Sofás, colchões e restos de móveis inservíveis geram acúmulo de lixo nas ruas e córregos

GERALDO BONADIO – Quantos conjuntos de estofados, colchões e mobiliário novo para cozinhas e dormitórios são vendidos diariamente em Sorocaba? A se julgar pela quantidade de empresas dedicadas à venda desses itens, o número deve ser considerável. As redes especializadas em móveis de baixo custo – como aquela que utiliza como garotos propaganda Zezé di Camargo e Luciano – tem lojas nas ruas e nos shoppings e o financiamento em parcelas “que cabem no seu bolso” e como suporte, setores importantes da economia – florestas homogêneas usadas na produção de mdf e outros aglomerados de madeira, por exemplo – que mantém as transações aquecidas. Recomendações – inclusive de ordem médica – no sentido de que os colchões sejam trocados a curto prazo e o desgaste relativamente rápido dos estofados fornecem um empuxo adicional.

Até aí, tudo normal. A coisa se complica a contar do momento em que, recebido o colchão ou o sofá novo, a pessoa precisa livrar-se das peças que perderam a serventia. De início percebe que a velha solução – repassar sofá e poltronas a um parente ou amigo que está começando a vida de casado – enfrenta rejeição absoluta de parte do suposto beneficiado. Doá-las a um posto de revenda de alguma instituição beneficente? Só se o doador assumir a despesa de transporte e, ainda assim, olhe lá. A coleta de lixo só leva o seu velho colchão se você tiver a pachorra de reduzi-lo a fragmentos inseridos, pouco a pouco, nos sacos de plástico que vão para os contêineres. Como os pontos para descarte de inertes deixaram de existir, muitos, ajustando-se ao descaso geral, terminam por dispor tais resíduos nas ruas de um bairro próximo, ou jogá-los às águas do Sorocaba ou de algum córrego próximo.

Construir uma solução para o problema exige talento para localizar os interessados em se integrarem em alguma etapa do processo de disposição, coleta e reciclagem de resíduos sólidos de tal natureza, assertividade para estruturar uma negociação do tipo ganha-ganha entre as partes e firmeza para montar, na Prefeitura, uma fiscalização eficiente, capaz de distinguir entre quem cumpre as tarefas assumidas e quem as escamoteia, premiando o grupo cooperativo e punindo o recalcitrante.

O lixo é uma decorrência inevitável da civilização. Terceirizar a coleta e disposição, sem rigor na supervisão e controle, é semear corrupção. A primeira grande denúncia contra a Câmara de Sorocaba – que à época acumulava os poderes legislativo e executivo – data de 1897 e diz respeito ao contrato para coleta de lixo. O grupo do ex-ministro Antonio Palocci surgiu e ganhou musculatura quando ele, prefeito de Ribeirão Preto, atulhou as contas bancárias de empresas contratadas para cuidar do lixo, que retribuíram generosamente. E na Itália, pós operação mãos limpas, um dos maiores negócios da máfia, nas grandes cidades, são os contratos do lixo. Os ganhos advêm, principalmente, da falsa reciclagem com a consequente disposição de lixo com alto poder contaminante em aterros clandestinos.

No caso sorocabano, além de montar – ou remontar, pois já tivemos um embrião de atividade de tal natureza em outros tempos – será necessário um trabalho paralelo para educar a população que o simples afastamento dos resíduos não gera a limpeza a que todos aspiram.

À prefeita Jaqueline Coutinho não escasseia experiência administrativa para a difícil empreitada de articular entre si, com o Poder Legislativo e as organizações da sociedade civil, um projeto de tal natureza, nem falta o tino investigativo para pressentir as tentativas de alguns de explorar as inconsistências e limitações do poder público em benefício próprio. Ainda assim, a luta será árdua e, não raro, inglória. Mas essa é, também, uma das muitas prioridades postergadas da cidade que, na ausência de um enfrentamento corajoso das distorções aqui comentadas, terá suas ruas transformadas, em ritmo galopante, num arquipélago de lixões.

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