Zé Muleque, o leva e traz (conto). Parte 2: Uma cabeça prestes a rolar

José Carlos Fineis

Leia a primeira parte deste conto clicanco aqui.

O problema óbvio da foice é que, como toda arma branca, não é algo com que se possa reagir contra um revólver ou uma espingarda, por exemplo. A não ser em situações excepcionais em que os adversários estejam confinados em espaços muito pequenos, como dentro de um elevador, uma foice ou faca tem pouca serventia diante de uma ofensiva com arma de fogo, e se alguém, algum dia, achou que isso poderia ser diferente, não está mais vivo para contar a história.

A foice, por suas limitações de alcance e por exigir que quem a manipula se exponha de corpo inteiro, só funciona contra armas de fogo quando posta para funcionar antes que um ataque seja iniciado. Isso obriga quem a usa como arma a desenvolver os sentidos muito além do normal, de maneira a captar, no olhar, na respiração, nos gestos e até no odor do possível agressor a intenção de atacar, e atacá-lo primeiro, pagando-o de surpresa antes de tocar em sua arma.

Como que para compensar essa desvantagem, pesa a favor da foice o terror que ela inspira, quando aplicada com vigor em certas partes do corpo humano. Os resultados de um ataque a foice são sempre horrendos e tendem a despertar nos oponentes um medo primal, absoluto. João da Foice sabia disso, e só por essa razão o cerco à picape do Coronel Augusto, tramado para impedir que Zé Muleque deixasse a cidade vivo, durou pouco mais de dez minutos e fracassou de forma trágica para um dos autores do bloqueio, cuja cabeça terminou separada do corpo, depois de voar pelos ares espargindo sangue e rolar pela estrada poeirenta, sem perceber o que havia lhe ocorrido.

Mais não direi por enquanto. Às vezes me esqueço que agora sou contista, e não mais um escrevinhador de notícias policiais. A cabeça decepada que no noticiário sensacionalista aparece logo no título pode, na narrativa literária, ser cortada aos poucos, ou na última linha, ou, se o texto for uma obra aberta, até mesmo permanecer como uma sugestão ou um mistério, para que o leitor tire livremente suas conclusões do que pode ter ocorrido e a quem. Mas esta não é uma obra aberta e prometo contar de quem foi a cabeça que rolou no pó da estrada, embora possa assegurar, desde já, que isso fará pouca ou nenhuma diferença no contexto dos episódios narrados.


Era quase hora do almoço quando Zé Muleque, resgatado por Coronel Augusto e João da Foice da emboscada no gabinete do prefeito, chegou à fazenda do coronel, seguindo a picape gigantesca do protetor e anjo da guarda com seu Citroenzinho. Como todos os visitantes do coronel, Zé foi convidado – e desta vez, em vista do nervosismo em que se encontrava, aceitou sem os gracejos de sempre – a engolir meio copo da pinga feita ali mesmo, no velho engenho da fazenda, e que todos elogiavam lambendo os beiços na presença do fazendeiro, mas comentavam, em sua ausência, ser aquela a pior pinga não só da cidade e região, mas provavelmente de todo o Brasil.

O líquido desceu queimando o esôfago de Zé Muleque, que pela primeira vez na vida pediu mais uma dose. Ainda com a sensação de ter engolido um tição, Zé sentiu os músculos relaxarem e se esparramou com um longo suspiro na poltrona macia da sala do coronel – aquela mesma onde, cerca de dois anos antes, havia feito com o anfitrião o trato que acabaria por engendrar os conflitos daquela manhã.

Havia muito Zé Muleque frequentava a fazenda do coronel. Mais precisamente, desde os 17 anos, quando se apaixonou por Beth, a filha mais nova de Augusto, e criou coragem para ir pedir-lhe a mão da moça, sem antes nem sequer se declarar a ela. Lá se iam quantos? Vinte anos? Devia ser isso, pois Zé nunca esqueceu o tema da conversa introdutória, mantida naquela primeira conversa com o coronel que conhecia apenas de vista: falaram sobre o então assunto do momento, as denúncias de compra de votos para a reeleição presidente do então presidente da República Fernando Henrique Cardoso.

Quebrado o gelo como esse lero-lero sobre política e um brinde com a maldita pinga, Coronel Augusto, sempre muito cortês no trato com as pessoas, perguntou a Zé Muleque o básico: quem eram seu pai e sua mãe, qual sua ocupação e algo muito importante para aquele fazendeiro: se Zé pretendia fazer faculdade. Zé estava nervoso, mas a pinga do coronel, misturada ao sangue virgem de um quase adolescente, deu-lhe a coragem necessária para contar, vencendo a confusão mental, ser filho de Luiz Firmiano, dono de uma agroindústria de porte respeitável onde não só ele, mas seus três irmãos, cunhadas, alguns primos e tios trabalhavam ou fingiam trabalhar.

Naquela época, Zé (que ainda era não tinha esse apelido e se apresentava como Luiz Antônio) planejava cursar veterinária, projeto que abandonaria pouco depois, em parte devido à decepção que teria naquela noite em que conheceu o coronel. E isso porque o Zé, menino criado em família de posses, sem preparo para receber um “não”, caiu das nuvens quando o coronel, sem rodeios, mandou chamar a filha e lhe perguntou – ali, na frente do Zé – se conhecia aquele moço e se queria alguma coisa com ele.

Beth, que tinha um sorriso de namoradeira, ouviu a pergunta do pai arregalando os olhos e com uma expressão divertida de surpresa, pois sequer imaginava que aquele rapaz, que mal conhecia de vista na escola, sonhava ser o pai de seus filhos.

Educada, embora sem esconder que achava aquilo tudo muito engraçado, abaixou-se e sussurrou no ouvido do pai que conhecia o moço apenas de vista, que ele não fazia seu tipo e que ela não pensava em compromisso no momento, já que alimentava o propósito de, terminado o segundo grau, fazer um bom curso universitário fora da cidade, arrumar um emprego e “conhecer a vida”. Arrematou, meio feminista que era, que não lhe passava pela cabeça namorar, noivar, casar e muito menos “lavar a cueca de ninguém”.

O coronel agradeceu à filha e lhe disse que podia voltar ao que estava fazendo. Depois, com delicadeza, mas uma objetividade cortante, informou ao Zé o que Beth acabara de lhe dizer, suprimindo a parte da cueca e acrescentando um “sinto muito” por conta do espírito de solidariedade natural entre os homens e de uma certa piedade que sentiu por aquele rapaz.

Deu-se então que Zé não obteve a mão de Beth, mas se tornou presença constante na fazenda, primeiro como colega de bate-papo e depois como amigo do Coronel Augusto.

O fazendeiro deve ter visto alguma qualidade no rapaz, ou talvez sentido por ele uma afeição paternal, já que, viúvo havia muitos anos, só tinha filhas mulheres com as quais dificilmente se conectava – e sentia falta de alguém para conversar sobre assuntos que os roceiros geralmente não compreendiam, como a reeleição de Fernando Henrique, por exemplo.

Zé também ganhou pontos com o coronel quando, ainda numa das primeiras visitas a convite, perguntou-lhe se podia ser sincero, e disse-lhe, com educada firmeza, ser aquela pinga que o coronel produzia o pior veneno que jamais experimentara em toda sua vida. Zé não sabia que o coronel sabia que sua pinga era ruim, e que o coronel a utilizava, na verdade, quase como um teste de sinceridade com seus visitantes. Aqueles que elogiavam a pinga – uma lista imensa, que incluía o padre e o atual prefeito, a quem o fazendeiro apoiara com seu prestígio pessoal e doações informais para campanha –, ele tinha na conta de pessoas falsas e não confiáveis.


O tempo passou, Beth foi embora para a cidade grande e Zé, que jamais levara a sério o projeto de se tornar veterinário, optou por ficar por ali, trabalhando na empresa dos pais, ora metido no almoxarifado, ora no setor de embalagens, ora passando cantadas nas moças encarregadas de selecionar, lavar e encaixotar as laranjas, os morangos e as maçãs. A família, porém, percebendo que Zé não fazia diferença na empresa, e algumas vezes mais atrapalhava do que ajudava, foi deixando de lhe dar tarefas até que ele percebeu que podia receber seu pro labore sem o labore propriamente dito. Se fosse à empresa ou não fosse, ninguém reclamava ou dava por sua falta, de forma que acabou se desligando e se tornando alguém com dinheiro e tempo livre, que precisavam ser gastos de alguma maneira.

Zé, que não se casou nem teve, ao que se saiba, amantes ou filhos, passou a ser um daqueles tipos que parecem estar em todos os lugares ao mesmo tempo, que conversam com todos – da filha de Maria ao pai de santo – e que sabem qual casal está brigado, quem traiu quem, quem deu desfalque na empresa, quem não pagou o dízimo, quem pagou para o filho não repetir de ano. Ora debruçado no caixa da loja de seu Yang, ora lendo o jornal no salão de barbeiro, ora imiscuindo-se nas rodas de fiéis que fofocavam na calçada em frente a igreja, Zé acumulou informações que dariam para escrever um compêndio sobre a vida privada dos moradores daquela sonolenta porém buliçosa cidade do sudeste paulista.

Um tipo assim é sempre útil na vida pública, e a estreia de Zé nos círculos do poder ocorreu quando o advogado Manoel Botelho, seu amigo de infância, decidiu se candidatar a prefeito.

Zé Muluque fez a aproximação entre Botelho e o Coronel Augusto, o principal financiador das campanhas eleitorais na cidade e considerado, fosse por seu dinheiro, fosse por ser muito conhecido e estimado na cidade, o voto mais influente e quem na verdade escolhia quem iria se sentar na cadeira de prefeito.

A intervenção de Zé, no entanto, era quase desnecessária, já que o Coronel Augusto conhecia de longa data o velho Botelho, pai do pré-candidato e dono da farmácia mais antiga do local, com quem o coronel, desde a juventude, curava desde unhas encravadas até, segundo eu soube, uma incômoda gonorreia, contraída numa de suas incursões secretas pela zona de Campinas. Foi Botelho, o pai, quem esteve ao lado do coronel durante a longa e dolorosa agonia de Mirtes, mulher do fazendeiro, e que muitas vezes acompanhava o casal para as sessões de quimioterapia no hospital

da cidade-sede daquela região. Essas coisas criam laços de gratidão que o tempo não apaga, e que o Coronel Augusto quis honrar, tendo já o velho Botelho falecido, fazendo de seu filho o prefeito da cidade.

Eleito o filho do boticário, Zé Muleque ganhou passe livre para entrar na Prefeitura na hora que quisesse e até para dar ordens aos funcionários, já que tinha, mais que um cargo nomeado, a amizade e o respaldo do prefeito.

A intimidade com o poder era o que faltava para Zé Muleque se tornar a principal fonte de informações oficiais, oficiosas e extraoficiais da cidade. Sua facilidade natural de obter informações sobre o que ocorria na prefeitura não passou despercebida ao Coronel Augusto, que, apesar de ter apoiado a eleição de Manoel Botelho, logo desde o começo de seu governo se sentiu, com uma certa surpresa e decepção, excluído do núcleo do poder, como se seu apoio decisivo não merecesse qualquer prestação de contas, ainda que como cidadão e munícipe, daquele a quem havia transferido parte do prestígio e influência.

Foi por isso que, numa das visitas constantes do Zé a sua fazenda, o Coronel Augusto decidiu propor ao amigo que o ajudasse a saber o que de mais relevante ocorria na prefeitura. Corriam boatos de ilegalidades – essas que o leitor está cansado de ler e que podem ser resumidas com o nome genérico de “desvio de dinheiro”.

Zé relutou um pouco, mas só um pouco, em se tornar informante do coronel, embora, sem o perceber, já exercesse essa função de maneira espontânea, porém não oficial e sistemática, em suas conversas frequentes com o fazendeiro.

Um certo questionamento ético perpassou a consciência do Zé, que chegou a manifestá-lo ao amigo. Mas Coronel Augusto foi convincente na defesa de seu pedido, alegando que, como cidadão e principal contribuinte de impostos da localidade, tinha o direito de saber tudo o que se relacionasse aos negócios públicos.

O prefeito Botelho – ensinou o coronel, citando inclusive a Constituição de 1988 – tinha o dever de trabalhar de forma transparente e de prestar contas de seus atos não apenas a ele, Augusto, que praticamente pagava seu salário, mas a todo e qualquer munícipe, e inclusive àqueles que não votaram nele.

Pensando bem, creio que Zé teria atendido o coronel de qualquer maneira, mesmo que seus argumentos não fossem tão republicanos. E isso porque, nessas tantas visitas à fazenda do coronel, Zé e Beth, que terminado o curso universitário não sei bem de quê voltara solteira para a casa do pai, enxergou em Zé algum atrativo que lhe passara despercebido anos antes, e começou — como dizer? – não propriamente um namoro, mas algo muito próximo disso com o melhor amigo do pai, deixando-se rolar com ele na grama e quedar deitada a seu lado por horas e horas, olhando as nuvens e jogando conversa fora, sempre que o coronel estava ausente. Beth conhecia cada reduto da fazenda, cada clareira e cachoeira por onde as pessoas jamais passavam, e espaço não faltava para que aquele relacionamento, não sei dizer se amor ou apenas um bem-querer temperado com sexo, se expandisse entre risos, beijos e afagos, no gramado rente às copas altas das árvores, do espelho d’água até as estrelas nele refletidas.

Ilustração: O Ceifeiro, de Edvard Munch

Nota do autor: este conto foi programado para ser publicado em duas etapas, e a segunda parte estava prometida para algumas semanas atrás. Questões de reposicionamento profissional me impediram, no entanto, de concluir a história dentro do prazo, da forma como fora concebida. Enquanto isso, ela fermentou e ganhou novos desdobramentos, passando de dois para (por enquanto) três partes. Prometo publicar a conclusão o mais rapidamente possível, na medida em que o tempo e a inspiração permitirem.

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