Não existe dor pequena ou dor grande. Existe dor.

RITA BRAGATTO – Ele chegou sozinho ao meu consultório. Visivelmente angustiado. Cabeça baixa. Assim que iniciamos a sessão, o que mais me chamou a atenção foi o seu olhar. Era petrificado. Vago. Sem o brilho próprio da vida. Com a voz trêmula me relatou a sua dor, incluindo o plano para acabar com a própria vida. Tinha a ambivalência clássica de um suicida em potencial: o desejo de viver e de morrer duelavam o tempo todo em sua mente. Felizmente, ele conseguiu pedir socorro. E ao encontrar uma escuta profissional e acolhedora reuniu forças para manter-se vivo. Mas nem sempre é assim. A cada quarenta segundos uma pessoa comete suicídio no mundo. E a maioria dos casos poderia ser prevenida. É por isso que é tão importante falarmos a respeito.

Os dados, realmente, são alarmantes. São registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de 1 milhão no mundo. Trata-se de uma triste realidade que registra cada vez mais casos, principalmente entre os jovens. Cerca de 96,5% dos suicídios estavam relacionados a transtornos mentais. Em primeiro lugar está a depressão, seguida de transtorno bipolar e abuso de álcool e drogas. Cada suicídio impacta, pelo menos, outras seis pessoas. Ou seja, todos nós podemos nos deparar com essa situação, seja de forma direta ou indireta.

É comum ao ser humano, em algum momento da vida, pensar em morrer para escapar da angústia da dor ou do sentimento de impotência. Ninguém está imune. Então, neste exato momento, pode ter alguém bem ao seu lado que já pensou ou está pensando em suicídio. Pode ser seu filho. Sua irmã. Seu colega de trabalho. Sua amiga. Seu pai. Ou você mesmo. Diante desta realidade, é bom que você saiba alguns pontos importantes sobre o tema:

Suicídio resulta da interação de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociais, culturais e ambientais. É um problema complexo para o qual não existe uma única causa ou uma única razão. É, realmente, difícil explicar porque algumas pessoas decidem cometer suicídio, enquanto muitos, em situação similar ou pior, não o fazem. Mas a compreensão fica mais fácil quando entendemos que estamos falando de dor emocional, um fator complicado de quantificar. Não é algo que pode ser medido com uma fita métrica ou visível em um exame de Raio-X. Não é palpável. Por isso eu costumo dizer: não existe dor grande ou dor pequena. Existe dor. E quando uma pessoa vê o suicídio como solução ela não quer acabar com a vida; ela quer eliminar esta dor.

Suicídio não escolhe idade, classe social, gênero, religião. Dados apontam que os homens cometem mais suicídio que mulheres, principalmente em função da dificuldade que eles têm de falar sobre suas dores ou fraquezas. O maior número de casos está entre os jovens (15-35 anos) e idosos (acima de 75 anos). Mas as mulheres também se suicidam e este número tem crescido. Sabemos também que pessoas divorciadas, viúvas e solteiras têm maior risco do que pessoas casadas, em função da fragilidade emocional.

A maioria dos que cometem suicídio passou por acontecimentos estressantes nos três meses anteriores, como por exemplo: problemas interpessoais (discussão com esposa, família, amigos, parceiros,..); rejeição; dificuldades financeiras ou no trabalho (demissão); mudanças políticas e econômicas na sociedade; ou ainda vários outros estressores como vergonha e ameaça de serem considerados culpados. Ou seja, todos nós somos passíveis.

Normalmente, a depressão desencadeia uma ampla variedade de dores e queixas vagas. Mas nem sempre isso acontece e, assim, fica mais difícil de ser diagnosticada. As pessoas também estão muito familiarizadas com os sentimentos associados à depressão que não são capazes de reconhecê-los como doença. Ou então ficam constrangidas em admitir que estão deprimidas, porque vêem os sintomas como “sinal de fraqueza”. Por isso a importância da conscientização. Do olhar mais humano e legítimo diante das dores alheias e próprias.

Nenhum pedido de ajuda deve ser ignorado. A maioria dos suicidas comunica seus pensamentos e intenções. Eles dão sinais e fazem comentários objetivos como “quero morrer” ou mais sutis como “não vejo mais sentido em viver”, “estou cansado da vida”. Mas as pessoas que escutam não levam a sério esses “pedidos de socorro”. Ou escutam e rebatem dizendo: “ah, sua situação não é tão grave assim”; “tem gente passando por coisas piores neste momento”; “você precisa sair dessa”; “você é muito negativo; precisa olhar o lado bom da vida”, entre outras. Nenhuma dessas falas ajuda a pessoa com risco de suicídio. Neste momento, ela precisa de acolhimento. De empatia. De alguém que diga: “eu vejo a sua dor. E estou aqui com você. Você é importante para mim. Vamos passar juntos por isso. Estou aqui para te ajudar.”

Três características, em particular, são próprias do estado de mentes suicidas:

  • ambivalência: a maioria das pessoas já teve sentimentos confusos de cometer suicídio. O desejo de viver e de morrer batalham numa gangorra. Há uma urgência em sair da dor de viver e um desejo de viver. Muitas pessoas suicidas não querem realmente morrer. Eles querem matar a dor. Se tiverem apoio emocional e o desejo de viver aumentar, o risco de suicídio diminui.
  • impulsividade: suicídio é também um ato impulsivo. Como qualquer outro impulso, ele é transitório e dura alguns minutos ou horas. É, usualmente, desencadeado por eventos negativos do dia a dia. Acalmando tal crise e ganhando tempo, o profissional de saúde pode ajudar a diminuir o desejo do suicida.
  • rigidez: quando pessoas estão neste estágio emocional, seus pensamentos, sentimentos e ações estão constritos, quer dizer: elas constantemente pensam sobre suicídio e não são capazes de perceber outras maneiras de sair do problema. Elas pensam rígida e drasticamente. O trabalho terapêutico tem o objetivo de preencher uma lacuna criada pelo desespero, pela falta de horizontes. Com a ajuda de medicamentos específicos é possível criar condições para que elas consigam voltar a enxergar oportunidades de mudança. O importante é que ela não se sinta sozinha.

E por fim, ao contrário da crença popular, falar a respeito de suicídio não coloca a ideia na cabeça das pessoas. De fato, elas ficarão agradecidas e aliviadas de poder falar abertamente sobre os assuntos e questões com as quais estão se debatendo. A conversa pode abrir novas perspectivas. Tendo em vista que tirar a própria vida é uma decisão extrema para fugir do que é considerado um problema sem solução, a melhor forma de evitá-lo é detectar quando a possibilidade existe e agir a tempo.

Se você conhece alguém com sintomas de depressão, fala frequentemente sobre morte ou apresenta algum dos comportamentos apontados acima, não hesite em orientar ou até mesmo acompanhar essa pessoa a uma ajuda especializada, seja com um terapeuta ou no Centro de Valorização da Vida (CVV). É muito importante que a sociedade como um todo (família, amigos, escola e grupos de trabalho) esteja atenta aos menores sinais, disposta e preparada para discutir o tema e encaminhar a pessoa para um tratamento que trará um novo olhar sobre a vida e a vontade de prosseguir. Ajude a salvar vidas.

Rita Bragatto é psicanalista e jornalista
Email: rita.bragatto@gmail.com
Facebook: https://www.facebook.com/rita.bragatto.escritora/

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