Ordenação de homens casados exprime a misericórdia da Igreja face às comunidades católicas da Amazônia

GERALDO BONADIO – Nada justifica o escândalo de alguns ante a sugestão do papa Francisco, aos bispos reunidos no Sínodo da Amazônia, de se ordenar, como sacerdotes, homens casados, com longa e comprovada experiência como maridos e pais. Além de atender as necessidades religiosas dos ribeirinhos e indígenas que povoam a região, eles seriam inspiração e exemplo para suas respectivas comunidades.

A ordenação de diáconos casados é realidade antiga e sólida em muitas das igrejas católicas orientais, parte das quais presentes em nosso país. É esse o caso, na Província Eclesiástica de São Paulo, que limita geograficamente com a de Sorocaba, da Eparquia Nossa Senhora do Líbano, que governa a Igreja Maronita; da Eparquia de Nossa Senhora do Paraíso, a que se vinculam os Greco-Melquitas e do Exarcado Apostólico para os Fiéis de Rito Armênio que, ao lado da Arquidiocese paulipolitana e das várias múltiplas dioceses de rito ocidental, compõem aquela circunscrição eclesiástica.

Integrando em plenitude a comunhão católica, elas têm governo e ritos litúrgicos próprios. Habitualmente, nas celebrações eucarísticas, os fiéis oram em pé e não de joelhos e, no caso dos maronitas, veneram santos – São Charbel, São Maroun – pouco conhecidos dos católicos latinos.

As viagens de Paulo, narradas nos Atos dos Apóstolos, encerram-se com sua chegada a Roma, ao cabo de intensa atividade focada nos grupos cristãos do Oriente. Ou seja, o cristianismo ali floresceu e se consolidou antes de se difundir no Ocidente. Em muitas dessas comunidades que nasceram da pregação dos apóstolos, desde as origens, a formação para o sacerdócio contempla a ordenação de diáconos casados.

A Amazônia, como o Sínodo relembrou, é um território de enorme extensão, que se estende por diferentes países. Criar, para os católicos que a habitam, a possibilidade de contar com presbíteros casados que possam celebrar a Eucaristia e atender confissões, é um carinhoso gesto de cuidado e misericórdia, cuja extraordinária importância dispensa demonstração.

Em livreto de 24 páginas sobre “As Igrejas Católicas Orientais”, publicado em 1962 pela Editora Vozes, o teólogo Patrick J. Hamell invoca, logo no início (p. 4) o ensinamento do papa Bento XV (1914-1922): “A Igreja de Jesus Cristo não é nem latina, nem grega, nem eslavônica, mas católica; portanto não faz diferença entre seus filhos Gregos, Latinos, Eslavos e membros de outras nações que são iguais aos olhos da Sé Apostólica.” Pio XII (1939-1958), por seu turno, destaca a importância de os católicos conheceram, na Igreja, “sua beleza arrebatadora na diversidade dos seus ritos.”

Em essência, o que o papa Francisco propõe, é, apenas e tão somente, que se considere extensão, aos parâmetros geográficos, históricos e sociais da contemporaneidade, de uma diretriz viabilizadora do perene e essencial mandato do ide e prega, contido no Evangelho.

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