Gravados na memória, os sabores de infância nos reconectam às raízes, levando-nos de volta à meninice e a sonhar com um mundo melhor

Rémy, o chef ratinho, e o aprendiz Alfredo Linguini, seu companheiro nos fogões

MARCO MERGUIZZO – Quando levou à boca a primeira garfada de ratatouille – um refogado de vegetais de tradição campesina originário da Provence, interior da França, feito de modo simples, autêntico e caseiro –, Anton Ego, o mais temido crítico gastronômico de Paris, até se esqueceu de que estava ali, à mesa, para avaliar o restaurante que acabara de lhe servir a iguaria.

De repente, aquele sabor fez o mundo parar, e ele pôde sentir novamente o menino que, depois das brincadeiras, chegava em casa para a refeição, ganhava um afago da mãe e comia aquele manjar preparado com amor por ela. De repente, ele não era mais o adulto ranzinza e ególatra (não sem razão, o sobrenome do personagem é Ego, termo que provém do latim illud, conceito psicanalítico que descreve a psique) – e, sim, o garoto protegido pelo carinho e mimos culinários da matriarca.

De fato, os sabores da infância que ficam gravados no paladar e em nossas memórias têm aquele quê emocional e nostálgico, uma coisa quase mágica, quando nos sentamos à mesa para nos alimentarmos. Apenas quando nos deparamos com determinados cheiros e gostos, é que nos damos conta da impressionante capacidade que eles têm de nos deixar pequenos e ingênuos de novo. Ou seja, tais sensações olfativas e gustativas ficam eternizadas, marcando de forma indelével e para sempre a nossa trajetória de vida.

Além de definir na maioria das vezes nossas predileções no prato e no copo, tais lembranças, quase que involuntárias, são capazes de nos transportar ao passado, fazendo-nos viajar e nos reconectar às nossas raízes e aos tempos de meninice. Um sentimento que nos faz lembrar de momentos muito especiais. Mais: de aromas. De sabores. De pessoas. De histórias. E, ainda melhor, o de voltar – e poder – sonhar com um mundo melhor. Pois que, neste 12/10, dia das crianças e de Nossa Senhora Aparecida, figura materna que destila doçura, este mesmo espírito e os doces paladares de infância voltem a nos inspirar, ajudando a tornar a realidade atual menos dura e amarga.

Um ratinho por trás do avental
Imagens: Pixar Studios (Divulgação)

Batizado com o nome deste clássico da gastronomia francesa, o desenho animado Ratatouille, lançado pela Disney-Pixar em 2007, retrata de um jeito cativante e para lá de divertido a saga do ratinho Rémy, um talentoso cozinheiro que reside em Paris, considerada a capital da melhor gastronomia do mundo. Seu sonho é tornar-se chef de cozinha e discípulo de Auguste Gusteau, famoso cozinheiro da Cidade Luz. O único problema é que ele é um rato. Trabalhando escondido dentro da touca de chef de um jovem aprendiz de cozinheiro, Alfredo Linguini, Rémy transforma o seu sonho em realidade e começa a brilhar intensamente à frente dos fogões de um dos restaurantes mais finos de Paris (veja o trailer, logo abaixo, ao final do post; no Youtube é possível assisti-lo na íntegra).

Na película animada, o crítico gastronômico Anton Ego não foi o único a visitar a infância depois de provar uma receita que, sem ele saber, havia marcado um momento de sua vida. A cena, por sinal, teve como inspiração um episódio vivido por outro personagem não de um filme mas de um clássico literário. Quase cem anos antes de Ratatouille, o escritor francês Marcel Proust (1871-1922) contava uma história semelhante no primeiro volume de seu romance Em Busca do Tempo Perdido, escrito originalmente ao longo da década de 1910.

O temido crítico gastronômico Anton Ego e, abaixo, a dupla de…
… cozinheiros protagonistas: sabores que emocionam e fazem sonhar

Sentado à mesa da casa da mãe, ele então vivia a experiência de voltar aos tempos de menino na cidade de Combray. Uma viagem feita através do chá servido com madeleines – um bolinho em formato de concha, típico da confeitaria clássica francesa. “Aquele gosto era o do pedacinho de madeleine que minha tia Léonie me dava nas manhãs de domingo em Combray (porque nesse dia eu não saía antes da hora da missa), quando ia lhe dar bom dia no seu quarto, após mergulhá-lo na infusão de chá ou de tília que ela preparava.”

Desde então, as madeleines de Proust viraram uma espécie de símbolo dos alimentos capazes de nos fazer lembrar de momentos infantis que nem tínhamos consciência da importância que têm e terão ao longo da vida em nossos corações e mentes.

Comfort food: comida que afaga a alma
As madeleines de Marcel Proust: doce memória da infância do escritor

Alguém já disse por aí, com boa dose de razão, que comida é sobretudo emoção. Por vezes, um prato ou um vinho, mesmo não sendo elaborados com as melhores matérias-primas e tecnicamente serem os mais perfeitos, costumam dar um “clique” em nossas cabeças, brindando não só o paladar mas o nosso espírito e nos fazendo lembrar da infância e daqueles momentos felizes que tivemos à mesa junto de nossas mães, tias e avós, e cujos sabores “celestiais” e temperos “inigualáveis” – pelo menos para nós! – são missão impossível de serem reproduzidos até pelo mais famoso e estrelado dos chefs de cozinha.

Essas referências preciosas, ternas e inesquecíveis da nossa memória gustativa ou como esse estilo de linha culinária é classificada mais modernamente – a chamada comfort food (ou cozinha confortável, em bom português), affective cooking (culinária afetiva), umami (termo de origem japonesa intraduzível que significa “sabor delicioso e agradável”) ou, enfim, aquela que satisfaz o paladar e a alma – são valiosíssimas para a formação dos nossos gostos e preferências à mesa, sendo a base da construção do nosso paladar, o qual ao longo da vida, servirá de bússola e epígrafe permanentes para outras experiências gastronômicas, sejam elas boas ou más.

Algumas receitas passadas de geração em geração e de boca em boca, de vovós para filhas e destas para as netas, caso do brigadeiro – um clássico culinário genuinamente brasileiro e hoje “vítima” também de modismos gastronômicos passageiros e da onda gourmetizante que se abate sobre alguns alimentos -, simboliza em boa medida esse sentimento, seja para a criançada, seja para a enorme legião de marmanjos que não resiste à essa tentação de paladar infantil.

Brigadeiro para adoçar os eleitores
À mesa e nas urnas: “Vote no Brigadeiro. Além de bonito, é solteiro.”

Pois bem. Não fosse o ingresso do brigadeiro Eduardo Gomes (1896-1981) na política, a guloseima-símbolo de toda festa de aniversário que se preze, o brigadeiro não existiria. Eduardo Gomes era um militar da Força Aérea do tipo galã. Tinha musculatura trabalhada pela educação física, boca pequena, rosto oval e nariz aquilino. Assim, foi cortejado pelas garotas de Petrópolis, cidade serrana do interior fluminense onde nasceu e viveu namoros furtivos.

Já cinquentão, em sua primeira campanha presidencial, um grupo de cariocas criou um doce feito de chocolate e leite condensado e passou a vendê-los nos comícios para levantar fundos. A iguaria recebeu o nome de sua patente: brigadeiro. Suas admiradoras ainda assinariam um marcante slogan: “Vote no Brigadeiro. Além de bonito, é solteiro.”

À época, nascia a União Democrática Nacional (UDN), partido político conservador que se opunha ao regime populista de Getúlio Vargas, no final do Estado Novo. O primeiro candidato à presidência do novo partido foi Eduardo Gomes. Antes de sua candidatura, o militar já era famoso no Brasil. Conhecido como “o Brigadeiro”, ele participou de um movimento liderado por tenentes que defendiam reformas sociais. Em julho de 1922, um grupo liderou uma revolta no Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro. Quase todos foram mortos a tiros na praia, exceto Gomes e Antônio de Siqueira Campos.

Eduardo Gomes entrou na política, unindo-se contra o populismo e se tornou o rosto de um movimento destinado a desmantelá-lo. Em 1945, enquanto concorria à presidência, também demonstrava que não estava comprometido. Um dos slogans de campanha era: “Vote no brigadeiro, que é bonito e solteiro”. 

Entre as ações heroicas do brigadeiro – ele participou da Revolução de 1924, em São Paulo, e lutou contra a Intentona Comunista, em 1935 –, está a sua ação na Revolta dos 18 do Forte de Copacabana em 1922. Empunhando uma espingarda e um pedaço da bandeira nacional, ele e alguns poucos militares marcharam pela orla carioca em direção aos 3.000 soldados do governo de Epitácio Pessoa, que se opunha ao ideal democrático desejado por setores de baixa patente das Forças Armadas.

Alvejado por um tiro de fuzil, Eduardo Gomes foi internado, preso e excluído da carreira militar (que seria retomada anos depois). Após o seu retorno, o revolucionário exercitou a sua porção democrática até o fim. Ele foi duas vezes ministro da Aeronáutica, implantou o Correio Aéreo Nacional, um dos fatores de integração do País, e se tornou o patrono da Força Aérea Brasileira (FAB).

Queridinho desde os anos 1940
Fotos: Arquivo e Bancos de Imagens

Feito de leite condensado, chocolate em pó e manteiga para ser moldado com as mãos sob a forma de uma bolota salpicada de chocolate granulado – o brigadeiro se popularizou na década de 1940, quando o racionamento tornou o leite condensado um substituto comum para sobremesas. Ou seja: lá se vão quase 80 anos em que essa tentação ultrapopular é festejada por pessoas de todas as idades e classes sociais.

Naqueles idos já longínquos, as mulheres vendiam a guloseima para turbinar a campanha do candidato à presidência, o brigadeiro Eduardo Gomes, durante a primeira eleição nacional em que as brasileiras votaram. Como se sabe, as mulheres começaram a se unir pela igualdade de voto no século 19. Os esforços de entidades sufragistas, como a Federação Brasileira Pelo Progresso Feminino, liderada pela cientista, política e delegada da ONU e Bertha Lutz, ganharam força quando as mulheres conquistaram o direito ao voto na Europa e nos Estados Unidos. Após décadas de luta, as brasileiras obtiveram-no em 1932.

No entanto, havia restrições: apenas as casadas que tinham permissão de seus maridos, solteiras que recebiam seus próprios salários e viúvas podiam para votar. Isso afetou a participação política das mulheres, já que a extensão do voto às mulheres no Brasil era uma maneira de incluí-las na esfera pública, garantindo ao mesmo tempo que a esfera privada não sofresse nenhuma perda. Graças aos esforços contínuos na luta pela igualdade, o voto tornou-se obrigatório a todos os brasileiros, independentemente do sexo, entre 1945 e 1946. 

Leite condensado: alimento de guerra
Leite condensado: base do brigadeiro, foi criado em tempos de escassez

De qualquer maneira, o ingrediente basilar do brigadeiro é uma criação do início do século 19. Segundo registros, a primeira técnica para produzir o leite condensado de que se tem notícia surgiu na França em 1827. Entretanto, o produto só passou a ser fabricado em escala industrial três décadas mais tarde, graças ao norte-americano Gail Borden Jr., que patenteou o processo em 1867.

A intenção era utilizar a evaporação para reduzir o volume do leite e aumentar a sua durabilidade, pois naquela época — sem geladeiras nem processo de pasteurização — era comum que esse alimento estragasse antes de chegar aos consumidores. No entanto, o leite condensado só foi ficar famoso mesmo durante a Guerra de Secessão nos EUA — que ocorreu entre 1861 e 1865 —, depois de se tornar um dos alimentos fornecidos aos soldados. As latas eram práticas e fáceis de transportar e representavam uma excelente fonte de energia, já que cada porção contava com 1.300 calorias.

Transportando leite em pó e leite condensado para as tropas – e depois colocando esses produtos no mercado, Borden ficou rico. Mas foi somente alguns anos mais trade, em 1867, que surgiu a primeira indústria criada especialmente para a produção comercial do leite condensado. Foi quando o americano George H. Page, proprietário da empresa Anglo Swiss Condensed Milk iniciou na cidade suíça de Cham a fabricação de leite condensado, utilizando o leite abundante e de boa qualidade produzido no país. Rapidamente o produto fez sucesso na Europa, principalmente entre as mulheres, que reforçavam a alimentação de seus filhos dando-lhes o energético e açucarado leite condensado.

O leite da moça

A Sociedade Nestlé, por sua vez, iniciou a fabricação de leite condensado logo a seguir. Essa concorrência entre as duas empresas terminaria em 1905 numa fusão que deu origem a Nestlé & Anglo Swiss Condensed Milk Co. A jovem com trajes típicos que aparecia nos rótulos das embalagens do produto era uma camponesa suíça do século XIX. Naquela época, o leite condensado mais popular da Suíça tinha a marca La Laitière, que significa “vendedora de leite”.

Quando esse leite foi exportado para outros países, procurou-se um nome equivalente na língua de cada região para onde o produto foi levado, nome este sempre associado à figura da camponesa típica com seus baldes de leite. Em espanhol, por exemplo, foi adotada a marca La Lechera e, na língua inglesa, o seu sucedâneo Milkmaid.

Os primeiros carregamentos de leite condensado chegaram ao Brasil em 1890 como uma alternativa ao leite fresco, cujo abastecimento era problemático. O produto era vendido nas drogarias e, inicialmente, comercializado com o nome de Milkmaid, chamado assim pela falta de uma palavra equivalente em português. Mas os brasileiros tinham dificuldade para pronunciar o nome inglês e passaram a chamar o produto de o “leite da moça”, referindo-se à ilustração da camponesa no rótulo. Assim nasceria o Leite Moça.

Com o fim dos conflitos, a “felicidade enlatada”, como ficou conhecido o leite condensado, acabou saindo dos campos de batalha e chegando aos mercados – e foi apenas uma questão de tempo até o produto conquistar o mundo inteiro. Aqui no Brasil, existem registros de que o leite condensado já era comercializado em 1871, como atesta um anúncio da época publicado no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Corte e da Província do Rio de Janeiro.

Sabe-se que ele foi inventado para esterilizar a pré-refrigeração do leite e tornou-se indispensável em tempos de guerra, em especial durante a Guerra da Secessão americana e nas Primeira e Segunda GGs Mundiais. Sobretudo nesta última, criou-se um déficit de importações de produtos essenciais, como frutas e castanhas, daí os doces passaram a ser feitos com o que havia disponível. No Brasil, o leite condensado integrou a dieta dos pracinhas da Revolução Constitucionalista de 1932 (confira, acima, uma propaganda da época). A produção era oriunda de uma fábrica da Nestlé – a primeira do país -, construída no início da década de 1920, em Araras, no interior paulista.

Pode até ser que o brigadeiro tenha sido inventado antes até dos anos 1940, mas a Nestlé só passou a comercializar o chocolate em pó no Brasil naquela década. Juntamente com a candidatura de Eduardo Gomes, os anúncios publicitários da empresa ajudaram a novidade a decolar. Não está claro por que os apoiadores de Gomes escolheram o doce para ganhar votos para o brigadeiro. Ele perdeu a eleição para Eurico Gaspar Dutra (1883-1974), mas a devoção pelo leite condensado – e pelo brigadeiro – dura até hoje. 

PARA VER E CURTIR:
RATATOUILLE (2007)TRAILER
RATATOUILLE (DISNEY/PIXAR 2007) – DESENHO NA ÍNTEGRA
MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
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2 comentários em “Gravados na memória, os sabores de infância nos reconectam às raízes, levando-nos de volta à meninice e a sonhar com um mundo melhor

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  1. Que texto incrível (como sempre), Marco!

    Fiquei curioso, fiquei com fome, fiquei com vontade de preparar um bom brigadeiro. Acho que cai em todas as catarses possíveis que seu texto se propõe a nutrir.

    Grande abraço!

  2. Pie, caríssimo, que coisa boa começar a semana lendo esta tua mensagem. Putz, nem sei como te agradecer. Que as nossas vidas sejam doces, ternas e gentis como você, meu amigo. Grande abraço.

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