Tubaína e gengibirra: dois refrigerantes de sotaque e jeitão caipiras para brindar os seis primeiros meses do Terceira Margem

MARCO MERGUIZZO – Expressão no copo da verdadeira caipirice, bem que poderia ser uma boa marvada de alambique, como a do meu post anterior (leia o texto, clicando aqui). Ou, segundo reza a convenção, uma taça borbulhante de champanhe ou de um bom espumante brasileiro para brindar comme il faut a passagem dos primeiros seis meses de vida do Coletivo Terceira Margem, recém-completados neste sábado, dia 14.

No entanto, nada como um copo de tubaína ou gengibirra bem geladinhas, de sotaque e alma genuinamente de interior e paladares democráticos, para ser o tema deste meu 37º post e, assim marcar de forma simbólica essa data, homenageando a todos os colegas, bons e legítimos “caipiras de espírito”, que abraçaram e navegam nesse projeto digital coletivo multitemático e pluricultural feito a 32 mãos.

Durante o transcorrer desse tempo, em meio às incertezas geradas por um cenário obscuro que vilaniza e penaliza a educação, a ciência e a cultura em meio a uma sucessão de retrocessos sociais e políticos – um time de dezoito blogueiros de diferentes expertises e talentos, vivendo em Sorocaba e em outros lugares, inclusive fora do Brasil, produziu bravamente, nestas 26 semanas, de modo exclusivo e quase ininterrupto, uma coleção de 300 preciosos artigos, textos e vídeos sobre temas universais dos mais variados e de inequívoco valor jornalístico, literário e cultural, com abordagens sempre originais, antenadas e atuais.

Bravo, companheiros! Valeu pelos ensinamentos, pela camaradagem, pela companhia e pela saborosa viagem até aqui. Minha admiração por cada um de vocês. Continuemos juntos, remando, em frente, sem deixar a peteca cair, acreditando nos nossos sonhos e no de um país melhor e mais justo. E, oxalá, a paixão que empreendemos até agora jamais esmoreça. Um agradecimento especial também aos leitores e seguidores do Terceira Margem, pelos likes, comentários e, sobretudo, pela cumplicidade de ideias e ideais.

E segue o show. Que venham outros seis meses. E mais seis e outros seis…

Vida longa ao Coletivo Terceira Margem! Santé!

Doce nostalgia
Sabor e chiado inconfundíveis no copo (Fotos: Arquivo e Divulgação)

Sabe aquele gostinho de infância vivida no interior? Feitos dos extratos de guaraná e tutti-frutti, seus ingredientes basilares, as fórmulas simplérrimas e autenticamente caipiras da tubaína e gengibirra, fazem até hoje muitas gerações de marmanjos, como a minha, a dos cinquentões, abrirem o sorriso e suspirarem de saudade ao lembrarem dos sabores irresistíveis desses refrescos gasosos que transbordavam no copo, com aquelas bolinhas e chiado inconfundíveis, inebriando nosso paladar e os nossos corações.

Sinônimos de refrigerante regional, ambos foram criados aqui mesmo, no Brasil, por imigrantes italianos e portugueses e seus descendentes, já há mais de um século. Embora a molecada de hoje adepta de dietas “saudáveis” e hábitos “fitness” não os aprecie ou tampouco os conheça – tais bebidas gasosas de paladar docinho são reverenciadas por uma legião de saudosistas de plantão de todas as idades.

Tamanho prestígio e longevidade no copo se consolidou graças não só ao gosto peculiar das tubaínas, cuja fórmula inclui invariavelmente o guaraná como base principal acrescido de outras essências de frutas, o que agradou em cheio, desde o princípio, ao brasileiro, como a própria sobrevivência de pequenas indústrias espalhadas pelo país, que continuaram a fabricá-las ao longo de décadas, a fim de atender a um nicho de consumidores apaixonados por essa bebida de DNA tipicamente nacional mas com diferentes pronúncias regionais.

Hoje, embora não seja tarefa das mais simples encontrá-las nas gôndolas dos supermercados e no comércio local, em Sorocaba e região ainda é possível saboreá-las em restaurantes populares, em padarias e bares de bairro e no centro da cidade. Num passado não tão longínquo, tanto a tubaína quanto a gengibirra tinham presença quase que obrigatória à mesa das famílias brasileiras de renda mais baixa.

Vale lembrar que a tradicional e deliciosa combinação “tubaína-pão-com- mortadela” foi – e ainda o é em alguns lugares do Brasil – o “mata-fome” número um de todo estudante e de pessoas mais humildes. Uma garrafa de 600ml da tradicional tubaína rendia quatro copos e custava menos que uma Coca-Cola de 300ml, o que a tornava o líquido preferido para acompanhar um bom sanduíche de mortadela, o embutido mais barato que havia.

Hoje em dia, essa apreciada e gostosa dobradinha para lá de popular também foi “gourmetizada”, ampliando o seu “status social” e prestígio gastronômico, garantindo um lugar cativo na geladeira, no copo e na mesa do brasileiro de todas as classes.

No balcão, um highlander pop
A piracicabana Orlando é uma das fabricantes mais antigas de tubaína

Uma trajetória longeva e incomum de um produto 100% nacional tão rara como as dos chocolates Bis e Diamante Negro, da Lacta, também uma indústria originalmente paulistana e que hoje pertence ao conglomerado multinacional Mondelēz International, Inc., cujas delícias de cacau já beiram, respectivamente, aos 80 e 90 anos.

Este último clássico chocolate, vale lembrar, até hoje um campeão de vendas, foi criado nos final dos anos 30 para homenagear o jogador Leônidas da Silva, o autor do primeiro gol de bicicleta feito em uma Copa de Mundo (a de 1938, na França), um movimento plástico no qual o atleta levanta as duas pernas e faz um giro sobre si mesmo para chutar a bola.

Elaboradas, há mais de um século, com os mesmos ingredientes – guaraná e extrato de tutti-frutti -, a vizinha Piracicaba é considerada o berço das tubaínas paulistas.

Ou seja: de refrigerante popular, a tubaína, ou “taubaína”, em bom caipirês, virou uma bebida cult. Mais: de marca de refrigerante virou sinônimo de bebida gasosa regional. Mas, ao contrário da procedência gringa de grande parte dos refrescos com gás consumidos no país, como a viciante Coca-Cola, uma das campeãs de preferência não só local mas mundial, e cuja fórmula foi criada há mais de 130 anos pelo farmacêutico norte-americano John Pemberton (1831-1888) – a tubaína, assim como a gengibirra, são bebidas autênticas e originais. Melhor: nascidas aqui mesmo no interior paulista, tem gosto, alma e jeitão caipiras.

De sabor sentimental e afetivo que remete à meninice, essas bebidas gasosas de paladar docinho trazem à memória aqueles almoços familiares de domingo onde imperavam a inescapável macarronada com frango, o pudim de leite furadinho ou os raros e proibitivos pêssegos em calda – considerada uma sobremesa “chique”! – servidos com creme de leite, dueto enlatado hoje vilanizado pelas nutrólogos de hoje. Mas quem não provou que atire a primeira pedra!…

E mesmo sob os olhares desabonadores da turma de corneteiros de uma alimentação natural e saudável e do nariz torcido dos guardiões nutricionais e dos patrulheiros da obesidade alheia, a saga centenária e a redenção das tubaínas estão felizmente garantidos no copo, no paladar e no coração dos consumidores.

Em décadas passadas, era costume a criançada se juntar para saborear uma tubaína no boteco da esquina, na mercearia ou vendinha do bairro, depois de empinar pipa, jogar bets e bolinha de gude na rua.

De marca a gênero de refrigerante

Embora não haja uma “certidão de nascimento” oficial, há várias versões sobre a origem da Tubaína. Todas, porém, apontam para a vizinha Piracicaba, a cerca de 107 km de Sorocaba, como berço do refrigerante. Produzida naquela conhecida cidade do interior paulista desde a última década do século 19, dois fabricantes de lá – as famílias Andrade e Orlando – são considerados as pioneiros, indicando uma dupla paternidade e a primazia de dividirem a criação desse refrigerante de paladar típico.

Na verdade, um deles, José Miguel do clã Andrade, foi quem de fato teria criado a fórmula, que foi batizada nos primórdios, pelo filho, Thales, de Cotubaína (cotuba, era uma gíria usada à época para dizer que era uma coisa “legal” e descolada). A Etubaina Orlando, por sua vez, spo entrou em produção nos anos 10 do século passado. Fundada pelo imigrante italiano Vicente Orlando em 1913, a Fábrica de Refrigerantes Orlando criou seu refresco gasoso à base de banana, pêssego, pera e morango.

Os refrescos gasosos foram introduzidos no Brasil por imigrantes portugueses e italianos durante o século XIX. Além de refrigerantes, as primeiras fábricas luso-brasileiras e ítalo-brasileiras também produziam cervejas, aguardentes e licores.

Seu sabor doce logo conquistou os piracicabanos, tornando a Etubaina um dos refrigerantes mais vendidos à época. Hoje é a marca mais antiga ainda em produção. A receita utilizada na Etubaina Orlando foi criada pela família Andrade que era “concorrente”, porém, amiga da família Orlando.

Feito de uma mistura de essências de frutas, recebia a denominação genérica de “tubaína”, sendo que cada fabricante criava a sua mistura. Com o passar do tempo a fórmula da Etubaina tornou-se um refrigerante de guaraná com aroma de abacaxi, morango e maçã, mantendo até hoje o mesmo sabor docinho e refrescante.

Além destas duas marcas pioneiras de Piracicaba, a empresa Ferráspari de Jundiaí, fundada em 1935, registrou a marca “turbaína” como sinônimo de refrescos, trazendo para si a responsabilidade de ter inventado o produto. Em qualquer fórmula ou marca, ela é sempre feita com a fruta guaraná, com o acréscimo do extrato de frutas mistas, ou tutti-frutti, que varia um pouco conforme a receita, geralmente uma receita de família. Seu sabor é semelhante em todas as variações.

A partir de uma decisão de 2015, da juíza Vanessa Velloso Silva Sad, quando arbitrou uma disputa entre a empresa Ferráspari, de Jundiaí, dona do nome Turbaína (desde os anos 30) e Tubaína (desde os anos 50) e a Brasil Kirin, que controlava à época a marca Schincariol e o nome Itubaína, e pertencente, a partir de 2017, à multinacional holandesa Heineken – o nome Tubaína não pode mais, legalmente, ser considerado uma marca, e, sim, a designação de um determinado gênero de refrigerante.

TUBAÍNAS TRADICIONAIS AINDA EM PRODUÇÃO

Arco Iris, Bacana, Cibel, Cruzeiro, Conquista, Cotuba, Cristalina, Don, Estrela, Etubaína Orlando, Funada, Frutty Bom, Guarany, Itubaína, Jaboti, Ligiane, Mate Couro, Minada, São José, Simba, Tatuína, Tubaína Baré, Tuiubaína e Turbaína.

MARCAS QUE JÁ DESAPARECERAM

Bremer, Cajaína, Elite, Itubraina Gilda, Tabaína, Tubaína Rainha e Tupinambá.

Genbibirra: origem lusitana

A receita de gengibre, farinha de milho, açúcar mascavo, casca de limão e água, que fermenta por uma semana até ficar pronta, existe no interior de São Paulo, no Paraná, no Rio Grande do Norte e nas festas negras do Mazagão Velho, no Amapá. A gengibirra, que podemos considerar hoje um gênero de Tubaína, foi uma das primeiras bebidas populares a agradar ao paladar do brasileiro, tendo resistido ao tempo, graças às tradições culturais e aos apreciadores saudosistas desse tipo de refrigerante regional.

De acordo com o pesquisador e editor do blog Cervisiafilia, Carlos Alberto Tavares Coutinho, a gengibirra teria surgido no Brasil, durante o período imperial, um hábito cultivado e importado dos colonizadores portugueses. Ela começou a ser comercializada, no Rio de Janeiro, então a capital do país, no final da década de 1830, em garrafas e até em canecas ao preço de 80 réis. “

A gengibirra era encontrada em botijas louçadas e já à época, dividia a sua embalagem com a cerveja, assim como as tubaínas fazem até hoje. Eram garrafas com rolhas, amarradas com barbantes, que estouravam ao se abrir”, descreve Coutinho.

Das receitas originais de gengibirra que se espalharam pelo Brasil algumas levam só abacaxi; em outras, só cachaça; noutras, estes dois ingredientes e ainda, uma versão alcoólica feita de cachaça e gengibre. Muito consumida até hoje no Amapá, a gengibirra anima o Marabaixo, uma festa tradicional africana, que chegou ao Brasil com os negros marroquinos trazidos nos navios portugueses.

A receita do fermento do gengibre é antiga, provavelmente indo-europeia. Há registros antigos de uso de bebidas fermentadas de gengibre na Grécia e na Roma antigas, e na Europa medieval. No Reino Unido, em meados do século XVIII, surgiu a primeira versão comercial alcoólica: a ginger beer, uma cerveja que leva gengibre em sua composição.

Na Itália, as cervejas são chamadas por lá de birras. Logo, a versão peninsular da ginger beer se tornou ginger birra, daí, supõe-se, que para o nome de batismo da nossa gengibirra – gasosa e sem álcool – tenha sido um pulo.

Nos Estados Unidos, há a soda Ginger Ale, desde 1822, mas a primeira marca registrada foi a do farmacêutico Thomas Cantrel, datada de 1851.  A bebida de Cantrel era feita pela fábrica Grattan and Company, com o slogan “The Original Makers of Ginger Ale” gravado nas garrafas. O gênero ginger ale, na versão de refrigerante, ficou famoso nos Estados Unidos e no Canadá, entre 1860 e 1930.

No Brasil, o sucesso dos refrigerantes à base de gengibre também é antigo mas por serem fabricados por empresas pequenas que acabaram fechando as portas ao longo do tempo. eles foram desaparecendo com elas. Uma das antigas e tradicionais do interior paulista, a gengibirra Orlando de Piracicaba é produzida desde 1913, e só é encontrada em garrafas grandes de 750ml. As famosas caçulinhas deixaram de ser comercializadas já há alguns anos, uma pena.

Caracterizado pela leve acidez, o gosto da gengibirra é delicioso e refrescante. Lembra uma soda limão tradicional, mas com um leve toque de gengibre e açúcar na medida certa. O rótulo branco com raios vermelhos é um primor vintage.

A Limongi, de 1917, que também preserva o gênero em São Paulo, produz a gengibirra até hoje em garrafas pet de 2litros. Outros fabricantes abandonaram o gengibre e cederam ao limão da receita, virando sodinhas, mais populares e comerciais.

Uma das melhores gengibirras brasileiras é produzida desde os anos 60 pela Cini, do Paraná, que mantêm fiéis a fórmula original de paladar ácido do limão e o toque sutil de gengibre. Já a canadense Canada Dry seja, talvez, a melhor de todas a gengibirras que provei. Leva limão siciliano e ostenta um fundo picante proveniente do gengibre, que deixa na boca um sabor e frescor incomparáveis, com gostinho de quero mais.

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste coletivo 
toda sexta-feira. 
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acessando @marcomerguizzo  
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2 comentários em “Tubaína e gengibirra: dois refrigerantes de sotaque e jeitão caipiras para brindar os seis primeiros meses do Terceira Margem

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  1. Um brinde com taubaína, que é como falávamos aqui no Além-Ponte, aos seis meses do Terceira Margem, ao seu excelente artigo e à nossa amizade. Saúde! Que venham muitos e muitos artigos deliciosos como este!

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