Manual de Sobrevivência no Inferno para Pretos e Pobres no Brasil

FREDERICO MORIARTY – Sexta-feira quente, eu voltava de São Paulo. Cometa lotado. A única diversão da gente era o velho walkman. Ouvia uma fita dos Paralamas do Sucesso. Os PMs armados voltavam para casa com um riso indisfarçável. Horas depois, descobri a notícia: naquele 2 de outubro de 1992, para conter uma suposta rebelião na maior casa de Detenção da América Latina, denominada de Carandiru, 111 presos foram mortos, a maioria deles com tiros na nuca, a mando do facínora governador paulista Luiz Antonio Fleury, ex-secretário de segurança, ex-promotor, ex-delegado e ex-“poste” de um dos mais corruptos políticos de nossa história, o campineiro Orestes Quércia, que, em 27 anos, foi de vereador a governador de São Paulo, e ao falecer, em 2011, deixou uma fortuna que passava de R$ 1,5 bilhão.

Nos churrascos em família se ouvia: “Que pena, deviam ter matado todos”. Nas periferias a frase era: “Sem justiça não há paz”. Numa sociedade cindida, a violência era um rio de sangue que separava as duas margens. Para enfrentar o Estado e os lacaios do capital, como diria Marx em relação a polícia, nascia no ano seguinte a mais poderosa organização criminosa de nosso país: o Primeiro Comando da Capital (PCC).

O crime organizado que após 26 anos de existência transmutou-se num Estado dentro do Estado. Um poder paralelo. O massacre do Carandiru não trouxe a paz dos cemitérios como queriam os políticos e setores mais abastados de nosso país. Ofereceu-nos a guerra infinita da violência urbana.

Os presos rendidos no pátio do Carandiru, em 1992 (Fotos: Arquivo)
Cadinho cultural

A década anterior ao massacre, a de 1980, foi das mais terríveis de nossa economia. O desemprego atingiu taxas alarmantes. Segundo o Dieese (Departamento de Estatísticas Intersindicais e Pesquisas Socioeconômicas), somente na Grande São Paulo chegou a 21,9% em 1989. Entre os jovens, as taxas subiam para 37%. Praticamente de cada 10 homens ou mulheres de 20 poucos anos, quatro não sabiam o que era carteira assinada.

Foram duas grandes recessões: a primeira, mais longa, entre 1983 e1984 e a segunda, de 1988 a 1989. Para piorar, havia a hiperinflação que saltou dos 2 dígitos ao mês em 1981 para atingir quase 90% no Natal de 1989. Supermercados eram saqueados, greves estouravam todo dia (os jornais traziam dados como ” já passam de 770 greves este ano…”), havia fome, carestia, desesperança, recessão e muita, muita violência urbana.

O número de homicídios em São Paulo aproximou-se de 5.000 ao ano em 1990. Todos, simplesmente todos os dados estatísticos possuíam números bem piores entre os negros. O desemprego era 25% maior, quase 70% dos homicídios eram de negros e jovens, nas universidades aos negros não cabiam os bancos escolares, mas as latrinas tomadas de vômito das festas estudantis.

Ser jovem e negro no Brasil constituía-se em sobreviver entre a morte e o desespero. Contrariavam as estatísticas uma meia dúzia de neguinhos bons de bola e alguns artistas. Foi nessa atmosfera brutal e racialmente semelhante à África do Sul do apartheid que KL Jay, Edi Rock, Ice Blue e Mano Brown resolveram montar um grupo de rap ou hip hop em 1987: uma erupção vulcânica na música e letra do Rock e MPB nacional. Das periferias da Zona Norte e Sul de São Paulo nascia o Racionais MC.

Origens externas

Nos anos 60 vivia-se num turbilhão político nos Estados Unidos com os protestos contra a Guerra do Vietnã, a contracultura, o rock e Woodstock, a luta pelos direitos civis dos negros e a ascensão das minorias. Não bastasse isso, três assassinatos incendiaram o país: do presidente John Kennedy e dos ativistas negros Martin Luther King e Malcom-X.

Malcom-X: um dos principais porta-vozes do ativismo negro nos anos 1960

Mas e a periferia? E os guetos? O que se fazia pelos negros e latinos do Bronx, do Harlem, de Chicago, Detroit, Los Angeles ou da racista Mississipi? Uma sociedade de consumo em avanço legislativo mas com exclusão de afro-americanos e hispânicos. Consumo para estes dois somente as balas de 38, as quentinhas das penitenciárias e os caixões brancos das funerárias. A Crise do Petróleo (1973), a dispendiosa Guerra do Vietnã e o custo absurdo da Guerra Fria levaram os Estados Unidos à uma brutal recessão. A revolução tecnológica da 3° onda começava a ceifar empregos e empresas.

Como sempre, os jovens sofriam mais com a crise. Como sempre as minorias, os negros e os latinos eram os mais atingidos. Das ruas de Nova York e Detroit formou-se a cultura hip hop. ‘Black is beautiful”, diziam os movimentos negros no fim dos 60. Black Power defendia as organizações políticas. O negro pode e deve ter seu espaço na sociedade capitalista e se for preciso, lutar por isso. Como dizia Malcom-X, não existe violência contra o racismo mas legítima defesa.

Hip Hop era música de três elementos: rimas poéticas poderosas, ritmo sincopado e sampleado e temática que denunciava o racismo, a desigualdade social e a opressão policial e do Estado. Dava voz aos excluídos, aos desvalidos da História, àqueles que viviam às margens do sistema. Rhythm And Poetry, ou simplesmente RAP, derivava do hip hop. De bandas como Africa Bambaata, passando pela maior de todas, Public Enemy, até Run DMZ, o estilo musical saiu da periferia das grandes cidades norte-americanas para o mundo.

Mas o Hip Hop era muito mais. Havia uma dança repleta de ginga, requebros e virtuosismo, incapaz de ser imitada pelos travados homens brancos que não sabiam enterrar: o breake dance. Nas paredes das ruas e prédios abandonados expressava-se uma nova forma de arte plástica, o grafitte e seu filho rejeitado, o pixo. As roupas largas e acetinadas, os óculos escuros, o indefectível boné e as pulseiras e colares de ouro saíram do Norte de Manhattan para todas as vitrinas de xópins do planeta.

Sem grana pra comprar os tênis Adidas, All Star, Puma ou Reebok, negros e latinos calçavam uma marca mais barata e que não ligava em ter seus modelos vestindo os afro-americanos e os hispânicos. Sim, prezadxs leitorxs, a Nike teve um passado. Animando as festas com seus Disk Jóqueis (DJs) e Masters of Ceremonys (MCs), com músicas clássicas do soul, do funk, do gospel, sampleadas por sistemas de som poderosos e muitas “pick-ups” (nossas velhas vitrolas), A vida era uma festa nos intervalos do sofrimento contínuo da realidade do trabalho e das obrigações.

A voz dos excluídos

Em 1987, em meio ao caos econômico, ao desemprego e à violência urbana, nascia os Racionais MC’s, nosso maior conjunto de Rap ou Hip Hop. Das periferias da capital paulista para o mundo em pouco mais de 30 anos. Os quatro jovens (quase todos tinham menos de 20 anos) gravaram seu primeiro clipe no ano seguinte: Tempos Difíceis. A letra poderosa e a influência do Public Enemy são evidentes.

Nos anos seguintes, o grupo cresceu em fãs. Os shows já não cabiam mais em pequenas quadras. Jovens mulheres e homens cantavam as longas letras em êxtase. Como eles mesmo escreveram, das falhas do sistema os Racionais se expandiram. Alguns confrontos com a polícia, críticas as letras vez ou outra machistas, prisões, a atitude rebelde e revolucionária estava presente na banda.

Entre 1991 e 2017, lançaram apenas seis CDs, todos com músicas quilométricas, de rimas muito bem construídas e ritmos cadenciados e alguns casos com balanço. Os Racionais traziam a voz dos negros e pobres excluídos. Muitos questionamentos e revelações. Muitas perguntas.

Capa do disco de 1974 de Tim Maia: fonte onde bebeu o Racionais MC’s

Como sobreviver numa sociedade historicamente racista e excludente? Os Racionais trouxeram para a música algo jamais visto no Brasil. Sem ser música de protesto, eles desnudaram a face do mal secular, com muito ritmo e rima. A polícia que, contraditoriamente tinha a missão de manter a paz e a segurança, nada mais era do que um agente público a proteger o patrimônio privado, a farda que faz o mal de Negro Drama:

… recebe o mérito, a farda que pratica o mal
Me ver pobre, preso ou morto já é cultural
Histórias, registros e escritos
Não é conto, nem fábula, lenda ou mito
Não foi sempre dito que preto não tem vez?
Então, olha o castelo e não foi você quem fez, cuzão
Eu sou irmão dos meus truta de batalha
Eu era a carne agora sou a própria navalha
Tim-tim, um brinde pra mim …

Negro Drama. Presente no CD “Nada Como Um Dia Atrás do Outro” (2002)

Quem são os ídolos? Quem são os negros que inspiram os Racionais MC’s? Os heróis por quem vale a pena lutar? Ao longo das músicas, eles vão deixando claro qual o caldo cultural em que bebem. Racionais é o hip hop e rap brasileiros. Seguem os passos do soul e do funk antigo do Parliament Funkadelic. Mestre mesmo é o Public Enemy com seus refrões bombásticos “Fear at the Black Planet” ou “Fight the Power”, o maior grupo do estilo Rap do mundo, o qual os Racionais tiveram a honra de abrir um show em 1995.

Por aqui, há uma proximidade com o balanço de Jorge Ben (antes do Benjor) e, óbvio, de Tim Maia, nossa maior voz da black music. Foi Tim Maia que, no início dos anos 70, aderiu à Cultura Racional e lançou alguns discos sob influência de duas estrelas da Motown: Marvin Gaye e Barry White. Além destes dois, ela foi a primeira gravadora a produzir discos somente de artistas negros, como Jackson 5, Michael Jackson e The Supremes. O nome escolhido em 1987 pela banda era uma homenagem ao síndico Tim Maia: Racionais.

Na política, principalmente em Mano Brown, a identificação com o Partido dos Trabalhadores (PT) sempre foi grande. Do passado político e revolucionário, vale elogiar as lideranças negras como a de Zumbi. Afora isso, os Racionais sempre buscaram desenvolver projetos sociais nas periferias, participar de escolas e oficinas de música e dança, criaram gravadoras independentes, como a Cosa Nostra, e grifes de roupas. Um rol de possibilidades para a comunidade negra e pobre das favelas e periferias de São Paulo. No cenário internacional, eles se identificam com os grandes líderes negros, como Nelson Mandela na África do Sul.

Nas artes, o mano é Spike Lee. O maior cineasta negro que existe. Seus filmes mais importantes tratam do racismo, da violência policial, da desigualdade social (nos Estados Unidos), do preconceito e da falsa premissa da “meritocracia”. Foi Spike Lee que nos fez conhecer melhor quem era Malcom-X. Filmes como “Faça a Coisa Certa” (Do the right thing. 1989), “Febre da Selva” (Jungle Fever. 1992), “A Hora do Show” (Black Face, 2000), “Malcom-X” (1991) e o último e premiado com Oscar “Infiltrados na Khan” (BlacK Khansman, 2018). Spike Lee escreve, dirige, produz e atua em seus filmes.

O genial diretor Spike Lee: produção engajada que põe o dedo na ferida


O julgamento feito pelos Racionais MC’s é cabal: ou você é negro e defende a causa negra, a luta dos antepassados, combate o racismo ou nada mais é do que um traidor, um canalha:

… Gosto de Nelson Mandela, admiro Spike Lee
Zumbi, um grande herói, o maior daqui
São importantes pra mim, mas você ri e dá as costas
Então acho que sei da porra que você gosta
Se vestir como playboy, frequentar danceterias

(…)

Mas nosso júri é racional, não falha!
(Por quê?) Não somos fãs de canalha!
“Por unanimidade, o júri deste tribunal declara a ação procedente
E considera o réu culpado por ignorar a luta dos antepassados negros
Por menosprezar a cultura negra milenar
Por humilhar e ridicularizar os demais irmãos
Sendo instrumento voluntário do inimigo racista
Caso encerrado”

Júri Racional. Presente no CD “Raio X do Brasil” (1992)

Qual a perspectiva de vida de um(a) jovem pobre e afrodescendente no Brasil? Nenhuma. Apenas sobreviver. A realidade é a do desemprego, da violência, da morte, da exclusão. Como ficar em paz com essa realidade? Como acreditar no futuro? Como extirpar a maldade do pensamento? Para eles, com a luta cotidiana e permanente. Com a denúncia contra a opressão do sistema. Reverter o racismo não com boas atitudes mas, sim, por meio da revolução. Qual revolução? A da música, a da estética. Criar espaços nas falhas do próprio sistema. Os Racionais não são um partido político. A fórmula da paz é o ritmo e a poesia:

… Eu sei como é que é, é foda parceiro
É, a maldade na cabeça o dia inteiro
Nada de roupa, nada de carro, sem emprego
Não tem IBOPE, não tem rolê, sem dinheiro
Sendo assim, sem chance, sem mulher
Você sabe muito bem o que ela quer, é
Encontre uma de caráter se você puder
É embaçado ou não é?
Ninguém é mais que ninguém, absolutamente
Aqui quem fala é mais um sobrevivente …

Fórmula Mágica da Paz. Presente no CD “Sobrevivendo no Inferno” (1997)

Em Capítulo 4, Versículo 3, eles cantam o retrato da sociedade brasileira. Não são herdeiros como a quase totalidade de nossas elites (econômicas, políticas, jurídicas etc.). A meritocracia é uma farsa. O Brasil é profundamente desigual e injusto. A violência não germina nas favelas, periferias e guetos, como queria, lá no século XIX, Aluísio de Azevedo e o seu “O Cortiço”, e que muitos, até hoje, continuam pregando.

A violência é um reflexo da brutal desigualdade, do racismo, da falta de oportunidades. É um efeito colateral do sistema capitalista. É a alternativa para a sobrevivência num país em que ser pobre, preto ou periférico, ou os três ao mesmo tempo, torna quase inviável ter alguma perspectiva. Mas os Racionais tem a esperança: são mais de 50 mil manos os seguindo, como cantam em “Sobrevivendo no Inferno”.

Humildade da Letra, o CD de 1997, mesmo produzido por uma gravadora independente, sem os Racionais aparecendo em canal de TV algum, sem “jabás” para as rádios, com vendas quase no boca-a-boca, atingiu 1,6 milhão de unidades vendidas. O comercial de TV não engana a periferia.

… Não tive pai, não sou herdeiro
Se eu fosse aquele cara que se humilha no sinal
Por menos de um real minha chance era pouca
Mas se eu fosse aquele moleque de toca
Que engatilha e enfia o cano dentro da sua boca
De quebrada, sem roupa você e sua mina
Um, dois, nem me viu, já sumi na neblina
Mais não permaneço vivo prossigo a mística
Vinte e sete anos contrariando a estatística
Seu comercial de TV não me engana eh
Eu não preciso de status nem fama
Seu carro e sua grana já não me seduz
E nem a sua puta de olhos azuis
Eu sou apenas um rapaz latino americano
Apoiado por mais de cinquenta mil manos
Efeito colateral que o seu sistema fez
Racionais, Capítulo 4 Versículo 3

Capítulo 4, Versículo 3. Presente no Disco “Sobrevivendo no Inferno” (1997)

“Diário de Um Detento” coloca um narrador-personagem novo em nossa música: o excluído, a escória, o resto da sociedade, o preso. A temática original e revolucionária dos Racionais era dar voz para um detento contar a sua versão da história, tudo no dia 3 de outubro de 1992. Ou seja, o narrador é um sobrevivente de dois infernos: o brasileiro e o do Carandiru. O preso não pede perdão, o preso não diz ser inocente, apenas canta seu lamento:

… Cada detento uma mãe, uma crença
Cada crime uma sentença
Cada sentença um motivo, uma história
De lágrima, sangue, vidas inglórias
Abandono, miséria, ódio, sofrimento
Desprezo, desilusão, ação do tempo
Misture bem essa química, pronto
Eis um novo detento …

Diário de um Detento. Presente no CD “Sobrevivendo no Inferno” (1997)

O ex-secretário Luiz Antonio Fleury, hoje com 70 anos, à época do massacre

A cena final do maior massacre de presos de nossa história traz versos poderosos. O pátio é o inferno. A penitenciária ao lado da estação Tietê do metrô é um rio de sangue. Sangue dos inocentes. Mas muitos criticam: são bandidos! Certo, mas naquela tarde cruel de sexta-feira eram inocentes. Os Racionais MC’s afirmam: até Hitler sorriria de felicidade com as medidas de Fleury e seus policiais robocops.

Quase 20 anos depois, vários deles foram condenados a cento e poucos anos de cadeia. O coronel Ubiratan, líder do ataque, pegou mais de 600 anos de cadeia. Posteriormente, num recurso judicial, foi absolvido de todas as 102 mortes consideradas criminosas, pois 23 dos 25 desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo não acreditaram no depoimento do detento:

… Cadáveres no poço, no pátio interno
Adolf Hitler sorri no inferno
O Robocop do governo é frio, não sente pena
Só ódio e ri como a hiena
Ra-tá-tá-tá, Fleury e sua gangue
Vão nadar numa piscina de sangue
Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
Dia 3 de outubro, diário de um detento

Diário de um Detento. Presente no CD “Sobrevivendo no Inferno” (1997)

Goste-se ou não do estilo, concorde-se ou não com as profundas e contundentes ideias dos Racionais MC’s, é inegável a qualidade musical, a capacidade linguística das letras e a temática inovadora e real do que é tornado poesia. E a poesia também vem da dor. Ela só não pode apagar o futuro e nos legar desesperança. Os Racionais MC’s são um sopro de vitalidade, perseverança e luta para a Justiça e a Paz em nosso país.

RACIONAIS MC’S PARA OUVIR E PENSAR:

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