O Centro do seu Deserto

FREDERICO MORIARTY – Todos nós nos deparamos com personalidades semelhantes a um vaso chinês. Abaulados, tomados de detalhes e com uma beleza kitsch. Podem ser sensíveis, aparentemente cultos, mas insossos. Sem utilidade. Nenhuma serventia. São objetos que se bastam. Tão apaixonados por si mesmos, tão ególatras que o encanto inicial de sua aparência se desfaz em meio a tanto tédio e solidão narcísica. John Marcher é assim. Sensível, dado a poesias, sentindo-se especial com “um destino único e trágico” pela frente, ele é um Ulisses sem Ítaca.

Vaso chinês à venda no Mercado Livre (Foto: Divulgação)

Henry James escreveu o conto “A Fera na Selva”, em 1903. O maior escritor realista estadunidense (apesar de ter vivido na Inglaterra entre o fim do século XIX e a véspera de sua morte, em 1916) era irmão do filósofo do pragmatismo, William James. Henry e William vieram de uma família abastada de pais eruditos.

O primeiro logo se destacou como um grande romancista. Ele é autor de livros, como “Pelos Olhos de Maisie”, que narra a história de uma menina criada por um casal frívolo, com traições mútuas e abandono sentimental da filha. Com a separação do casal e a adoção dela por novos pais, os erros permanecem. Toda essa tragédia é narrada pelos olhos de Maisie. Um drama atual, mesmo quase um século e meio depois.

O intimismo, o subjetivismo (Henry é psicólogo antes da publicação da “Interpretação dos Sonhos”, de Freud) e o impressionismo são traços em comum de obras como “Retrato de uma Senhora“, “Os Bostonianos” e a novela de terror “A Volta do Parafuso”.

Henry e William Gutemberg´s Project (Fotos: Arquivo)

O irmão, ao contrário, colecionava fracassos e abandonos de graduações. Perto dos 40 anos, William passa a utilizar o pensamento racional e a psicologia comportamental. Decide mentalizar coisas positivas e objetivos nobres. Impõe-se uma disciplina rígida e moral elevada. Estabelece um prazo de um ano. O “método” funciona. A vida do filósofo se transforma. Nascia o Pragmatismo e, décadas depois, a sua filha bastarda: a autoajuda.

A Fera na Selva retrata o encontro de duas vidas comuns. May Bartram, uma bela mulher, rica em sutilezas e tomada de vida. John Marcher é fino, elegante e com sabor de arroz velho em restaurante de beira de estrada. São duas subjetividades desencontradas. May (maio) é fim da primavera nos países do norte. A mulher madura que vive intensamente um amor não correspondido.

John é o mais comum dos nomes. É uma personagem obtusa, incapaz de ver e sentir o óbvio. Os dois se reencontram depois de 10 anos. John tem a memória enevoada, confunde fatos. Preocupado demais consigo. May demonstra a devoção a ele desde o primeiro encontro. O desprezo de John pelo outro é tão grande que ele sequer consegue lembrar a confidência feita à May dez anos antes.

Fac-símile da capa brasileira em tradução de Fernando Sabino

Paulo Betti e Eliana Giardini adaptaram o conto (ou novela curta) para o cinema nacional. Os dois dirigiram e interpretaram os papéis principais. Lauro Escorel codirigiu e fez a fotografia do filme. José Mayer fez a voz do narrador onisciente.

Impactantes e profundos, os artistas deram vida à Maria e a João, nossos May e John. Ao contrário do cinema estrangeiro atual de ritmos alucinantes e frenéticos, ou mesmo da maioria das produções nacionais com narrativas centradas nas comédias de costumes e gagues, A Fera na Selva tem ritmo lento e arrastado.

Mas engana-se quem pensa ser isto um demérito. Para a construção das personagens e o desenvolvimento do enredo, as digressões, as pausas, os longos diálogos, as descrições minuciosas e a música do final do século XIX são essenciais. Não é possível entender o desencontro de duas tragédias pessoais sem essa artimanha do estilo. Paulo, Eliana e Lauro captaram com precisão a obra de Henry James.

Cartaz do filme Fera na Selva (Foto: Divulgação)

Robert Louis Stevenson, autor de dezenas de histórias de aventura, como “A Ilha do Tesouro”, amigo missivista de Henry James, sempre lhe pedia “ponha mais ação nas tuas histórias”. Este respondia: “É a tua escrita – não a minha!”

Outro detalhe estilístico: as semelhanças do escritor do realismo norte-americano com Machado de Assis inundam as telas. Ironia e pessimismo estão presentes e o filme não perde as sutilezas do autor. O pessimismo schopenhaueriano aparece tanto em Maria quanto em João. Talvez Machado fosse mais cético que Henry James.

Brás Cubas deixou como maior legado não ter tido filhos para transmitir a miséria da sua existência. João entende depois de muito tempo que a sua grande tragédia era jamais ter amado Maria e nunca perceber a paixão dela por ele.

Eliane Giardini e Paulo Betti contracenam no filme A Fera na Selva

O filme tem uma bela fotografia. A inventividade trouxe os cenários para pontos marcantes de Sorocaba e Salto, região em que nasceram e viveram Maria (Eliana) e João (Paulo). As imagens da cidade são enevoadas como o pensamento de João. Vemos a fazenda Ipanema em ruínas e a catedral sorocabana com muros pichados.

O patrimônio cultural da cidade do interior paulista transparece. Seja a festa de São João, os cafés que Maria passa com leveza no bule, as praças, as gentes, as danças do candomblé e a professora e bailarina Janice Vieira dançando, cantando e tocando o acordeon, lembrando Alzira, a Louca, uma das figuras mais importantes do folclore sorocabano (assista à sua história no curta-documentário, clicando aqui). O rio da minha aldeia não é o Tejo, mas é o rio da minha aldeia, diria Fernando Pessoa.

O velho se mistura ao novo. O segundo encontro coloca os dois num velho Fusca azul, talvez no início dos anos 60, pelas estradas de terra de então, hoje grandes avenidas com prédios e casas.

Alzira Sucuri, a Alzira, a louca: figura marcante do folclore sorocabano

João e Maria não têm televisão, uma benção que os permita ouvir Gilberto Gil “aqui e agora” no final de tarde. A livraria Flor de Lis – um dos mais importantes símbolos da heráldica – está numa rua moderna, mas claramente tem os livros do século XIX. Mitos do passado da cidade caipira se misturam ao presente. As imagens são tão desencontradas quanto os dois personagens principais. O arcaico se esconde em meio ao que virá.

A Fera na Selva é um belíssimo filme. E brasileiro, como defende Paulo Betti (em sua pièce de rèsistance). Só por isso mereceria ser visto muito mais do que qualquer blóquibãster americano. Mas temos de assisti-lo por motivos mais nobres. Talvez para entender porque João não se redime nem perante a morte, anestesiado pela valorização excessiva da própria existência.

Ouso sugerir uma mudança. Logo após o primeiro encontro de João e Maria na escola em que trabalham, eles sentam-se cada um em sua sala e ouvem a mesma rádio, um sinal da distância entre as duas subjetividades. O radialista nos informa a data dos acontecimentos: início dos anos 80, com a superlua nos céus da cidade.

Esta só voltaria mais de três décadas depois, em 2015, data da morte de Maria. A superlua marcou a passagem dessas duas almas simples, interligadas profundamente, porém distantes por uma eternidade. Talvez coubesse uma imagem final no céu escuro de Sorocaba, a segunda superlua. Metáfora daquilo que João jamais percebeu em sua tragédia pessoal: o amor de sua Penélope.

A FERA NA SELVA (GLOBO FILMES) (2019) – TRAILER

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