Uma mulher e o mar

LÚCIA HELENA DE CAMARGO – “Affair”, com quatro temporadas disponíveis na Netflix, é daquelas séries que você começa a assistir quando está procurando algo leve, para espairecer depois de um dia de trabalho estressante ou uma semana cheia de más notícias para o País, daquelas nas quais o presidente compra briga com outros países, fala asneiras e você quer esquecer que ainda restam três anos para as novas eleições.

Embora tenha estreado na televisão americana em 2014, no canal Showtime, só chegou por aqui em 2017. Faz tempo. Talvez muita gente já tenha visto. Você viu? Eu passava batido por ela e sempre assistia outra coisa. Outro dia decidi ver e estou na terceira temporada.

Há um homem casado, com mulher e quatro filhos, que acaba se apaixonando pela garçonete sexy, também casada, e com uma tragédia na vida pessoal que só faz com que ela se torne mais misteriosa e interessante. Soa clichê falando assim? Deve ser um pouco mesmo. Mas as interpretações são muito boas.

Sessões de terapia

É série para quem aprecia intrigas de casais, muita conversa e DR. Alguns episódios parecem sessões de terapia. Aliás, tem um que mostra só isso mesmo. Do começo ao fim dos 50 minutos, acompanhamos apenas uma conversa entre psicanalista e paciente, dentro do consultório. A evolução da conversa vai tirando os véus, um a um, e – pode acreditar – o resultado é ágil. Não fica enfadonho, se você estiver interessado nos desdobramentos.  

Criada pelo israelense Hagai Levi, com roteiro de Sarah Treem, a série tem lá seus macetes, que à medida que você começa a descobrir, podem torrar um pouco a paciência e passar pela cabeça usar o botão de adiantar o vídeo rapidamente, para pular as cenas. Só que como todas as palavras contam, dá medo de perder um diálogo importante e depois não entender mais nada. Então, mesmo quando as sequências arrastadas aparecem, vou resistindo e não pulo.

O que chamei de “macete” talvez seja uma das principais ferramentas narrativas da série. É aquela técnica de exibir duas versões da mesma história, cada vez na visão de um personagem. No início, é curioso acompanhar que, na lembrança de Noah (Dominic West), Allison (Ruth Wilson) usava naquela tarde um vestido curto, e praticamente se atirou para ele, enquanto que nas recordações da moça, ela vestia uma confortável calça jeans e apenas sorriu para o homem, sem dar qualquer chance de maiores avanços. Mas depois de um tempo cansa ficar comparando as versões. Talvez os produtores saibam disso, porque na terceira temporada, embora mantido o formato, as versões se sobrepõem, eliminando as redundâncias.

Há na série até uma personagem que possui nacionalidade brasileira, Julia Goldani Telles. Nascida na Califórnia, tem mãe brasileira e pai mexicano-americano. Ela interpreta a irritante e chatinha filha adolescente de Noah, Whitney.

Oceano é personagem

Grande parte da ação se passa na vila costeira de Montauk em Long Island, nos Estados Unidos. O mar está presente em quase todas as ações, seja motivando, impedindo ou como principal cenário. A canção-tema, na potente voz de Fiona Apple, dá o tom trágico que perpassa toda a ação.

O oceano é exigente, poderoso, cruel e insidioso, insistindo em invadir espaços que não lhe são destinados. Mas ao mesmo tempo é fascinante, generoso e belo. A analogia é clara com a personalidade de Allison, a mulher que dá o tom na série.

Affair é um novelão, em resumo. Com descobertas, intrigas, mortes, mistérios, muitas idas e vindas, amores e, claro, sexo.

Ótimo entretenimento para tirar a cabeça do noticiário lamentável.

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