A Revolução de 1924 e a fundação do Sorocaba Clube

GERALDO BONADIO – Dia 9 de novembro, pela manhã, a Academia Sorocabana de Letras realizará uma sessão solene no Sorocaba Clube, que naquela data, completa 93 anos de fundação. Parece estranho – dada a natureza absolutamente pacífica da agremiação, hoje presidida pelo memorista piedadense Benedito Maciel de Oliveira Filho -, mas ele é um desdobramento da importante e pouco conhecida Revolução de 1924.

Chamada, frequentemente, de Revolução de Isidoro, em homenagem ao seu líder de mais alta patente militar, o general Isidoro Dias Lopes, teve como articulador maior Miguel Costa, coronel da Força Pública com amplo trânsito junto às fileiras.

Alguns de seus momentos marcantes são conhecidos: a fuga do governador Carlos de Campos, um político que também cultivava o teatro e a música, para os arredores da Capital, depois que Palácio dos Campos Elíseos, foi bombardeado pelos revoltosos; no momento seguinte, o canhoneio, pelo Exército, de áreas densamente povoadas da cidade de São Paulo, cumprindo ordem do mesmo Carlos de Campos; a retirada dos revolucionários para o interior, coordenada pelo lendário tenente (da Força Pública) João Cabanas; a eclosão da revolta no Rio Grande do Sul e a marcha efetuada pelos revoltosos daquele Estado, sob o comando do capitão Luiz Carlos Prestes, seguida da junção destes com os liderados por Miguel Costa, que gerou a coluna Miguel Costa-Prestes.

Menos conhecido é o importante papel dos Batalhões Voluntários, organizados em Itapetininga pelo Coronel Fernando Prestes, seu filho Júlio Prestes e Ataliba Leonel, que, em avanço para a Capital, tomaram as cidades de Sorocaba, Itu e Mairinque, ocupadas pelos rebeldes.

Pouquíssimos sabem da ativa participação, no movimento dos filhos do Comendador Pereira Inácio, numa atitude que comprometeu o futuro da Fábrica de Votorantim, salva do desastre pelo genro do patriarca, que logo cuidou de afastar os cunhados da direção da empresa.

Por fim, quase totalmente desconhecido fora de nossa cidade, é o episódio que, em seus desdobramentos, deu origem ao Sorocaba Clube. Vamos a ele.

Durante a República Velha – ou seja, até 1930 -, nada, na política paulista, era deixado ao acaso. O Partido Republicano Paulista governava e seus candidatos venciam todas as eleições. Ponto fora da curva, a Revolução de 1924 abalou a saúde do governador Carlos de Campos a tal ponto que ele faleceu no exercício do mandato, precipitando a ascensão ao governo paulista de Júlio Prestes de Albuquerque – o que, adiante, embaralharia as cartas da sucessão presidencial e daria causa à Revolução de 1930. Em nossa cidade, essa inesperada reviravolta gerou a queda do comando do senador (estadual) Luís Pereira de Campos Vergueiro – e seu grupo político, forte principalmente na região – do comando do todo-poderoso Diretório Municipal peerrepista.

Aparentado com dona Amélia de Cerqueira Cesar Machado de Araújo, esposa do farmacêutico – e depois advogado – João Machado de Araújo, o novo governador paulista, a exemplo do que já fazia em seus tempos de deputado federal e líder do presidente Washington Luís na Câmara dos Deputados, nos finais de semana, caminho de Itapetininga, parava na residência do casal em Sorocaba. Atendendo aos pedidos de dona Amélia, traçou, com João Machado, a estratégia para dotar a cidade do Ginásio e da Escola Técnica de que Sorocaba carecia e a cuja instalação Vergueiro se opunha, alegando que uma cidade de operários não precisava disso.

Em razão disso, a criação do Ginásio Municipal, semente do Estadão, e da Escola Fernando Prestes, foram antecedidos da derrubada política de Vergueiro. Isso o deixou, inclusive, sem condições de confabular com seus leais seguidores no Clube União Recreativo. Decidiu, por isso, constituir, no espaço mais próximo possível, o Sorocaba Clube, fundado, oficialmente, em 9 de novembro de 1926.

É claro que, nestes quase cem anos, muita água passou por baixo da ponte. Nesse meio tempo, vários descendentes de João Machado se tornaram diretores do Sorocaba e Vergueiro, notável camaleão político, migrou da, digamos assim, direita do PRP para o getulismo. Quando o Estado Novo caiu, em 1945, ele chefiava o mais getulista de todos os órgãos públicos federais em São Paulo: a Delegacia Regional do Ministério do Trabalho.

Mas essa já é outra história.

Crédito imagem Câmara Municipal de Sorocaba

Um comentário em “A Revolução de 1924 e a fundação do Sorocaba Clube

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  1. Geraldo desconhecia totalmente essa posição ” educacional” do Vergueiro. A direita sempre nos impressiona. Pra mim, o Sorocaba era o Clube popular e o recreativo da elite.
    Bela história

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