Ressuscitem o rock

FREDERICO MORIARTY – Peguei o Cometa de madrugada e fui pro Rio. Iria me encontrar com uns amigos cariocas que haviam jogado basquete em Sorocaba. Pela primeira vez teríamos um festival de Rock no Brasil. Era janeiro de 1985 e chovia muito. Bandas de qualidade internacional se misturavam a ilustres desconhecidos, cantores da MPB e de bandas do nascente rock nacional.

Ingresso original do Rock In Rio 1985 (Arquivo do Correio Brasiliense)

Camisa de Vênus era uma banda baiana liderada por Marcelo Nova. Fazia hits pegajosos como “Eu não matei Joana d’ Arc”, “Silvia Piranha”. Falo dela, porque a Globo proibiu a mesma de tocar no festival. Motivo: o nome era um palavrão. Pra quem nasceu nos anos 90 em diante isso não deve fazer o menor sentido. Para os anciãos é uma comédia. Até o final dos anos 80 comprar uma camisinha era um parto. A indumentária ficava no fundo da farmácia e a gente (em pânico) tinha que pedir para o vendedor como se fosse um remédio tarja preta e, absurdo maior, que era proibido para menores.

– É de maior?
– Tem RG? CPF? Carteira de Trabalho? Vacinado? Armado?

Conquistado o troféu, o cara da farmácia te encarava como se você fosse o demônio em pessoa, enquanto cobrava pela relíquia.

– Não entendi ainda, Frederico.

É o seguinte, depois da AIDS e do fim da ditadura ninguém mais sabe que Camisa de Vênus é o nome científico do preservativo masculino. Camisa de Vênus é algo tão obscuro quanto “caiu a ficha”. Anos depois, Marcelo Nova, o vocalista da banda, falou que se soubesse da evolução dos tempos, teria dado o nome de Ejaculação Precoce para a banda. Tempos bicudos.

Álbum ao vivo da banda Camisa de Vênus (1986)

Para o Rio vieram AC DC, Iron Maiden, Queen, Rod Stewart, Scorpions e as bandas nacionais como o Camisa, os Paralamas do Sucesso, os Titãs, o Kid Abelha e o Barão Vermelho. Sem equipamentos, sem estrutura, sem horário nobre e sem poder sequer conversar com os “astro” internacionais, os roqueiros tupiniquins eram acessórios apenas. Até os microfones eram exclusividade dos estrangeiros. Roberto Medina, o empresário que até hoje organiza os festivais, sempre soube utilizar os benefícios públicos e apoio privado para desmerecer o Brasil.

A entrada maravilhosa do Rock In Rio 1985 (Banco de Imagens)

Estava em Olaria num dos dias em que fui ao Rock In Rio. Três da tarde. Peguei um ônibus exclusivo pro festival. Andou, andou, passou pela praia de Copacabana. Andou, andou, praia, andou, andou, praia. Rocinha. Uma hora e meia depois chegamos em Jacarepaguá. Bem depois do então vazio demográfico da Barra da Tijuca. Eu de bermuda, camiseta e o velho dóquisaider, item obrigatório de um adolescente anos 80. Se fosse endinheirado, a marca era Samello.

Mas não acabou a tortura. A gente precisava andar mais uns dois quilômetros até o local. Era um terrenão baldio gigantesco. Largo pra danar. Andava-se um monte até parar em frente ao palco. Banheiro? Ficavam nas duas pontas do terreno, distante uns 323 km um do outro e cada um deles com uma guarita vendendo cerveja (torrando), refri e sanduíches do Jack In The Box (geladíssimos).

Era desestimulante chegar até lá. A fila era apoteótica. 100 mil pessoas querendo mijar em uma dezena de latrinas fétidas e entupidas. Foi um primor de organização. Para piorar choveu das 17h às 3 da manhã quando acabaram os shows. Perdi meu primeiro RG nesse dia, encharcado de barro e água de chuva.

A chuva chegando ao Rock in Rio, na longínqua Jacarepaguá

Vamos à música. Nesse dia tocaram AC/DC e Scorpions. Nacionais foram o Kid Abelha (à época com os Abóboras Selvagens) e o Barão Vermelho. E algumas porcarias que nem me lembro. AC/DC dispensa comentários. Scorpions é banda de um hit só. Kid Abelha tinha a Paula Toller.

AC/DC no palco do Rock in Rio 1985

Sobrava o Barão Vermelho. Formada em 1981, nos três primeiros LPs (leitorxs, sou dinossauro, o CD apareceu em 1989 no Brasil) seu vocalista era o poeta Cazuza. O Barão cantava músicas como “Bilhetinho Azul”, “Todo Amor que Houver nessa Vida”, “Pro dia Nascer Feliz”, “Carente Profissional” e “Maior Abandonado”, entre outras baladas com som próximo aos dos Stones.

O segundo LP do Barão Vermelho

Na segunda faixa do segundo disco, cantada no Festival de 1985, Cazuza fez uma versão arrepiante de Dowm on me, de Janis Joplin. Na versão muito longe de ser um “juntos e xalou naum”, Cazuza interpretou “Down em mim”. Influenciados por Rolling Stones, Doors e pelo blues, o Barão Vermelho com Cazuza nos vocais foi até 1985, quando o poeta resolveu seguir carreira solo. Produziu mais uma dezena de CDs de boa qualidade e se separaram somente em 2018. Cazuza escreveu letras como “Brasil” e “Ideologia” em seus três Cds solos, na curta carreira solo, consumido pela Sida em 1991.

Cazuza

Voltemos à música. “Down em Mim” reúne a guitarra estridente de Frejat, com solos que não deixavam nada a dever às bandas internacionais (sem o dinheiro e as tecnologias dos mesmos). Nos teclados, Mauricio Barros lembra Manzarek e conduz o “blues” deprê de forma tensa. Guto Goffi era o melhor baterista da geração do rock nacional, talvez porque Vital quis ficar na capital. O baixo de Dé aparece pouco em “Down”, mas marcava o ritmo entristecido da melodia. Só isso e a música já seria bonita.

Mas ela tinha a expressão ferina de Cazuza nos vocais. Uma voz que se arrasta como a persona da letra. Um tom rasgado, um timbre dolorido, que dão uma força ainda maior às letras. Cazuza não canta, ele vive a música. A sequência final parece que sentimos as agulhadas na alma sofrida. Um clássico.

Cazuza ao vivo no Rock In Rio 1985

Mas não é só isso, a letra tem versos que elevam o sentimento rocker. “Quando o sol vier socar a sua cara!”. Nada de sol bater na janela do seu quarto, nada de quem espera sempre alcança, de sentimentalismo piegas; só a dor e o sofrimento.

“E as paredes do seu quarto irão ouvir a versão nova de uma velha história.”

Longe das rimas pobres que nos infernizam, sem “amor com dor”, sem concessões à mediocridade poética. Então vem o achado, a frase para a memória:

“Porque o banheiro é a igreja de todos os bêbados”.

Quando você vai ouvir algo assim atualmente? O banheiro de hoje é só um banheiro e as igrejas são só lugares para enriquecer pastores e insuportáveis cantores “gospel”. Hoje a cornice virou hino. A cachaça virou arminha de bolsominions. Barão e Cazuza eram um símbolo de onde o rock nacional podia chegar. O mundo girou várias vezes e hoje sobraram apenas a tábula rasa do pop, do gospel e dos axés, sertanejos universitários, sofrências.

Na terra plana nada gira. Todos bons moços e moças, tomando sua Coca zero e comendo frutinhas. Postando fotos perfeitas, vidas perfeitas e relações perfeitas nas redes sociais. Música de terno e gravata. Letra de encomenda para o mercado e escrita por meia dúzia de produtores musicais.

Que venham novos rockers para destruir o sistema.

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