A Rede Vespa: ferroadas para refletir

LÚCIA HELENA DE CAMARGO

A paisagem urbana de Havana, a capital de Cuba, pouco mudou desde os anos de 1950, quando Fidel Castro (1926-2016) ascendeu ao poder. Construções belas, mas hoje decadentes e mal cuidadas, vielas, pobreza, os famosos carros antigos, o Malecón – a orla marítima que margeia a cidade. É nesse cenário que paira a câmera do diretor francês Olivier Assayas, para que o espectador entenda o ambiente que envolve o piloto René González (Édgar Ramírez), que foge para Miami, levando seu avião. Ele deixa para trás, na capital cubana, a mulher, Olga (Penépole Cruz) e a filha.

Logo fica-se sabendo que o motivo de sua fuga não é o mesmo da maioria dos cubanos que  deixam o país – tentar uma vida mais confortável nos EUA. Ele vai juntar-se à Rede Vespa (Wasp Network).

Adaptação do livro Os Últimos Soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, o enredo narra a história dessa rede de espiões cubanos que se estabeleceram nos Estados Unidos nos anos de 1990 com o objetivo de se infiltrar nos movimentos terroristas que tentavam derrubar – ou pelo menos desestabilizar – o regime de Fidel Castro. 

Integrados por mercenários recrutados em toda a América Latina (principalmente El Salvador, Porto Rico, Colômbia e Venezuela) e financiados por americanos endinheirados de ultra-direita, os grupos terroristas plantavam bombas em hotéis e locais públicos, na tentativa de disseminar o medo e enfraquecer o turismo, única fonte de receita da ilha caribenha.

Entre os comandantes da Rede Vespa, o elenco traz ainda o mexicano Gael Garcia Bernal, o argentino Leonardo Sbaraglia e Wagner Moura no papel do agente Juan Pablo Roque, que atuando à vontade em espanhol, forma dupla em cena com a cubana Ana de Armas, na pele de Ana Margarita Martine, mulher de Roque.

A intensidade de Penélope

A participação feminina mais marcante na trama de Wasp Network é, como se imagina, da espanhola Penélope Cruz. Com visual menos exuberante, já que vive uma sofrida mãe cubana, ela levanta a intensidade de muitas cenas. Embora tenha trabalhado em diversos filmes americanos nos últimos tempos, atuando em espanhol ela sempre se sai melhor. Sua personagem no filme elogia a filha, que em pouco tempo morando nos Estados Unidos já é capaz de falar inglês sem qualquer sotaque estrangeiro. Talvez o comentário traga um pouco dela mesma.

O filme foi produzido pela RT Features, do brasileiro Rodrigo Teixeira – que tem emplacado produções como  Silêncio do Céu (2016), O Animal Cordial (2017); Me Chame Pelo Seu Nome (2017), A Vida Invisível (2019) e Ad Astra: Rumo às Estrelas (2019).

Wasp Network é um bom filme, embora em alguns momentos a trama soe algo apressada. Sua estreia mundial aconteceu no Festival de Veneza, em 1º de setembro de 2019. A versão que assistimos neste mês de outubro, na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, foi reeditada após o festival italiano. Mas ainda assim fica a impressão de que se a duração do longa fosse um pouco maior as ações seriam mais bem resolvidas. Sentimos que os encaminhamentos finais poderiam ter mais caldo. Mas provavelmente o filme ficaria longo demais as audiências não costumam ter muita paciência. 

Nem esquerda, nem direita

Wasp Network vem recebendo críticas tanto de gente de direita quando de esquerda. Ao assistir o longa, você entende o porquê. Uma grande qualidade do filme é tentar equilibrar versões e ânimos. O francês não doura a pílula quando mostra as condições precárias nas quais vivem os cubanos, sofrendo pela falta de artigos básicos, nem a repressão imposta pelo regime a quem dele diverge. Mas também não alivia nas cores ao nomear a principal causa da carestia cubana: o desumano embargo americano, condenado pela maioria dos países e reforçado na era Trump. Exibe ainda o cinismo dos endinheirados que, empunhando a bandeira de combater o ‘perigoso’ comunismo, não se importam com os “danos colaterais”, como as mortes de turistas desavisados.

Baseado em acontecimentos reais, Wasp Network, além de ser uma boa história, pode convidar à reflexão. Até que ponto alguns estão dispostos a ir para defender uma ideologia?

Exibido na Mostra de Cinema de São Paulo, o filme entra em cartaz no curcuito em breve.

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