Um retrato do centro de Sorocaba em 1914

GERALDO BONADIO – Graduado em Direito (FKB) e jornalismo (Uniso), o pesquisador tatuiense Renato Ferreira de Camargo (1939/2012), escreveu e editou um importante conjunto de obras, focadas na história de sua cidade natal.

Sócio correspondente da Academia Sorocabana de Letras, colaborou, de forma sempre generosa, com pesquisadores desta cidade. Cabe-lhe, inclusive, o mérito de haver chamado a atenção para o vínculo entre as origens de Tatuí e o fenômeno do aluguel das pastagens ao redor do entorno de nossa cidade para repouso e engorda das tropas xucras destinadas à histórica feira de muares – que também nesses pastos eram negociadas. Ao falecer, precocemente, deixou inédito resultado de um número considerável de estudos, em variável estágio de elaboração.

Sua incessante curiosidade o levou, inclusive, a mergulhar na autobiografia, ainda inédita, de Eulico Mascarenhas de Queiroz (1903/1953), figura que retratou brevemente num verbete de “Ilustres Cidadãos”, um de seus últimos livros, escrito em parceria com seu filho Christian, igualmente um talentoso jornalista. Nascido em Itapetininga, dentista pela escola pioneira que ali formava odontólogos e farmacêuticos, Queiroz era, também flautista dos mais talentosos, fato que o levou a ser escolhido como primeiro diretor do Conservatório Dramático e Musical “Dr. Carlos de Campos”, deixou, inédito, o livro “Minha vida e gente minha”.

Em “Minha vida e gente minha”, Eulico relata, inclusive, o período imediatamente posterior ao falecimento do pai, prof. Alfredo Teixeira de Queiroz. Então residente em Sorocaba, a família ficou em situação difícil e ele, com 9 anos de idade, precisou arrumar emprego, a fim de auxiliar a mãe, Noemi Mascarenhas de Queiroz, no sustento da casa e dos irmãos.

Ao relato desse momento difícil da vida familiar pertencem os seguintes excertos, que, há coisa de uns vinte anos, Renato me encaminhou para que fossem, como foram ao menos em parte, aproveitados numa edição do Cruzeiro do Sul e, agora, registro a seguir.

Sorocaba – 1912

A família lutava com dificuldades. O aluguel da casa, em Sorocaba, era pago pela maçonaria, instituição onde meu pai chegou ao mais elevado grau e, também, creio eu, em reconhecimento aos Mascarenhas, antigos sorocabanos pertencentes àquela Ordem.

O meu primeiro emprego foi no jornal Cruzeiro do Sul, como entregador (…) {cuja redação e oficina ficava} na rua Monsenhor João Soares. O proprietário (…) era o Nhô Quim Pires. Dava-nos o jornal contadinho e exigia, severamente, a prestação de contas. O exemplar custava 100 réis.

Não trabalhei muito tempo nesse serviço de entrega de jornais. Passei a trabalhar numa grande loja. Propriedade do sr. José Martins de Lima, conhecido por Juca de Lima. Ele tinha dois filhos, um dos quais era o seu sócio-gerente e se chamava Lisípo. O outro, Deusdedit. Excelente flautista, instrumento pelo qual eu tinha verdadeira paixão.

Na loja do seu Lima, era tratado como se fosse da família. Ali eu almoçava, além de ganhar um expressivo auxílio financeiro, ajudando minha mãe, com meus 10 anos de idade.

Primeira Guerra Mundial

Durante a guerra de 1914, pela manhã, reuniam-se na loja homens importantes de Sorocaba, dentre os quais lembro-me do sr. João Teixeira, proprietário da Loja do Sol. O capitão Zé Dias, este um velhinho, bastante velho mesmo, trêmulo e magrinho, que me mandava comprar, todos os dias, na Livraria do Bráulio Werneck, um maço de cigarros Fa-Ci-Co, que custava um tostão, 100 réis, precisamente.

Adorava ler os jornais. Nessa ocasião tinha uma pressa louca de pegar O Estado, para devorar com os olhos o noticiário. Saber quantos navios aliados os alemães haviam afundado com os seus terríveis submarinos. Tinha um ódio aos alemães como nem sei explicar, mas me causava admiração, não inferior ao ódio, a eficiência de suas armas. Se o Kaiser ficasse ao alcance de minhas mãos, creio que eu o estrangularia, se fosse possível, a fim de livrar a humanidade dos malefícios daquela guerra.

Era de ver-se como os frequentadores da Loja da Matriz discutiam e traçavam planos sobre a guerra e os exércitos e suas colocações nos diversos setores. Era tanto o conhecimento daqueles senhores que me espantava não estarem eles nos combates dirigindo os soldados, para assim terminar logo o flagelo.

Na Loja do Sol trabalhava um rapaz que diziam ser nosso parente. Tinha o nome de Aparício. Lembro-me dele. Era um sujeitinho pernóstico, elegante, muito bem vestido e dado a importante. Nunca me simpatize com ele, talvez porque nunca me tivesse dirigido a palavra. E nem fiquei sabendo qual era o seu parentesco conosco.

Foto : Eulico Mascarenhas de Queiroz

{A Loja do Sol ficava na Barão do Rio Branco. À época o Barão estava vivo e atuante e aquela via pública ainda se chamada Rua de Comércio. A de Juca Lima, na qual Eulico trabalhou, achava-se instalada na Rua da Matriz, hoje Coronel Benedito Pires, na esquina com a Penha, cujo prédio, demolido no início da década de 1950, deu lugar a uma edificação de vários andares, ainda existente, em cujo térreo funciona atualmente uma loja de roupas. Ao que me lembro, foi, o mais mais alto da cidade no breve período entre sua conclusão e a inauguração, também na Penha, do “gigantesco” edifício em cujo térreo se instalou a Drogasil, o mais alto da cidade.}

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