Geógrafo anarquista visitou Sorocaba e documentou o declínio da feira de muares

GERALDO BONADIO – Durante a segunda metade do século XIX, na Europa e, posteriormente, na América, duas correntes de pensamento disputaram os corações e mentes dos partidários da revolução social: o anarquismo, cujo principal formulador foi o russo Mikhail Bakunin (1814-1876), e o socialismo que, após o Manifesto Comunista dos alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels, publicado em 1848, transitou do terreno das utopias para uma visão fundada no materialismo dialético.

Partidário e amigo de Bakunin, o francês Elisée Reclus (1830-1905) somou à sua visão doutrinária a condição de autor de importantes estudos e pesquisas geográficas, notadamente na área da Geografia Humana.

Autor de uma Nova Geografia Universal, que o credencia, inclusive, como pioneiro da ecologia, em 1893, para escrevê-la, visitou o Brasil, Uruguai, Argentina e Chile. O volume dedicado ao Brasil, publicado na França em 1897 e traduzido para o português em 1899, relata, inclusive, sua visita à região de Sorocaba, onde observou o comércio de muares e documentou o declínio da feira de muares, por ele atribuída, principalmente, aos caminhos alternativos criados pelos trilhos da Sorocabana, os quais permitiam fazer com que as mulas chegassem aos seus adquirentes finais, sem passar por este município.

Sem prejuízo de tais mudanças, as tropas cargueiras continuavam sendo essenciais ao transporte terrestre no interior do país, inclusive em Minas Gerais, onde um desenhista de sua equipe registrou o transporte de minério em lombo de mula.

Participante ativo da Comuna de Paris, em 1871, Reclus, após o término da insurreição, fora preso e condenado ao degredo para alguma remota colônia francesa. Um movimento de intelectuais de diferentes países obteve a mudança da pena em expulsão para a Suíça. Um objetivo secundário de seu périplo de pesquisas destinada à NGU foi o de contatar os núcleos anarquistas dos países visitados, mas, que se saiba, não existem registros de que tenha mantido encontros desse tipo em sua passagem por Sorocaba, onde somente em 1910 se constitui uma Liga Anarquista.

Suas constatações relativas a Sorocaba e à fábrica de ferro de Ipanema são as seguintes:

“Sorocaba, situada a 111 quilômetros a Oeste de São Paulo, sobre um afluente meridional do Tietê oferece – caso virgem no Estado de São Paulo – a imagem da decadência. As estradas de ferro, que levaram a prosperidade a tantas outras cidades, arruinaram esta. Foi outrora o mercado central de gado, e especialmente de mulas mandadas pelos criadores do Rio Grande do Sul, que os fazendeiros de Minas e das outras províncias vinham comprar. Muitas vezes se reuniam naquela feira perto de 200.000 animais; pode-se dizer que Sorocaba, graças à sua importância pelo lado da união econômica e comercial do Brasil, exerceu papel de primeira ordem para a unidade nacional. As mulas do Rio Grande atravessam hoje, como dantes, os Estados de Santa Catarina e do Paraná e entram por Faxina no Estado de São Paulo. Mas chegando às diversas estações, são remetidas em grandes lotes pelas estradas de ferro para o interior e para o litoral [e assim] cada dia decresce o valor da feira de Sorocaba.

Perto dali também tem estado em risco de morrer outra indústria, a do ferro. A povoação de Ipanema, ou do “rio Inútil”, que tirou o nome do rio que coleia no vale e vai lançar-se no rio Sorocaba, é famosa em mineralogia pelas suas colinas de minério ferruginoso que fornece 70 a 80 por cento de metal puro e de excelente qualidade. Sem ser preciso desbastar a rocha, bastaria juntar os fragmentos desagregados, esparsos pelo solo, para alimentar por anos as maiores metalúrgicas. Não obstante isto, o estabelecimento ali fundado em 1811 e que depois se transformou muitas vezes sob a tutela direta do governo, não prosperou; exemplo notável da incapacidade do Estado quando entra em concorrência com a indústria particular. Todos os trabalhos custam mais do que rendem, e o morro de ferro de Araçoiaba (970 metros) está quase desaproveitado.” (Élisée Reclus. Estados Unidos do Brasil – Geografia, Etnografia, Estatística. Rio de Janeiro : Garnier, 1899, p. 336 a 338)

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