Crítica teatro: Dolores

JOSÉ SIMÕES (São Paulo) –  “Dolores” texto e direção de Marcelo Varzea, interpretação de Lara Cordulla, cenário e figurino de Márcio Macena, iluminação de Cesar Pivetti e Vania Jaconis e sonoplastia de Raul Teixeira,  encerra a temporada no Teatro da Memória, no Instituto Cultural Capobianco – São Paulo.

Início o texto apresentando a equipe artística (há outros nomes que escreverei no final) porque o espetáculo foi realizado a partir do encontro e da vontade desse grupo em querer colocar o espetáculo “em cena”. Isto é, se materializou a partir de um financiamento coletivo (vaquinha). Arregaçaram as mangas e foram à luta.

Os financiamentos coletivos tem se tornado uma alternativa para os artistas nesses tempos de recursos escassos para as artes, especificamente, para o teatro. Obrigado aos apoiadores e artistas.

“Dolores” de Marcelo Varzea conta uma boa história. A história da atriz Dolores. O ponto de partida é o convite da atriz a jornalistas para assistir uma única apresentação de O Último Suspiro de Uma Atriz. A partir daí se inicia a narrativa e as surpresas do texto. Não vou contar. Mas aviso: não espere ouvir em cena algo semelhante as “memórias e recordações de uma atriz”.  Nada disso. O autor nos surpreende  com as aventuras e desventuras  da vida vivida da personagem Dolores, a partir de outro ponto de vista. Emociona, faz rir, chorar, tudo junto e misturado. Não é um monólogo, mas monodrama, nas palavras de Anne Ubersfeld.

Marcelo Várzea também assina a direção. Conduz o processo sem amarras e com a liberdade necessária para o espaço do trabalho da atriz. Ao mesmo tempo organiza os tempos e o ritmo das cenas, de tal modo, evita que o espetáculo se torne em algo parecido a “uma conversa de botequim”, ouvida pela mesa ao lado.

A cenografia proposta por Marcio Macena é simples, eficiente e emocionante. Em cena um quadrado, no solo, ladeado por lâmpadas, que metaforicamente nos remete aos espelhos, que existem nos camarins dos teatros (ou mesmo uma ribalta). Este lugar cênico é fundamental para o dialogo  proposto entre o universo da história da atriz e  o jogo com a plateia.

A trilha de Raul Teixeira  e iluminação Cesar Pivetti e Vania Jaconis são,  também responsáveis, por belos contrapontos, ao longo da encenação.

A interpretação de Lara Cordulla brilha neste espetáculo. Ela se agiganta ao entrar em cena – no espelho/ribalta – para contar a vida de Dolores. A atriz desde o início do espetáculo vem disposta a jogar com a plateia. Olho no olho. É certo que, nos minutos iniciais, o publico demora um pouco para entender este jogo. Mas logo se apercebe que esta na frente de um jogo divã, no qual a personagem não guardará segredos e nem mesmo terá “papas na língua” para narrar as suas aventuras.

A proximidade com a plateia não permite a atriz utilize subterfúgios em cena. Não há espaço para disfarces.  Sem truques. Tudo em cena se acresce de significado aos olhos atentos do público. Lara sabe disso e se aproveita de cada detalhe.

Se no início do espetáculo a proposta da atriz é baseada num jogo de perguntas e respostas, na sequencia este  jogo se altera para a sedução.

É nesse momento a atriz  propõe ao espectador um repertório gestual digno de nota. No olhar, no caminhar, no delicado mover dos dedos, no cruzar das pernas, na boca e no riso rasgado. Transita pela comédia, pelo escracho, pela dor do estupro, pela dor dos outros, pelas invencionices dela mesma, pelo cinismo, pela oposição entre sonho e realidade, pela Cabíria (as avessas) que habita nela. Puro teatro.

Por fim, a atriz nos arrebata. Mostra em cena domínio, técnica e, principalmente,  nos contagia com a sua liberdade. Conduz a personagem com habilidade numa linha tênue, pois sabe que qualquer escorregadela, por exemplo, um tom a mais na voz ou uma máscara visual exagerada e pimba! O jogo sedução pode torna-la caricatura e tudo mais virar escracho. Técnica, muita técnica. Em tempos que tudo parece ser ao acaso. Nesse jogo, não.

Vale a pena conhecer Dolores. Mas cuidado. Você pode se apaixonar.

Ficha Técnica

Texto e Direção Marcelo Varzea

Atuação Lara Córdulla

Direção de Movimento Erica Rodrigues

Assistente de Direção Tadeu Freitas

Preparação Corporal Frank Tavanti

Cenário e Figurino Márcio Macena

Desenho de Luz Cesar Pivetti e Vania Jaconis

Trilha Sonora Raul Teixeira

Fotos Wilian Aguiar

Visagismo Anderson Bueno

Design Grafico IGORBDM.COM

Assessoria de imprensa Morente Forte Comunicações

Realização Mava Produções Artísticas

Serviço

DOLORES

Instituto Cultural Capobianco – Teatro da Memória (74 lugares)

Rua Álvaro de Carvalho, 97, Centro (próximo ao metrô Anhangabaú)

Telefone: (11) 3237.1187

Bilheteria: abre uma hora antes do início do espetáculo, nos dias de apresentação.

Vendas: www.ingressorapido.com.br

Terças e quartas às 21h

Ingressos: R$ 40

Duração: 60 minutos

Recomendação: 14 anos

Gênero: comédia dramática

 Estreou dia 04 de junho de 2019

 Temporada: até 25 de setembro

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