Cerveja versus vinho, gourmetização… Na briga pelo paladar, os mitos e o que é fake na propaganda e nas redes sociais

MARCO MERGUIZZO – No balcão e prateleiras digitais das redes sociais, a propaganda também é, como se dizia no passado, a alma do negócio. Até aí nenhuma novidade. Mas é sempre bom manter o pisca-alerta ligado, pois volta e meia o que parece brilhar e reluzir entre os trend topics e memes dificilmente será ouro, usando uma outra máxima das antigas.

Nestes tempos de pós-Aldeia Global de McLuhan e terabytes, em que as informações são massificadas a jato pelos meios de comunicação e turbinadas por cliques, curtidas e fake news disseminadas sem nenhum controle pela rede mundial de computadores, todo tipo de conteúdo, seja ele político, econômico e comercial, deve ser colocado em cheque, filtrado e refiltrado, passando por um criterioso e indispensável crivo da nossa parte.

Isso também vale, obviamente, para o universo da boa mesa, em que a publicidade costuma vender o peixe do comércio e das indústrias alimentar e de bebidas, visando a despertar a atenção, o estômago e logicamente o bolso do consumidor, com criações cujos fundamentos e conceitos, por vezes, nem sempre são corretos e verdadeiros.

Para ilustrar o que estou dizendo, recorro especificamente a uma propaganda e a uma notícia recém-veiculadas na mídia brasileira e internacional. Em relação à primeira, trata-se do filme da nova campanha publicitária da Stella Artois, marca belga mundialmente conhecida e que hoje pertence ao portfólio da maior cervejaria do mundo, a gigante multinacional Anheuser-Busch InBev.

Repleto de ironias, o roteiro histriônico do filmete de meros 30 segundos, batizado de “Sofisticadamente Simples”, tem a assinatura da agência CP+B Brasil. Em síntese, ele narra a história de um casal em um restaurante que pede um vinho para acompanhar a comida. Enquanto o sommelier (o profissional responsável na casa pelo serviço de vinho) segue o ritual para abrir a garrafa, a mulher quebra o protocolo e pede uma cerveja (confira o filme no final deste post).

O sommelier, estrela da nova campanha: nariz e giros na taça,…
… caras e bocas, salamaleques e performance histriônica para…
encantar os fãs da marca e, de quebra, espantar os não-iniciados…
do mundo de Baco ao vender uma cerveja de qualidade duvidosa

Como apreciador de vinhos e de uma boa cervejota, achei o conceito da campanha equivocado e preconceituoso, com premissas completamente antiquadas e ultrapassadas. Ou seja: uma discussão datada, sem sentido, desinformada e excludente, voltada a encantar o fãs da marca e de cerveja e ao mesmo tempo confundir a cabeça daqueles não-iniciados no mundo do Baco e que ainda hesitam diante de uma taça de vinho. Desde já, digo que é possível ser feliz e ter prazer à mesa com ambas as bebidas, desde que ofereçam boa qualidade e atendam às nossas expectativas.

Pela minha experiência e gosto pessoais considero o vinho, por todos os seus atributos organolépticos, de harmonização e benefícios à saúde, a bebida ideal para acompanhar a comida. Por outro lado, há uma categoria de cervejas especiais (tema ao qual voltarei de forma mais detalhada em um futuro post) que recomendo, cujos estilos e sabores também podem ser alternativa prazerosa, embora algumas dessas espumas diferenciadas proporcionem aquela mesma sensação de torpor e estufamento, típica dos fermentados à base de malte, lúpulo e cevada.

Mas, ao contrário destas espumas premium (de padrão superior), considero a cerveja em questão que estrela a campanha – uma pílsen clássica pouco lupulada – de qualidade mediana, apesar da fama e do marketing que a cerca no Brasil. Em termos comparativos, ela corresponderia em estrutura a um vinho de paladar simples e ligeiro, feito de modo correto e sem arestas para ser consumido no dia a dia.

Atualmente uma cerveja de produção industrial, a Stella Artois é feita em várias plantas da multinacional pelo mundo, como na fábrica da vizinha Jaguariúna, no interior paulista. Pílsen ou pilsner de baixa fermentação, ela surgiu, em seus primórdios, há mais de 650 anos, durante a Idade Média, como uma cerveja especial, elaborada artesanalmente em pequena escala, em edição limitada e em um único período do ano, mais precisamente às vésperas do período natalino, para brindar o nascimento de Jesus (daí o seu nome batismo, uma referência à estrela (stella, em latim) dos três reis magos. (Em tempo: Sebastian Artois era o nome do mestre-cervejeiro que criou a sua fórmula original).

Decantador: a técnica de filtragem também é válida para redes sociais

Portanto, não se engane, já que há muita gente que costuma beber cerveja ou vinho pelo rótulo e acaba virando, por preferência ou mesmo desconhecimento, “torcedor” de uma determinada marca, como os de times de futebol. O que não falta por aí é torcedor das populares Skol, Brahma e agora da “gourmetizada” Stella Artois, o que acaba por limitar novas experiências no copo e boas descobertas à mesa.

Por fim, vale ainda ressaltar a comparação forçada e injusta sugerida no filme da cervejaria entre os dois fermentados, já que são bebidas diferentes que possuem padrões distintos. Explico: teoricamente, só vinhos mais elaborados da adega, em geral aqueles de guarda e, portanto, mais caros, como um Romanée-Conti, um Petrus, para citar exemplos extremos, requerem o serviço de um sommelier. Ou seja, rótulos mais simples dispensam qualquer protocolo ou etiqueta, já que, afinal, vinho é, mais do que uma mera bebida alcoólica, um alimento.

Um rótulo comum, portanto, não precisa ser decantado (procedimento cujo objetivo é separar as borras e os sedimentos que, com o tempo, se acumulam no fundo da garrafa e, ao mesmo tempo, o líquido possa liberar seus aromas em contato com o oxigênio) e adotar outros cuidados na hora de servi-lo. Em outras palavras: ao comparar bebidas diferentes de padrões distintos, seria o mesmo que entrar numa agência de carros e o vendedor dizer que um modelo popular oferece o mesmo conforto, tecnologia e potência de uma Ferrari. Como nas redes sociais, você faz cara de paisagem e acredita se quiser.

Gökçe: dublê de instagrammer e chef-churrasqueiro

Vídeos e imagens (Crédito): Google Images, Youtube e Pixabay

Mundialmente conhecido no Instagram e no Youtube por seus vídeos, nos quais ele salga de modo peculiar e quase folclórico suculentos nacos de carne para deleite de clientes famosos como Maradona, Leonel Messi, Leonardo Di Caprio e até o presidente venezuelano Nicolás Maduro – o chef turco Nusret Gökçe se tornou há tempos uma celebridade das redes sociais, onde reúne mais de 23 milhões de seguidores no mundo, entre eles muitos fãs brasileiros.

E bem mais que os seus predicados, talento e conhecimento sobre o ofício de fazer um bom churrasco, foi a sua fama digital planetária que acabou por turbinar uma rede de churrascarias – a Nusr-et Steakhouse -, hoje com unidades espalhadas por uma dezena de cidades da Turquia, Emirados Árabes, Estados Unidos e Grécia. Um corte de Tomahawk, um dos carros-chefes e mais caros de seus restaurantes, pode custar a bagatela de 130 dólares, ou cerca de 530 reais no câmbio de hoje.

Natural de uma pequena vila da etnia curda localizada no leste da Turquia, o dublê de chef-churrasqueiro e instagrammer vem de uma família pobre. Aos 13 anos, largou a escola e virou aprendiz de açougueiro. Depois de morar na Argentina, país produtor de gado de corte e enorme tradição churrasqueira, ali aprimorou sua técnica. Desde 2010, é coproprietário da cadeia de restaurantes Nusr-Et Steakhouse. Mas sua fama global veio em 2017, quando postou um vídeo de 36 segundos cortando e salgando um Tomahawk Steak. Em 48 horas, o post chegou a 2,4 milhões de visualizações.

Mas como muitas histórias recorrentes no mundo da gastronomia em que os holofotes ofuscam e substituem o trabalho duro que se deve fazer dentro da cozinha, as críticas à qualidade dos pratos e as dificuldades financeiras dos últimos tempos mostram que a euforia e o encanto inicial com Gökçe começam a fazer água, ameaçando arruinar o seu império.

Sem tempo mais para se dedicar à grelha, já que posa diariamente para mais de 1.000 fotos, selfies e vídeos onde ele realiza suas performances, os críticos do chef turco apontam o risco iminente dele deixar de ser “modinha” e, assim, perder todo o prestígio conquistado nestes poucos anos junto a seu público cativo.

 O chef espertalhão na companhia de Maradona: claque de ilustres

O fato é que, mesmo com a força das redes sociais, nada substitui o talento e a técnica do cozinheiro em extrair o melhor dos alimentos em cada prato e receita, resultando nos almejados padrão de qualidade e regularidade da cozinha, cânones que são universais em restaurantes de alto nível e de trajetória longeva em todo o mundo.

A chamada gourmetização e demais modismos à mesa, embora tenham uma importância relativa na gastronomia brasileira e mundial como elemento renovador, têm um tempo de validade, já que são passageiras em sua grande maioria.

No universo da restauração profissional, sabe-se, permanece vivo e perene todo lugar que apresenta uma cozinha de qualidade constante e consistente, e que evolui ao longo dos anos, sem no entanto descaracterizar-se e perder sua essência original, independentemente de qualquer onda culinária efêmera, número de likes e montante de grana investida em propaganda.

Nestes casos, portanto, vale a lição de outras duas velhas máximas, que subscrevo embaixo sem hesitar: “mate um leão por dia” e “o boca a boca é a melhor das publicidades”. Para o consumidor, seja ele gourmet ou comilão, são a garantia no prato, sem risco de errar, da qualidade da cozinha e de inequívocos prazeres à mesa.

VÍDEOS PARA CONFERIR:

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste coletivo 
toda quinta-feira. 
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acessando @marcomerguizzo  
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2 comentários em “Cerveja versus vinho, gourmetização… Na briga pelo paladar, os mitos e o que é fake na propaganda e nas redes sociais

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  1. O turco vi na “apresentação ” do Maduro, me pareceu um Romero Britto da gastronomia.
    Como sempre teus textos são irretocáveis.
    A Cervejinha Stella e a propaganda sem graça me lembraram algo divino…007 contra Moscou. A certa altura, o espião russo treinado para imitar Bond, comete um erro ao beliscar um.vinho. 007 solta a ironia

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