição junto à janela e, com o peito estufado, a cara amarrada (algo inusitado para aquelas pessoas) e um tom de voz o mais grave possível – embora mantendo-se atrás da mesa – , começar a se defender.

– Digo, repito e dou por escrito, se os senhores e senhoras quiserem – começou Zé, olhando para cada um do grupo diretamente nos olhos.

Os homens e mulheres, até então confortáveis em sua condição de maioria armada e acusadora, tiveram uma surpresa ao perceberem em Zé Muleque uma coragem e arrogância que ninguém poderia sequer imaginar, ainda mais nas condições precárias, de difícil defesa física ou moral, em que imaginavam tê-lo encurralado.

Zé Muleque tomou fôlego e prosseguiu:

– Tudo o que foi dito aqui pelos senhores e senhoras eu afirmei, sim, em conversas com o Coronel Augusto e com outras pessoas, embora algumas coisas não tenha como provar, pois precisaria ter o poder de um promotor ou de um delegado para investigar caso a caso – mas o promotor e o delegado, sem querer ser indelicado e com perdão das senhoras presentes, não passam de dois cuzões!

(Neste momento, o delegado soltou uma espécie de grunhido e tentou se atirar por sobre a mesa para espancar o Zé, sendo contido pelos outros, curiosos por saber de onde vinha e até onde iria a ousadia daquele desgraçado.)

– Mas, prosseguindo – retomou Zé Muleque –, quando não tinha comprovação do que diziam, sempre deixei claro que eram boatos a confirmar. Jamais apresentei um boato como sendo a verdade cuspida e escarrada, como até a grande imprensa faz. E quero lembrar que muitos desses supostos boatos que compartilhei em conversas com os senhores acabaram se confirmando, como a nomeação do genro do prefeito, marido de minha querida afilhada aqui presente, para uma boquinha de gerente de Projetos Ambientais na PS Terceirizações, apesar de ser ele o dono da maior rinha de galos da região e de ter colocado chifre em minha afilhada. – E, dirigindo-se para o prefeito: – Entendeu, Botelho? Chifre na sua filha, e não foi com uma ou duas mulheres não, foi com todas as putas e travestis da cidade, como muitos aqui já tiveram a oportunidade de presenciar, mas fingem não ter visto.

– Também – prosseguiu Zé Muleque – divulguei, não com prazer, mas por dever de ofício, já que me tornei uma espécie de informante público da cidade, a multa por sonegação que o Fisco do Estado meteu na loja do seu Yang aqui presente, e que ele conseguiu, na base do suborno e da influência, fazer com que desaparecesse nas gavetas da Secretaria de Finanças, mas que, antes disso, saiu publicada no Diário Oficial – portanto, não era boato. Eu posso não ser nenhum Caco Barcellos, mas sou o que esta bosta de cidade tem ou merece ter em termos de informação. Um leva e traz, um língua de trapo, um fofoqueiro, como queiram. Mas quero lembrar aos senhores e senhoras que todos aqui – todos, sem exceção – já pediram informações ou quiseram saber se era verdade alguma fofoca, ou mesmo me contaram alguma coisa sem pedir sigilo, pelo contrário: insistindo que eu espalhasse a notícia. Logo, se cometi algum crime ao levar e trazer informações, todos são cúmplices desse crime.

Zé Muleque tomou fôlego para prosseguir seu sermão, mas ficou paralisado quando viu um braço grosso e peludo, aparentemente de homem, destacar-se do grupo e avançar em direção à mesa, a fim de pegar uma das armas ali depositadas, certamente para enfiá-la em seu nariz e fazê-lo engolir, palavra por palavra, tudo o que havia dito. Assustado, sentiu o coração disparar e recuou um passo. Mas, nesse instante, a porta trancada a chave explodiu com um pontapé e por ela entraram, trazendo consigo uma rajada de ar fresco, o Coronel Augusto e seu sombrio acompanhante, com a foice inseparável ao ombro. O braço em busca do revólver– creio que era do delegado – recuou como se tivesse molas, enquanto todos olhavam com espanto para os recém-chegados.

João da Foice, que era magro e alto, olhou a todos de cima a baixo com um quê de desprezo, avaliou rapidamente a situação e tomou posição estrategicamente numa das laterais da sala, em um local equidistante entre as armas colocadas sobre a mesa e seus respectivos donos.


Neste ponto, é interessante fazer um parêntese para contar aquilo que se dizia naquela cidade – e que, como ocorre com as lendas, quase nunca se podia afirmar com cem por cento de certeza se era verdade ou mentira – sobre a habilidade de João da Foice com seu instrumento de trabalho. Com a foice de cabo curto ou a de cabo longo – segundo se dizia, a mais letal –, teria ele, de acordo com as histórias que contavam sobre si e também em episódios menores ocorridos ali mesmo na cidade, protagonizado façanhas dignas de constar num livro de recordes ou em um romance de Rubem Fonseca.

Para não nos alongar, nem correr o risco de reproduzir histórias inventadas, fiquemos com alguns casos ocorridos naquela cidade, e que tiveram, portanto, testemunhas oculares.

Certa vez, João estacou à frente de um grupo de roceiros que liderava rumo a uma plantação de fumo. “Afasta!”, disse apenas, abrindo os braços em sinal de alerta, sem se virar. Os homens recuaram alguns passos. “Afasta mais”, disse João, que tinha o poder de pressentir pessoas escondidas e saber a distância exata entre ele e quem estivesse num raio de várias dezenas de metros, de costas ou de olhos fechados, apenas por instinto, olfato ou algum dom sobrenatural.

Quando todos já estavam a uma distância segura, João esticou a foice em direção a um arbusto, que cortou com a ponta da lâmina, num golpe vigoroso. Um “oh” percorreu os roceiros, que se entreolharam admirados. Estava ali uma cascavel enrolada, pronta para dar o bote naqueles pés descalços, já que o salário de lavrador mal permitia comprar umas havaianas, quanto mais um par de botas. Antes que a cobra pudesse sequer se preparar para o bote, a ponta da foice de João a apanhou e atirou para o alto, a cerca de quatro ou cinco metros do chão. Enquanto a cobra caía, o herói, com um ziguezague de foice digno de um samurai, cortou-a em cinco pedaços.

As partes da cobra despencaram no solo ainda se retorcendo, porém desprovidas de vida e perigo. João então se voltou para o grupo e, tirando uma fita métrica do bolso (quem, por Deus, poderia imaginar que um roceiro andava com uma fita métrica no bolso?), entregou-a ao homem mais próximo – ninguém menos que o capataz da fazenda – e disse: “Mede.” O homem riu, querendo saber se aquilo era uma piada, mas João não parecia estar de brincadeira. “Mede os pedaços!”

O capataz apanhou a fita métrica e foi até a cobra, que acabara de agonizar e jazia imóvel. Com as pontas dos dedos, apanhou os pedaços e esticou-os na grama rasa, um ao lado do outro. Depois os mediu. Se havia diferença de dois ou três milímetros entre as partes da cobra, era muito. E isso, considerando-se que não havia ali instrumentos apropriados para esticar cada segmento da cobra de forma adequada, e que as mãos do capataz tremiam.

Em outra ocasião, enquanto os roceiros descansavam depois do almoço, à sombra de uma árvore – e como houvesse por ali alguns mosquitos incômodos –, um gaiato sem nada melhor para fazer desafiou João a matar um mosquito em pleno ar. João concordou, com a condição de que os roceiros encontrassem as metades do mosquito, pois essa era a parte mais chata do desafio: provar que ele fora cumprido. Os roceiros aceitaram a condição, sem pensar nas consequências.

João ficou de pé, mantendo as duas mãos firmes no cabo da foice e o instrumento em repouso, com a extremidade da lâmina encostada no chão. Pediu silêncio ao grupo e, imóvel, durante uma pequena eternidade fixou os olhos no espaço imediatamente acima de sua cabeça, até que um mosquito entrasse em seu campo de visão. Imediatamente, num movimento vigoroso, seus braços fizeram com que a foice descrevesse um círculo no ar e voltasse à posição original – operação esta que não durou um quarto de segundo.

O gesto foi tão rápido que alguns roceiros, tendo piscado naquele exato momento, juram até hoje que a foice jamais se moveu. “Agora procurem as metades”, ordenou João, que não conhecia as palavras “por favor”. Os roceiros levaram mais de uma hora para encontrar meio mosquito, entre folhas secas de um galho caído, e tentaram convencer João de dispensá-los de procurar a outra parte. “Se tem metade, logicamente ocê cortou o mosquito! Ocê é mesmo fantástico, João. Agora vamo vortá pra lida?”, sugeriu o capataz. Mas o bom senso e a flexibilidade para transigir não eram os fortes de João. “Trato é trato. Procurem por ali. Vi a outra metadinha dele cair perto daquele formigueiro.”

Os homens aprenderam assim a não duvidar e, principalmente, a não desafiar João da Foice com façanhas idiotas. Histórias como essas e outras histórias vividas fora da fazenda, ou mesmo aquelas de ouvir falar por terceiros, levadas ao ouvido do Coronel Augusto, deixavam-no radiante. Afinal, ele não tinha apenas um guarda-costas: tinha um super-humano, uma entidade sobrenatural, uma lenda viva a protegê-lo e à sua fazenda. E a prova do medo que aquele homem inspirava estava ali, no gabinete do prefeito, onde vários valentões e presunçosos, até agora há pouco dispostos a humilhar e até mesmo a ferir uma pessoa, mantinham-se calados e suavam de empapar o colarinho apenas por estarem na presença de João e sua foice.

– O que tá acontecendo aqui, prefeito?

– Olha, coronel, o pessoal quis ter uma conversa com o Zé Muleque pra tirar a limpo algumas histórias, só isso.

– E essas armas todas? Não seriam pra ameaçar o meu amigo Zé Muleque, seriam?

– De maneira nenhuma, coronel. Elas estão aí porque ninguém pode portar arma na prefeitura. É a lei – improvisou o prefeito.

– Mas, nesse caso, não era melhor deixar lá fora, com dona Rosa?

– Pois é, taí uma boa ideia. Dona Rosa, a partir de hoje, a senhora fica com as armas de quem entrar no gabinete, lá na sua mesa. E já que somos todos ocupados e conversamos o que tinha pra conversar, sugiro que declaremos encerrada esta reunião.

Os homens se entreolharam. João da Foice não se moveu um milímetro de sua posição, e seu olhar era mais desafiador do que antes.

– Mas a gente pode pegar as armas… Sem nenhum perigo? – indagou o dono do posto de combustíveis, sentindo-se extremamente envergonhado ao reconhecer em suas palavras um atestado de covardia.

– Se for pra guardar, pode – disse o coronel, que se divertia muito com aquela situação. – Mas peguem pelo cano, sem empunhar, pois o João aqui detesta arma empunhada. Dizem que ele já separou várias mãos armadas de seus braços. Não é nem que ele faça de propósito. É uma coisa irracional, entendem? Instintiva.

Depois, diante dos olhares assombrados de todos, o Coronel Augusto soltou uma gargalhada.

– Eu tô brincando, gente. – Todos riram amarelo, mas voltaram a ficar sérios quando o coronel insistiu: – Por via das dúvidas, pequem pelo cano, sem empunhar.

Os homens, então, vencendo forçosamente o receio, pegaram suas armas pelo cano e com as pontas dos dedos, como se elas estivessem quentes, fazendo questão de mostrar a João da Foice, com movimentos lentos e bem pronunciados, que nem lhes passava pela cabeça empunhar uma arma naquele momento.

O Coronel Augusto riu satisfeito. Zé Muleque estava ao seu lado, entre ele e João da Foice, e sentia ainda as pernas tremerem de medo ou coragem, não sabia bem ao certo.

Coronel Augusto, João da Foice e Zé Muleque finalmente deixaram a sala. Enquanto andavam para a praça, já no pequeno jardim do prédio da prefeitura, o fazendeiro, sem deixar de cumprimentar os conhecidos e de sorrir e levantar o chapéu para as damas, disse entre dentes para Zé Muleque:

– Não se dê por vitorioso, Zé. Também temos algumas coisas para acertar. Acho que o amigo vai ter de sair da cidade, o que lamento muito. Mas é para seu bem.

Zé Muleque ficou com a boca amarga e sofreu uma quase vertigem ao experimentar, entre as tantas emoções vividas naquela manhã, uma que ainda não sentira: a tristeza. Deixar a cidade em que nascera e vivera por quase quarenta anos era algo que estava completamente fora de seu horizonte. Mas o coronel tinha razão. Sua permanência ali era insustentável, e se ousasse ficar acabaria morto em alguma emboscada ou mesmo à vista de todos, por pistoleiros encapuzados. Apesar de se sentir deprimido com a constatação, não alimentava ressentimento contra o fazendeiro, que fora, como contarei mais adiante, o grande responsável por sua ascensão e queda, por seus dias de glória como leva e traz e, agora, por sua desgraça e fuga iminente.

Pois foi para servir o fazendeiro mais poderoso daquela região que Zé Muleque se tornou um informante, algo assim como um protótipo de jornalista, naquela que provavelmente era a última cidade do Brasil sem jornal impresso, rádio, blog ou site de notícias, ainda que mal feito. De certa forma, a persona “Zé Muleque, o leva e traz” era cria do Coronel Augusto e de seu desejo – na verdade, um direito inalienável de todos os cidadãos em uma democracia, sejam eles poderosos fazendeiros ou moradores de rua – de saber o que os governantes fazem na administração pública, como gastam o dinheiro dos contribuintes, se são ineptos, corruptos ou competentes. Enfim, tudo o que possa ser considerado de interesse público em uma cidade ou país.

Leia a segunda parte deste conto inédito no domingo, 7/9/2019.

Ilustração: “Dois homens em conversação”, óleo sobre tela de Leonid Afremov. O original assinado desta tela está a venda por US$ 3 mil mais despesas de frete no site www.chairish.com

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