Bacurau: filme-porrada

LÚCIA HELENA DE CAMARGO – “Bacurau” é o filme-porrada do ano. Ganhador do prêmio do júri no Festival de Cinema de Cannes de 2019, poderia ser um daqueles longas intelectuais e rebuscados. Mas não é. Os críticos gostaram, sim, mas o público tem gostado também. E vale o ingresso. Brasileiro, fala de causas e problemas que acometem gente da região Nordeste, como a sempre presente seca. Só que vai além. É um longa-metragem para o público adulto, seja brasileiro, francês, japonês. A história é universal.

Embora já tenham sido veiculadas diversas críticas nas quais são revelados pontos-chaves da história, aqui não vou falar deles, porque um dos charmes é ir descobrindo aos poucos, ao longo da exibição, que catso está acontecendo em Bacurau, o povoado perdido no meio do sertão nordestino, habitado por gente pobre, que batalha para sobreviver, mas também se diverte.

Sonia Braga

No enterro de dona Carmelita, octogenária conhecida por todos na região, ficamos conhecendo figuras como Domingas, a médica da comunidade, vivida por Sonia Braga, que se mostra com cabelos brancos e desgrenhados, rugas e pouca maquiagem. A atriz, que já foi símbolo sexual, expõe a cara, deixa a vaidade de lado e manda bem. É a segunda colaboração dela com os diretores, com quem já trabalhou em “Aquarius” (2016).

Um dos grandes trunfos de “Bacurau” é que ninguém ali é coitadinho ou acanhado. Sem melindres, as pessoas falam o que pensam, buscam o que querem, não esperam benesses do prefeito, que visita a cidade apenas em tempos de eleições para pedir votos. Vão à luta por seus interesses. Literalmente.  

Violência à Tarantino

Há um grupo de americanos que atiram nas pessoas por motivos inicialmente misteriosos. Ou banais. Ou ambos. “Bacurau” é um filme extremamente violento. Lembre de “Pulp Fiction” e imagine uma trama de Quentin Tarantino ambientada em Alagoas, por exemplo. Dá uma ideia. Assim como nos roteiros do americano, em meio ao sangue que jorra, há momentos de humor e ironia. “Quem nasce em Bacurau é o quê?”, pergunta o forasteiro. “É gente!”, responde o menino.

O componente da ficção científica, com uso de gadgets que ainda não estão no mercado (como o tradutor de idiomas portátil), serve só para chamar a atenção, pois quase não faz diferença na ação. Escrito e dirigido pelos pernambucanos Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, mais fortes são as referências a Lampião e as críticas ao modo pelo qual os moradores do Sudeste costumam enxergar as demais regiões do País. A visão embaçada pela empáfia e preconceitos. Todos esses elementos se concatenam de maneira a perfazer o melhor filme brasileiro dos últimos anos.

Filmado no povoado de Barras, no Rio Grande do Norte, onde não chovia há sete anos antes do início das gravações, os diretores não cansam de afirmar em entrevistas que a história pode, sim, ser interpretada como uma metáfora do Brasil. Seria bom, na verdade, que os brasileiros fossem mais parecidos com os moradores de Bacurau, pelo menos no sentimento de união necessário para uma defesa coletiva daquilo que é realmente importante para todos. Talvez conseguíssemos reunir cidadãos dispostos a sair do lamaçal de atos tacanhos e falta de discernimento no qual atolamos.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: