Beijo. Bacium. Kiss. E uma lição de descompostura.

FREDERICO MORIARTY – O beijo. Ou no italiano, il bacio, a língua escorre deliciosamente pela boca. Em inglês, ao pronunciarmos kiss, prendemos a língua sensualmente entre os dentes. Em alemão, não é muito agradável falar Kuss. Tem ainda o beso, em castelhano, originário do termo em latim basium. Para dizer a palavra na língua falada na Roma Antiga, exige-se a movimentação dos mesmos doze músculos necessários para tascar um delicioso beijo. (Em tempo: a imagem de capa deste post é a mais antiga fotografia lésbica da história. Foi produzida em um estúdio de retratos da CM Bell, Washington, em 1.900).

O beijo mais singelo do cinema é de 1955 do simpático casal de cãezinhos de “A dama e o vagabundo”. Quem nunca tentou repetir a cena do macarrão com a pessoa amada?

Dizem os antropólogos que não havia o beijo. É uma invenção cultural da humanidade. E que os beijos lascivos, carnudos, quentes ou com línguas num balé de desejo, foram impostos pelo cinema. Só na cabeça de teóricos se vê tamanha bobagem. Beijo sempre existiu. Se não há provas arqueológicas deles, é porque os amantes estavam a se beijar e nem se preocuparam em gravar na memória o ato. Muito menos tirar sélfis de beijos (os antigos preferiam beijar a expor aos outros a falsa felicidade).

Muito antes do cinema: casal localizado no sítio arqueológico de Teppe Hasanlu (Azerbaijão). Duas universidades dataram o beijo da despedida em 800 a.C.. Aparentemente, os dois esqueletos tem a mesma altura. Não há consenso, mas há possibilidades do casal ser o de dois homens.

Mais gostoso, sempre foi e será, ficar beijando. Até pássaros sabem disso. Nestes dias, vi um casal de pombos na calçada. Dançavam um em volta do outro e se beijavam despudoradamente à minha frente. Resolvi até fotografar e eles nem aí. O beijo os consumia. Continuaram dançando e beijando (então, senhor cientista, em que lugar eles viram cenas de beijo e resolveram repetir tal movimento forçado?).

O beijo tem tantas cores quanto gostos. Há aqueles doces e suaves, como a manhã fresca. Outros são doloridos e sentidos, como a morte. Tem os desprevenidos como a infância. Os roubados e ansiosos, como o que dei em Luana há 7 anos. Beijos que duram uma eternidade. Àqueles pecaminosos, obscenos, proibidos, dados em praça pública ou nos quartos escuros. Há até beijos que adoecem e matam.

O beijo terno entre dois homens que se amam no filme Asas, de 1927, o primeiro a vencer o Oscar de melhor filme da Academia hollywoodiana. Buddy Rogers beija o soldado Richard Allen, à beira da morte.


Mas também há os beijos de cinema, tanto os que damos vez ou outra, como os que assistimos. O beijo de Rick (Humpfrey Bogart) em Ilsa (Ingrid Bergman), no clássico Casablanca (1942). Beijo em que ela, sem ar e controle, desfalece o braço e vira a taça de vinho. Rhett Butler (Clark Gable) em Scarlet Ohara (Vivian Leigh), em O vento Levou (1939). Existe o beijo de Gregory Peck em Deborah Kerr, em A um passo da eternidade (1953), quase uma cena de sexo explícito.

Os beijos antológicos de Hollywood literalmente de cinema: em Casablanca,
… em E o Vento Levou,,,
… e no clássico A Um Passo da Eternidade

Há os beijos de traição, de vidas e amores. Judas beijou Jesus em troca de moedas. Michael Corleone (Al Pacino) beija o irmão Freddo (John Cazzale) em Godfather 2 e depois avisa “ eu sei que foi você”. Othelo, o mouro de Veneza, peça de Shakespeare, o protagonista é induzido por Iago, um ser repugnante e tomado de inveja, a acreditar que Desdemôna, amada de Othelo, o traíra. Um pano e um beijo que leva a uma dupla tragédia de dois seres que tanto se amavam.

A força do amor homoafetivo em Brokeback Mountain

Beijos são polêmicos por existirem em meio às pessoas preocupadas em produzir, ganhar, empreender. Beijos gays, então, devem ser o primeiro passo para o inferno. Como o de Brokeback Mountain (2006), um beijo de amor, tesão e desespero ao mesmo tempo entre os dois rancheiros norte-americanos. Em novelas brasileiras demorou muito. Meu primo Flavio Roberto, afirma que o beijo gay da novela Amor à Vida (2014) de Walcir Carrasco, permitido entre Matheus Solano (Felix) e Thiago Fragoso (Nico),  foi um tapa na cara da sociedade hipócrita e conservadora. Não vi, mas deve ter toda a razão. Beijos são revolucionários só por existirem.

Amor à Vida: a cena em que a tradicional família brasileira entrou em pânico

Então  olhamos pra certos políticos, religiosos e xerifes (devassos) da moral alheia e eles escorrem tanto ódio, ignorância e intolerância que não merecem sequer um beijo, somente o asco. São o oposto da beleza e maravilha que o encontro de dois lábios, duas bocas, duas almas podem proporcionar e sentir. Eles recolhem desavergonhadamente livros e revistas com material dito obsceno. Fazem isso com tanta hipocrisia quanto às exigências de dízimos e propinas que nos impõe.

A HQ da Marvel “Os vingadores – a cruzada das crianças”, obra de 2010 e que finalmente foi lançada no Brasil na Bienal do Rio de 2019 e a “terrível” cena do beijo gay. Como sobreviver a isso? – perguntam-se os novos ditadores do país.

Quantas músicas. Marisa Monte canta “beija eu, seja eu”, pois ao beijar o outro, deixamos de ser um pouco nós mesmos e passamos a pertencer ao outro. Blade Runner de 1984, a música de Vangelis (ouça, clicando aqui), a cantora pede um beijo a mais. O genial Prince é simples: Kiss (para assistir, clique aqui). Mais interessante, a música Kiss fica na interpretação de Julia Roberts, no filme Uma Linda Mulher. Não deixe de ver, logo aí abaixo.

No fundo, todos sabemos, beijar é bom e faz falta. Pode-se dizer bom dia com um selinho ou com um beijo um pouco picante (não se esquecendo de higienizar a boca antes). Podemos beijar antes do almoço ou depois do jantar ou, ao contrário, ou dos dois jeitos. Beijar o rosto, beijar a mão em agradecimento. Beijar os olhos da pessoa amada, ah, como agrada…

Até um beijo de desgosto é do nosso gosto. Beijar é pra todo dia e feriado. Sei que dar as mãos e abraçar também confortam, entretanto o beijo, ah, este serve pra dor e pra delícia, pro prazer e pra preguiça, pro amor e pra malícia. Então sabe o que fazer? Levanta agora desse cadeira ou sofá,  sai das redes sociais e do Terceira Margem e vai até a pessoa que ama e lhe dá um beijo de arrancar pedaço, como se fosse o primeiro e último, como se fosse a dor e o contentamento, a esperança e o lamento. 

Escultura icônica de Auguste Rodin no Museu Rodin, em Paris

2 comentários em “Beijo. Bacium. Kiss. E uma lição de descompostura.

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  1. Texto delicioso, maravilhoso, perfeito. É só o que posso dizer. Agora, com licença. Vou acordar a Sandra com um beijo.

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