Por que precisamos da Cultura?

JOSÉ SIMÕES –  Por que o incentivo à Cultura é importante para a cidade? Estado? Pais?

Porque ao se promover a Cultura se estimula o bem viver, a cidadania e a reflexão acerca do mundo. Simples.

Porém para se estimular a Cultura é preciso saber o que é e o que não é Cultura.

A Cultura e as Artes são próximas e, muitas vezes, dada a proximidade das atividades, o observador externo poderá dizer que são a mesma coisa. Isto é, pode confundir Cultura com Arte e vice-versa. Mas elas são diferentes.

Cultura e o Entretenimento também têm as suas aproximações. Mas são coisas diferentes.

A Secretaria da Cultura num munícipio, portanto, tem tarefas que ultrapassam o envolvimento direto com os artistas, as artes e os eventos.  A Cultura é muito mais!

É justamente esta falta de clareza que muitas vezes transformam as secretarias da Cultura num balcão de eventos, numa de secretaria de “artistas”, num “quase buffet” de aluguel de cadeiras, som e espaço para festas e, principalmente, num espaço com ausência de politicas publicas destinadas à Cultura.

A Cultura (com C maiúsculo) é uma palavra polissêmica (àquela que se atribui vários sentidos) com inúmeras definições. Desde a singela “cultivar” as qualidades do homem até outras mais elaboradas e de acordo com este tempo de uma “terceira natureza”. Nesse sentido, a que mais utilizo é a proposta por Terry Eagleton, em seu livro A Ideia de Cultura (2005), que em termos gerais afirma a Cultura como aquilo que nos dá sentido e uma finalidade para se viver. Por exemplo: o Afeto, o relacionamento, a memória, o parentesco, o lugar, a comunidade, a satisfação emocional e o prazer intelectual. Destacando também os artefatos culturais: a música, a literatura, o teatro, etc.

É bem por isso, que a Cultura deve ser central num governo e numa cidade. Uma vez que se relaciona, nesse conjunto, com noções fundamentais para os cidadãos: pertencimento e o bem viver.

Quanto mais desenvolvemos e estimulamos “o pertencer” numa cidade, numa comunidade ou grupo social, mais as questões envolvendo o coletivo e colaborativo se materializam para a resolução dos problemas vigentes. Sim, o resultado é mobilização.

Estas noções não aprendem somente naturalmente. É preciso estimular o pertencimento, mobilização e até mesmo o bem viver.

Se nos sentimos pertencentes ao lugar, por exemplo, ao Rio Sorocaba ou a um bairro ou um parque, vamos defende-lo, nos mobilizar, sentir orgulho dele e cuidar.

Em outras palavras o estímulo à Cultura muda a percepção das pessoas em relação à vida. Desenvolver a Cultura é desenvolver as pessoas e, por consequência, a cidade e os seus cidadãos.

Por isso Educação e Cultura não são campos opostos. Trabalham com a mesma utopia: a de mudar o mundo.

Porém, quando eu olho a realidade a nossa volta e vejo o orçamento destinado à Cultura do município de Sorocaba, na LOA 2020. O menor orçamento nos últimos 5 anos. Verifico, também, que já foram nomeados para esta secretaria, nos últimos dois anos, mais de seis secretários.

Nesse contexto é que observo a pouca relevância dada à Cultura no governo municipal. Ao mesmo tempo, no âmbito federal, as políticas culturais estão sendo desidratadas e os agentes culturais perseguidos. Espetáculos sendo censurados e no dia a dia agentes políticos (que são personagens passageiros) falando mal de artistas. A saber que muitas destas pessoas, infelizmente, nunca foram assistir a nenhum espetáculo teatral ou sequer leram uma peça de teatro.

Sem o exercício e o estímulo a prática na Cultura nos aproximamos da barbárie. As ruas  e os parques públicos ficarão vazios. Na verdade cada qual passará a desejar ter o seu próprio parque privado. O individualismo superlativo impera. Os justiceiros a margem da justiça, também. Juntamente com um o mar de trabalhadores miseráveis. Concentração de riquezas. Lideres messiânicos, etc.

Enfim, na história já vimos este filme. Pena que não conseguimos aprender. Porque a solução histórica, que fez o coletivo e a cidadania voltar o centro da discussão na sociedade, foi a guerra.

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