Não morreu Nina Horta, apenas nina em nossos corações e nos livros de cozinha a grande dama da crônica gastronômica brasileira

MARCO MERGUIZZO – Quem é fã do bem comer e de bem escrever, como este jornalista e dublê de blogueiro, ficou bem triste neste domingo, 6 de outubro. Aos 86 anos, boa parte deles dedicados aos deleites da boa mesa e da escrita esmerada, morreu desafortunadamente a cronista, escritora, colunista, tradutora e empresária Nina Horta.

Mestra e referência para várias gerações de leitores e jornalistas, como a minha, a grande dama do cronismo gastronômico brasileiro escreveu durante mais de três décadas, na Folha de S.Paulo, artigos preciosos e imprescindíveis. Desde 1987, ano em que começou a assinar suas crônicas – gênero de texto que passeia pelo jornalístico e literário abordando temas sob um olhar pessoal e subjetivo -, cometia verdadeiros tratados culinários temperados com boas pitadas de originalidade, bom humor e elegância.

Tive o privilégio de lê-la e de acompanhar toda a qualidade, consistência e generosidade de seu trabalho com a reverência e idolatria de um aprendiz. Classe de 1933 (mesmo ano de nascimento de outro craque da crônica, o jornalista e contista Lourenço Diaferia, de quem sou também um admirador), Nina Horta nasceu em Belo Horizonte, a capital mineira, mas viveu em São Paulo a maior parte de sua vida. Poliglota versada em cinco idiomas e intelectual de quatro costados, formou-se em filosofia da educação na Universidade de São Paulo (USP) em 1969.

“Não é sopa”, sua primeira coletânea de crônicas, foi lançada em 1995. Ganhou o prêmio Jabuti de Gastronomia em 2016 com o livro “O Frango Ensopado da Minha Mãe” (Companhia das Letras), que reuniu algumas de suas deliciosas crônicas. Além do trabalho como cronista, Nina foi tradutora de alguns livros sobre o universo da boa mesa e cultura gastronômica. Sua mais recente obra, lançada em 2019, é o “Sal, Gordura, Ácido, Calor”, da chef e culinarista californiana Samin Nosrat, colunista do The NY Times e apresentadora de documentários na TV americana.

O livro, que investiga a fundo a influência dos elementos na cozinha, inspirou a série Salt Fat Acid Heat, da Netflix, na qual a própria Nosrat atua como protagonista, e cujo prefácio é assinado por Michael Pollan, autor de best-sellers gastronômicos, como “O Dilema do Onívoro” e “Em Defesa da Comida”. O último texto de Nina Horta publicado na Folha é de 6 de fevereiro deste ano. Com o título “Pequenas Coisas”, a crônica contava a história de uma casa que ficou imune à tragédia de Brumadinho, poucas semanas antes.

Desde então, sem novas publicações, Nina passou a receber mensagens carinhosas em seu perfil no Facebook que questionavam por onde ela andava. Viúva, a escritora deixa três filhos, uma trinca de netos e um bisneto. Seu velório e enterro acontecem nesta segunda-feira (7), no cemitério do Morumbi, em São Paulo.

Nine e descanse em paz, Nina.

O seu legado, crônicas e livros continuarão a embalar nossa eterna fome de conhecimento.

Nosso paladar, mentes e corações te agradecem.

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste coletivo 
toda quinta-feira. 
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